UOL Notícias Internacional
 

09/01/2006

Estado de Sharon melhora, mas ainda é grave

The New York Times
Steven Erlanger, de Jerusalém, e

Dina Kraft*, de Tel Aviv, Israel
Israel continuou neste domingo (8/1) sua vigília apreensiva junto ao leito do primeiro-ministro Ariel Sharon. Os repórteres de televisão instruíram o país com modelos plásticos de cérebros e hipóteses exploratórias sobre se Sharon deveria ter sido submetido a tratamento diferente antes de seu derrame maciço na quarta-feira.

Imprensa oficial de Israel/NYT 
O vice-primeiro ministro Ehud Olmert mantém a cadeira de Sharon vaga durante as reuniões do governo de Israel
Os políticos israelenses, normalmente um grupo ruidoso e agressivo, mantiveram uma moratória auto-imposta nas campanhas políticas por respeito ao primeiro-ministro --e devido à sensação de que o país não recompensará os que voltarem cedo demais aos ataques habituais.

Os médicos que tratam Sharon pretendem tirá-lo do coma induzido nesta segunda-feira, depois que verificaram novas melhoras em uma tomografia do cérebro feita no domingo, disse uma autoridade do hospital.
O doutor Shlomo Mor-Yosef disse que Sharon, 77, permanece em estado crítico, mas que seus sinais vitais, incluindo a pressão intracraniana, estão normais e que ele não tinha febre. "Seu estado ainda é sério mas estável, e há uma melhora na imagem da tomografia do cérebro."

Mas os médicos decidiram esperar segunda-feira para tirar Sharon do coma, depois de sugerir no sábado que poderiam iniciar no domingo esse processo, que pode levar até oito horas.

Os médicos só poderão avaliar a extensão dos danos causados às faculdades mentais de Sharon quando ele for tirado do coma, mas disseram que agora acreditam que ele tenha uma boa chance de sobreviver. Quando Sharon sair do coma, "se não houver reação será uma má notícia", disse Mor-Yosef.

Seu cirurgião chefe, José Cohen, disse no sábado ao Canal 2 de Israel que Sharon vai sofrer um certo grau de danos à sua capacidade de pensamento e raciocínio. "Dizer que depois de um impacto severo como este a pessoa não teria problemas cognitivos é não admitir a realidade", ele disse.

No sábado, Cohen, que nasceu na Argentina, disse a repórteres de língua espanhola: "Ele não continuará sendo o primeiro-ministro, mas talvez seja capaz de compreender e falar".

As autoridades hospitalares foram mais cautelosas, advertindo que várias expressões de esperança eram prematuras. "Nós, como seres humanos, somos otimistas", disse Mor-Yosef. "Mas não posso dizer que o primeiro-ministro está livre de perigo."

Ele disse que a tomografia de domingo mostrou que o inchaço no cérebro de Sharon continua diminuindo, sua pressão sangüínea e a pressão intracraniana estão dentro dos limites normais e que seu fluido espinal cerebral está drenando bem.

O primeiro-ministro em exercício, Ehud Olmert, presidiu a reunião de gabinete habitual de domingo, e em comentários à televisão prometeu continuar com as políticas de Sharon.

Sentado ao lado da cadeira vazia de Sharon, a maior junto à mesa do gabinete, Olmert prometeu "continuar a fazer o que Arik queria --conduzir as coisas como devem ser".

"Estamos esperançosos e desejando que o primeiro-ministro se recupere, que ganhe forças e volte a presidir o governo israelense e a liderar o Estado de Israel", ele disse. "Eu rezo com todo o povo de Israel para que meu exercício como primeiro-ministro seja breve."

Mas é provável que dure pelo menos até as eleições de 28 de março.

Shimon Peres, o ex-primeiro-ministro do Partido Trabalhista que se uniu a Sharon e Olmert no novo partido Kadima, disse esperar que Olmert lidere o partido nas eleições.

Peres, 82, disse à CNN que agora está interessado em voltar como membro da legislatura na chapa do Kadima, mas que não pretende concorrer com Olmert para primeiro-ministro. "Quero dedicar todo o meu tempo e energia ao processo de paz", ele disse.

Houve reportagens na mídia israelense de que Peres pensava em abandonar o Kadima e voltar ao Partido Trabalhista, e que havia pedido a Olmert o cargo de ministro das Relações Exteriores quando os atuais ministros do partido Likud deixarem o gabinete para a campanha eleitoral.

