UOL Notícias Internacional
 

08/01/2006

Os meninos do Brasil

The New York Times
LARRY ROHTER

No Rio de Janeiro
Ao longo dos anos, Zezé di Camargo e Luciano, os irmãos que formam uma das principais duplas de música rural do Brasil, se acostumaram a ouvir pessoas dizerem que a história de sua vida daria um filme emocionante. É uma história clássica de gente pobre que faz sucesso na vida: dois meninos que trabalham no campo passam da pobreza ao estrelato incentivados por um pai agricultor que sacrifica tudo por eles. Mas nada em sua experiência no ramo da música os preparou para o que aconteceu depois que o filme "baseado numa história real" foi rodado e lançado no país em agosto.

Divulgação 
Zezé di Camargo e Luciano entre os atores Márcio Kieling, à direita, e Thiago Mendonça

"Dois Filhos de Francisco" não apenas conquistou um novo respeito por um gênero musical muitas vezes desprezado como bateu recordes de bilheteria e foi o indicado do Brasil para o Oscar de melhor filme em língua estrangeira.

Mais que apenas um filme com final feliz, "Dois Filhos de Francisco" tornou-se um fenômeno cultural e sociológico. Francisco, o pai combativo e sensível, que ainda vive, emergiu como um símbolo nacional de perseverança, e a combinação de adversidade que é recompensada com sucesso claramente atingiu a veia emotiva das platéias.
"Consideramos esse filme uma ferramenta útil para toda a sociedade", disse Zezé di Camargo, 43. "Mostramos as deficiências do Brasil, mas no final há um vitorioso."

Mesmo críticos famosos por seus critérios exigentes, nas cidades mais cosmopolitas do país, foram conquistados pela mensagem positiva do filme, e alguns admitiram que se comoveram até as lágrimas. "Por amor ao cinema e ao Brasil, você não pode deixar de ver este filme", escreveu Luiz Carlos Merten no jornal "O Estado de S.Paulo".

O momento do lançamento do filme também foi propício. O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, outro rapaz pobre que superou as probabilidades desfavoráveis em sua ascensão, está paralisado desde maio pelo pior escândalo de corrupção na história moderna do Brasil, deixando a população desiludida e muito necessitada de um reforço à sua auto-estima.

Para os espectadores estrangeiros, "Dois Filhos de Francisco" oferece a visão de um Brasil pouco conhecido fora de suas fronteiras. O mundo do filme não são os salões sofisticados de Copacabana, onde a foi inventada bossa nova, nem os violentos guetos urbanos, mas um Brasil mais rural e tranqüilo, onde ainda predominam valores tradicionais e um modo de vida mais simples.

O ator José Dumont, que faz Miranda, o primeiro empresário inescrupuloso dos irmãos, vem desse meio: ele aprendeu a ler sozinho quando vivia no interior e finalmente conseguiu chegar ao sul do país. Já participou de cerca de 50 filmes, quase sempre no papel de um agricultor ou migrante iletrado, mas disse que o roteiro de "Dois Filhos de Francisco" reflete seu próprio passado mais que qualquer outro que já leu.

"Essa história é a síntese da experiência brasileira, e é boa para nossa auto-estima como povo", ele disse. "São pessoas que vêm do nada, mas acabam no topo, não porque se aproveitaram de outros, mas porque batalharam muito, honestamente, e perseguiram seu sonho."

Tanto por seu estilo como pelo tom, "Dois Filhos de Francisco" é notadamente diferente dos últimos dois filmes brasileiros que marcaram o panorama internacional. "Central do Brasil" e "Cidade de Deus" tinham uma visão desolada da vida, com o último também chamando a atenção por suas notáveis inovações visuais.

Em comparação, o diretor de "Dois Filhos de Francisco", Breno Silveira, escolheu deliberadamente um estilo que descreve como "seco, simples e direto". Ele disse que não explorou a pobreza da família Camargo além do necessário. "As pessoas sempre falam sobre miséria, mas não acredito nisso", ele disse. "Somos um povo feliz e esperançoso, e eu quis refletir isso."

