UOL Notícias Internacional
 

09/01/2006

Albert Brooks procura fazer humor com elementos da cultura islâmica em seu novo filme

The New York Times
Dave Kehr

Em Nova York
Recém-chegado do Oriente Médio, onde seu novo filme, "Looking for Comedy in the Muslim World" (Em Busca de Comédias no Mundo Muçulmano) teve estréia mundial durante o segundo Festival Anual Internacional do Filme em Dubai, Albert Brooks parecia ao mesmo tempo exausto, orgulhoso e também aliviado.

"É a primeira vez que isso acontece", diz Brooks em Los Angeles. "Ainda não haviam feito humor sobre nada disso depois do Onze de Setembro. Ninguém sabe o que irá acontecer. A platéia poderá se levantar e ir embora, poderão vaiar, quem sabe? Eu não tenho qualquer mapa do percurso. Já me disseram `Nós acreditamos que irá funcionar', mas também me disseram que as pessoas não ficam de enrolação. Se você pregar o prego do jeito errado, saberá logo logo, como se fosse o seu dedo polegar."

Lacey Terrell/Shangri-La Entertainment/NYT 
Diretor interpreta a si mesmo no filme
Na verdade, Brooks não é o primeiro a tentar fazer humor a partir do ambiente político pós-11 de Setembro. Antes veio "Team America - Detonando o Mundo", ansioso e afoito em termos ideológicos, de Trey Parker e Matt Stone, os criadores de "South Park", sendo que o "The Daily Show" também já fez a expressão "Mess-o-Potamia" cair na boca do povo.

Mas agora temos possivelmente a primeira comédia depois do 11 de Setembro a deixar de lado a sátira rasgada e a adotar um enfoque mais humanista e interpessoal --com todos os riscos que isso poderá provocar.

"Looking for Comedy" é fundamentado na mesma concepção indômita e sólida de realidade que Brooks vem cultivando desde seu primeiro longa, "Real Life", de 1979. Estilista radical entre os cineastas de comédias, Brooks abre mão das frases que arrematam piadas e da edição frenética, favorecendo os planos longos e enquadramentos bem amplos, uma técnica que permite a emergência por conta própria do absurdo de uma situação. E para Brooks não há nada tão absurdo quanto um profissional narcisista que vê sua própria visão hermética do mundo desafiada pelo próprio mundo real.

Em "Real Life", Brooks interpreta um personagem chamado "Albert Brooks", um comediante cuja carreira entra numa fase incrivelmente parada. Tentando reencontrar seu caminho, ele convence uma família de classe média num subúrbio de Phoenix a Ter o seu dia a dia filmado, mas ele acaba incendiando a casa da família, tentando injetar algum valor de entretenimento naquele cotidiano tão sem graça.

Seu personagem em "Looking for Comedy" poderia até ser um prolongamento daquele Albert anterior --a carreira dele novamente está a perigo (a cena de abertura o mostra sendo descartado pela diretora Penny Marshall para uma refilmagem de "Harvey"), aí ele é escolhido pelo senador aposentado do estado de Tennessee Fred Thompson (também numa auto-interpretação) para uma missão oficial de alto nível.

Albert deverá viajar pela Índia e pelo Paquistão, onde irá pesquisar e escrever um relatório de 500 páginas sobre o que é capaz de despertar gargalhadas no sub-continente indiano, se é que algo hilário assim existe. Não receberá nada por isso, Thompson diz a Albert, mas há a possibilidade de ser conedecorado com uma grande e reluzente medalha.

Na estréia em Dubai, Brooks disse: " Já nos contaram antes da exibição que o Sheik Abdullah bin Zaid al-Nahayan, que é o ministro da informação dos Emirados Árabes Unidos, estaria voando de Abu Dhabi para ver o filme. E as pessoas dizendo: `Você tem idéia do que isso significa?

Ele nunca vai a lugar nenhum!' E eu dizendo 'legal, que bom' --só que isso me deixou ainda mais ansioso. Pensava, meu Deus, se o sheik se retirar da sessão, isso quer dizer que todos também sairão, já pensou? Aí perguntei ao gerente do teatro se ele tinha o CD de `Exodus' para uma eventualidade-- poderíamos tocar o tema do filme enquanto todos se retirassem. E ele sem ter a menor idéia do que eu estava falando."

E quem também não entendia o sujeito era a maioria dos habitantes locais, que o

Albert da ficção encontrou em sua investigação distraída e auto-centrada, ajudado por uma dupla de funcionários do Departamento de Estado (John Carroll Lynch e Jon Tenney) e por uma jovem mulher indiana de olhos arregalados (Sheetal Sheth), que Albert contrata como intérprete.