Enquanto isso, a população israelense se vê numa situação de limbo --obcecada pelo estado de Sharon, mas não habituada a esperar.
"As pessoas não são pacientes. Elas querem saber o que está acontecendo", disse Maya Bader, 27, uma estudante de doutorado que estava com sua mãe em um café de Tel Aviv. "As pessoas não sabem o que fazer, nunca houve uma situação como esta. Não existe um protocolo sobre o que fazer."

Os israelenses estão acostumados que as coisas aconteçam rapidamente, e se tornaram especialistas em viver o lema "a vida continua". Os detritos de atentados terroristas --vidros quebrados, mortos e feridos, poças de sangue-- geralmente são limpos em questão de horas. O tráfego é retomado nas mesmas ruas em que ônibus explodiram naquela manhã; os compradores continuam escolhendo mercadorias em uma extremidade da feira livre enquanto na outra extremidade policiais procuram pistas deixadas pela explosão de um homem-bomba.

Andrea Miller, 23, que nasceu nos EUA e trabalha numa das melhores companhias de dança israelenses, disse que ficou surpresa pelo modo como os israelenses adotam uma posição de espera em relação à doença de Sharon.

A decisão de continuar com as apresentações na quinta-feira foi tomada no último minuto, e ela e outros bailarinos da companhia foram avisados de que a agenda desta semana dependerá da saúde de Sharon. "As pessoas se preocupam muito mais em respeitar o período de luto" aqui do que os americanos em uma situação semelhante, ela disse.

Yaron Kadosh, 25, discorda. Ele trabalha numa lanchonete no bulevar Ben-Gurion. Os israelenses já estão se recuperando das notícias do colapso de Sharon, ele disse. "Todo mundo entrou em choque com a notícia de que ele parecia estar morrendo, mas depois de alguns dias as pessoas já seguiam em frente e se concentravam no que virá agora."

Os riscos da recuperação de Sharon, que derivam de sua imobilidade desde o derrame, incluem o desenvolvimento de infecções mortíferas como pneumonia, infecções urinárias e feridas no corpo por ficar deitado imóvel (escaras). No sábado, o doutor Cohen foi citado como dizendo: "Estamos rezando para que não haja complicações, como apanhar uma infecção".

Sharon está respirando com a ajuda de um respirador mecânico. É um procedimento padrão movimentar os braços e as pernas de pacientes de derrame para evitar a atrofia e contrações dos músculos. Os funcionários de hospital também movimentam os pacientes e usam colchões especiais para evitar as escaras.

O físico avantajado de Sharon tornaria esses cuidados mais difíceis e aumentaria seus riscos de complicações, segundo especialistas em derrame que não participam de seu tratamento.

O hospital só divulgou informações limitadas sobre o tratamento de Sharon, dificultando para os especialistas independentes calcular a gravidade dos danos cerebrais e acompanhar o caso. Além disso, relatórios conflitantes do hospital aumentaram a confusão.

No sábado, por exemplo, o doutor Mor-Yosef disse que uma tomografia feita no início do dia mostrou uma nova redução do inchaço no cérebro de Sharon e disse que a pressão havia voltado ao normal. Mas na sexta-feira ele disse que a pressão do cérebro só tinha voltado ao normal depois de uma terceira operação para conter a hemorragia no cérebro.

No sábado ele não mencionou a continuação do sangramento. Ele também disse que o lado esquerdo do cérebro de Sharon "parecia melhor" que o direito. Mas não disse se isso significava que a estrutura esquerda do cérebro parecia normal ou se estava apenas menos danificada que a do lado direito.

Durante o fim de semana, o político palestino preso Marwan Barghouti advertiu contra qualquer tentativa de se usar a doença de Sharon como motivo para adiar as eleições legislativas palestinas marcadas para dia 25 de janeiro.

"A Autoridade Palestina deve evitar fazer qualquer ligação entre a saúde de Sharon e a data da eleição", ele disse em uma declaração publicada em jornais palestinos. "A eleição é uma questão nacional palestina e não deve ser ligada a qualquer preocupação estrangeira com o que está acontecendo em Israel com Sharon."

Barghouti lidera a lista de candidatos do partido Fatah, apesar de cumprir diversas sentenças de prisão perpétua em Israel pela participação na morte de cinco civis israelenses.

Em seus comentários, Barghouti também criticou a conduta de membros das Brigadas de Mártires de Al-Aqsa, o braço armado da Fatah, que realizou protestos violentos na Faixa de Gaza esta semana que forçaram a Autoridade Palestina a libertar Alaa al-Hams, que tinha sido preso por seqüestrar uma família britânica.

*Colaborou Lawrence K. Altman, de Nova York. Médicos pretendem tirar primeiro-ministro do coma nesta segunda Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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