Para dar mais autenticidade ao filme, a maior parte dele foi rodada perto da cidade natal dos irmãos, Pirenópolis, onde Zezé di Camargo começou cantando em festas de igreja e feiras rurais quando menino, não muito maior que o acordeão que ele tocava. Mais de 300 duplas infantis de música sertaneja fizeram teste para os papéis dos irmãos quando crianças, e embora os jovens escolhidos realmente fossem cantores e músicos nenhum havia atuado antes.

O Brasil é geralmente associado à bossa nova e ao samba, mas a música que Zezé di Camargo e Luciano e outras duplas semelhantes apresentam -- conhecida como "música sertaneja"-- é igualmente popular, ou mais. Nos últimos 15 anos, os irmãos venderam cerca de 22 milhões de discos, estrelaram especiais de televisão e lotaram salas de shows, rodeios, feiras e até estádios de futebol em todo o país.

"A verdadeira força deste país, econômica e cultural, ainda vem do interior, que é o lugar de onde nós e nossa música viemos", disse Zezé. "Nosso estilo de música não é uma coisa inventada ou imposta pela mídia, mas está no sangue das pessoas. Vem das canções que nossos pais e avós ouviam e têm um sabor genuíno da vida no campo."

Romantismo açucarado

Para os americanos, um ponto de referência seria a música "country". Na verdade, os irmãos Camargo às vezes usam guitarras elétricas e violinos em sua música, já gravaram um álbum em Nashville (em espanhol) e conhecem artistas que vão de Vince Gill e Garth Brooks a Reba McIntyre e Shania Twain.

Mas aqui, assim como nos EUA, as pessoas sofisticadas da cidade geralmente tendem a desprezar a música de seus irmãos rurais. As que não gostam do estilo sertanejo, e são muitas, geralmente se queixam de que suas letras são românticas e açucaradas demais e suas melodias, simples e repetitivas.

"Quando contei às pessoas que ia fazer esse filme, muitas torceram o nariz", disse Silveira. "Existem muitas barreiras e preconceitos, e essa era uma das coisas que eu esperava que o filme superasse."

Nascido em Brasília, Silveira, 43, é filho de um arquiteto que fez parte da equipe que projetou a capital brasileira e passou parte da vida no exílio na Argélia e na França, onde estudou cinema.

Ele começou sua carreira fazendo documentários nas favelas, depois dirigiu videoclipes e comerciais e também trabalhou como diretor de fotografia em dez longas-metragens. Ele havia tentado comprar os direitos do livro "Cidade de Deus" e estava trabalhando em outro projeto ambientado nas favelas. Embora fosse seu primeiro longa-metragem, Silveira não se interessou inicialmente quando lhe propuseram "Dois Filhos de Francisco".

Segundo Luciano Camargo, 32, a filial brasileira da Columbia TriStar Films desejava fazer um filme de um concerto ao vivo, destinado ao público da dupla. "Mas nós queríamos uma história que durasse, de que as pessoas ainda falassem daqui a 50 anos", ele disse. Acabou trabalhando com uma dupla de roteiristas para desenvolver um longa-metragem de duas horas.

Quando Silveira foi convencido a ler o script original, ficou cativado e aceitou dirigir o filme.

Depois de cinco meses nos cinemas, "Dois Filhos de Francisco" foi visto por mais de 5 milhões de pessoas, o que faz dele o filme brasileiro mais assistido em mais de 25 anos e o de maior faturamento, brasileiro ou estrangeiro, em 2005. A versão em DVD, lançada pouco antes do Natal com cenas de documentário e de shows, também bateu recordes, com quase 500 mil cópias vendidas legalmente e 400 mil cópias piratas em circulação, segundo estimativas.

Se o filme poderá chegar perto desse sucesso no exterior ainda é uma incógnita. Mas, com sua ênfase para o talento que supera a adversidade, "Dois Filhos de Francisco" traz ecos de recentes obras biográficas de Hollywood sobre Johnny Cash e Ray Charles, e os participantes do filme estão otimistas, como costumam ser os brasileiros.

"É um filme muito brasileiro, mas é uma história universal que poderia facilmente ter sido contada nos EUA", disse Luciano. "Sei que as pessoas sempre dizem isso, mas neste caso é realmente verdadeira." Mais que apenas um filme com final feliz, "Dois Filhos de Francisco" tornou-se um fenômeno cultural e sociológico Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,97
    3,127
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    0,99
    64.389,02
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host