No sufoco para conseguir preencher sua cota de 500 páginas de relatório, Albert armazena dados para a pesquisa encenando um espetáculo de comédia no estilo stand-up (só que ninguém ri), visitando o escritório local da rede Al Jazeera (que encomenda ao autor uma comédia sitcom chamada "Aquele Judeu Maldito") e se deslocando até a fronteira com o Paquistão, onde ele se encontra com um grupo clandestino de comediantes em potencial (eles até riem das piadas de Albert, mas se bem que parecem estar fumando algo mais que tabaco com aroma de frutas naqueles cachimbos narguilés deles).

Antes do início da projeção em Dubai, Brooks (o verdadeiro) foi ao palco fazer sua apresentação. "Disse que acreditava na importância do festival", contou posteriormente, "e acredito mesmo --não sei de outro lugar no Oriente Médio onde eu seria convidado a exibir o filme num momento como esse. E eu disse a eles: `Tenho que ser honesto com vocês, vários amigos já me perguntaram: "Por que você está fazendo isso? Não está com medo?" Então eu olhei nos olhos deles e disse, `Não estou com medo!' E eles gostaram disso."

A Sony Pictures, primeira distribuidora do filme, pulou fora depois de o cineasta ter se recusado a mudar o título, mesmo com toda a ira muçulmana suscitada por uma reportagem da revista "Newsweek", depois desmentida, sobre um episódio envolvendo interrogadores americanos na baía de Guantanamo, Cuba, que teriam jogado um exemplar do Alcorão na privada e puxado a descarga.

Como contou Patrick Goldstein em reportagem do jornal "The Los Angeles Times", Michael Lynton, presidente da Sony Pictures Entertainment, escreveu a Brooks dizendo: "Eu acredito que os últimos incidentes mudaram dramaticamente o cenário em que vivemos, e esse fato, entre outras coisas, torna imperativa a mudança do título do filme."

Segundo Brooks, Steve Bing, um dos produtores do filme, foi quem conseguiu encontrar (na Warner Independent Pictures) uma distribuidora que o bancasse. A comédia deve estrear em Nova York dia 20 de janeiro.

"O filme na verdade funciona como uma grande fustigada sobre nossa própria falta de compreensão cultural, e chega num momento que é ao mesmo tempo extremamente sensível e absolutamente adequado", segundo Mark Gill, presidente da Warner Independent, através de um e-mail.

Brooks conta mais: "Diante de mim tinha o chefão do estúdio me dizendo que isso poderia causar uma sentença de condenação, uma fatwa. Mas, tudo bem, é preciso despertar reações começando de algum lugar. Eu não sabia o que esperar. Se eu conseguisse umas três ou quatro risadas educadas e se ninguém debandasse já iria considerar o filme um sucesso."

O Aljazeera.net, site do canal de notícias via satélite, divulgou uma matéria da agência Reuters informando que "Looking for Comedy" "recebeu críticas mistas das platéias em Dubai", também citando um espectador do filme: "Zeinab, 18 anos, dos Emirados Árabes Unidos, disse: `Foi diferente dos filmes americanos que a gente costuma assistir. E é bom poder mostrar outras culturas do mundo."'

Mas Brooks observou uma reação mais entusiasmada: "Tem aquela cena em que me convocam para ir a Washington, e lá me explicam que o Paquistão é todo muçulmano, e eu digo depois, `Mas eu pensava que a Índia era basicamente hindu.' Aí alguém na mesa diz, `Há quase 150 milhões de muçulmanos em toda a Índia', e o Fred Thompson comenta, `Isso é o bastante para você?' --eles se acabaram de rir! E, eu pensei, passei no teste, está tudo bem! O sheik está rindo; e falando com o cara ao lado em árabe e apontando para a tela. E ninguém se retirou da sala!"

Uma parte da mídia árabe, segundo Brooks, questionou a decisão dele de ambientar o filme na Índia e no Paquistão, em vez de rodá-lo num país árabe.

"Eu disse, `Bem, se vocês me autorizarem a filmar na Arábia Saudita, por favor me digam"'. "Porque nem pensaram nessa possibilidade quando eu comecei o projeto. Isso foi descartado em cinco minutos, com reações tipo `O que, ficou louco?' Não vão permitir isso a um homem judeu, muito menos a um cineasta. Isso simplesmente não vai acontecer.' Mas eu queria mostrar esse conflito entre os dois países. Quando escrevi sabia que iria mostrar essas duas atuais potências, que sempre estão desconfiadas uma da outra, e só mesmo filmando por lá poderia mostrar o conflito. A idéia era viajar em missão de paz, e eu quase comecei a Terceira Guerra Mundial."

Quem concorda com Brooks é Azhar Usman, um comediante stand-up muçulmano que produziu "Allah Made Me Funny" (Allah Me Fez Engraçado), um show itinerante de comediantes muçulmanos que estreou em Toronto no mês de maio, e que esse mês é apresentado em Montreal, Ottawa e em Santa Clara, na Califórnia.

E realmente pode ser bem difícil encontrar comédias no mundo muçulmano (árabe ou não). "Atualmente, não existem comediantes solando nos palcos", diz Usman. "Mas antigamente existiam alguns. Eu tenho alguns discos dos anos setenta. Havia um cara do Paquistão tipo armário-gigante, chamado Moin Akhtar, e um outro cara contemporâneo dele era Umar Sharif. E havia um outro na Índia que era bem famoso, que usava o nome de Johnny Lever. Eles basicamente faziam "one-man shows", com muita improvisação e comédia em quadros de humor, mas só com um pouquinho do que nós costumamos chamar de comédia stand-up."

O estilo de comédia deles, segundo Usman, não causaria estranheza entre os espectadores de "Seinfeld": "Há muito humor sobre situações familiares, quadros sobre diferenças entre homens e mulheres, estocadas nos políticos - enfim, vida cotidiana, comédia de situações. A idéia de que o público muçulmano não teria a menor idéia sobre comédia stand-up ou improvisações era essencialmente falsa."

Já que Brooks escolheu a Índia como cenário, foi lá visitar o ministro de Informação. "Ele me disse que Steven Spielberg quis filmar `Indiana Jones e o Templo da Perdição' por lá, e que eles não permitiram, porque não aprovaram a cena onde comiam cérebros de macaco", segundo Brooks.

"Eu dizia para eles, `Eu não faço essas coisas', e acho que eles realmente gostaram de eu não ter incluído toda aquela situação onde a vaca interrompe o tráfego. Eles já viram essa cena demais, e a odeiam."

A maioria dos atores indianos do filme foi recrutada por lá mesmo, ficando a exceção principal com Sheetal Sheth, uma atriz hindu-americana de primeira geração que já estrelou filmes independentes nos EUA, como "ABCD" e "American Chai". "Tenho visitado a Índia desde menina, por longos períodos", ela diz. "Certamente não posso falar pelas pessoas que nasceram e foram criadas por lá, mas é certo que me sinto muito ligada à cultura."

"Eu fico irritada quando ouço que estão fazendo alguma coisa sobre a Índia, porque geralmente é feito com muito pouca inteligência", diz Sheth. "Mas quando eu encontrei Albert, eu soube de cara que ele se sairia muito bem na tarefa de cair com os estereótipos. Ele foi bem cuidadoso em termos de verdade e autenticidade, querendo mostrar as coisas de maneira certa."

Em grande parte, essa busca de autenticidade é sintomática e típica de Brooks e dos seus conterrâneos --muitas das atitudes ignorantes do personagem podem soar um tanto forçadas, mas o filme é também uma tentativa honesta de criar laços com o atual "adversário" da nação (num certo momento Albert diz à mulher, interpretada por Amy Ryan, que "sua mãe acha que os muçulmanos não passam de uma só entidade") - e de conectar com os aspectos humanos.

"Principalmente depois do que aconteceu no ano passado, com uma tragédia depois da outra e da outra, as pessoas estão cansadas", diz Sheth. "É bom poder lidar com as mesmas questões de um jeito diferente, acrescentar algum humor e se dar conta de como podemos ser tolos, de como todos nós somos ignorantes, e não ser depreciado nesse processo. Acho que poderão gostar muito desse filme na Índia. Poder ver as pessoas na tela do jeito que elas são, com alguma ternura, inteligência e dignidade --tudo isso seria bem-vindo."

Mesmo com toda essa seriedade de propósitos envolvendo "Looking for Comedy", Brooks não está estufando o peito à espera do próximo Nobel da Paz: "Será que eu seria capaz de fazer um filme onde, no final, Israel e os palestinos iriam para uma mesa de negociações?", pergunta o cineasta. "Eu não sei. Minha melhor idéia a esse respeito veio num curta-metragem que fiz para o programa `Saturday Night Live', onde sugeri que Israel fosse transferido para a Geórgia. O que é mais importante nisso tudo é poder elevar e trazer esse assunto para uma zona verde, amistosa, onde você pode fazer piadas. E poder fazer esse assunto ocupar um lugar ao lado de outros que podem ser motivo de humor - política, judeus, comida ruim ou qualquer coisa assim. Se isso vier a acontecer, será um sinal bem saudável, será um avanço mesmo." Para o diretor de "Em Busca de Comédias no Mundo Muçulmano", tratar conflitos no registro cômico ajuda a discutir Marcelo Godoy

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h09

    -0,57
    3,264
    Outras moedas
  • Bovespa

    16h17

    1,12
    63.936,16
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host