UOL Notícias Internacional
 

11/01/2006

Irã ignora protestos e reassume programa nuclear

The New York Times
Nazila Fathi* em Teerã e

John O'Neil em Nova York
O Irã reiniciou nerta terça-feira (10/01) um programa de pesquisa nuclear que, segundo disse, deve incluir a experimentação com o enriquecimento de combustível nuclear. A medida foi tomada apesar de uma advertência na segunda do diretor da AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) das Nações Unidas que tal trabalho cruzaria "um limite vermelho" e geraria uma resposta internacional.

Os lacres de uma instalação nuclear em Natanz foram rompidos na presença de inspetores. Autoridades iranianas descreveram pela primeira vez o tipo de pesquisa atômica que o país tem em mente.

De acordo com uma declaração emitida pela agência atômica, autoridades iranianas disseram que o plano é usar uma centrífuga de pequena escala para fazer pesquisa na qual o gás de urânio seria introduzido. Uma série de centrífugas é usada de forma a enriquecer o urânio até os níveis necessários para sua utilização em reatores. Para sua a fabricação de armas, deve ser enriquecido nessas cascatas de centrífugas a um nível mais muito mais alto.

A notícia foi divulgada após uma semana de incertezas sobre as intenções de Teerã, depois de seu anúncio repentino do dia 3 de janeiro que ia voltar à pesquisa nuclear. Enquanto autoridades da agência atômica internacional procuravam em vão descobrir que tipo de trabalho planejavam os iranianos, os EUA, Reino Unido, França, Rússia e China --os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas-- emitiram advertências distintas contra a retomada dos trabalhos.

Os Estados Unidos vêm procurando fazer o Conselho de Segurança impor sanções ao Irã, que insiste que seu programa nuclear é para fins pacíficos.

Mohammad Saidi, vice-diretor da agência de energia atômica, disse aos repórteres em Teerã que a nova pesquisa não envolveria a produção de combustível atômico. "Nós diferenciamos a produção de combustível atômico da pesquisa e do acesso à tecnologia", disse ele, de acordo com a Agência de Notícias da República Islâmica.

No entanto, um funcionário da agência atômica, que falou sob condição de anonimato por não ter sido autorizado a discutir os detalhes da situação publicamente, disse que o trabalho, se executado como anunciado, ia constituir no enriquecimento de urânio, mesmo que em pequena escala.

"Se eles introduzirem material nuclear nas centrífugas, estão no processo de enriquecimento, mesmo que em um nível piloto", disse o funcionário. "Isso é praticamente o famoso limite."

Seria necessária uma cascata de tamanho industrial, com milhares de centrífugas, para produzir urânio em grau para armas. No entanto, a pesquisa piloto permitirá aos pesquisadores iranianos "adquirir o conhecimento e a capacidade" de fazer enriquecimento em qualquer nível, disse o funcionário.

Esta é a segunda vez, desde que o novo presidente conservador do país, Mahmoud Ahmadinejad, assumiu em agosto, que o Irã desafia um acordo com a Europa e reinicia parte de suas atividade nucleares. Naquele mês, o Irã removeu os lacres da agência em uma instalação em Isfahan, na qual o urânio pode ser convertido no tipo de gás usado no processo de enriquecimento.

A medida de hoje foi defendida pelo líder religioso supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei que na segunda-feira, fez pouco das ameaças de sanções. Khamenei tem a palavra final em questões de Estado.

"Ninguém pode negar o direito do povo iraniano de desenvolver a ciência nuclear", disse ele na cidade de Qum. Segundo o líder, anos de sanções contra o Irã levaram à independência e o país não teme as ameaças.

A notícia da retomada dos trabalhos provocou rápida condenação pelos EUA, Reino Unido, França e Alemanha, enquanto a Rússia, que vem fazendo uma última tentativa para evitar o impasse do programa nuclear iraniano, expressou preocupação.

Em novembro em 2004, o Irã concordou em congelar a maior parte de suas atividades nucleares, inclusive de pesquisa, em troca de um pacote amplo de incentivos políticos e econômicos. Antes, o país admitiu que enganara os inspetores por anos, apesar de insistir que seu programa era voltado apenas para propósitos pacíficos.

O porta-voz da Casa Branca, Scott McClellan, disse aos repórteres em Washington na terça-feira que o início do enriquecimento e processamento nuclear seria considerado "um sério agravamento" da situação e disse: "Se o regime iraniano continuar no atual curso e não cumprir suas obrigações internacionais, não haverá outra escolha senão enviar o assunto ao Conselho de Segurança."

Uma porta-voz do Escritório de Relações Exteriores do Reino Unido chamou a notícia de "um desdobramento muito negativo que vai prejudicar seriamente o processo de negociação", de acordo com a agência France-Presse.

O presidente da França, Jacques Chirac, falou do programas nucleares do Irã e da Coréia do Norte em um discurso aos diplomatas na terça-feira. Ele disse a Reuters. "É imperativo que a comunidade internacional assegure que os acordos feitos para a segurança de todos sejam respeitados", disse ele.

O ministro de relações exteriores da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, disse que Teerã tinha "ultrapassado um limite sabendo que teria conseqüências", disse a agência France-Presse.

O Reino Unido, França e Alemanha lideraram negociações para permitir que o Irã criasse um programa de energia nuclear que não fosse capaz de produzir armas. Essas negociações foram suspensas depois que o Irã voltou a trabalhar com a energia atômica, em agosto. Os três países deixaram claro que vão defender sanções, a não ser que haja uma rápida mudança.

Sergei Lavrov, ministro de relações exteriores da Rússia, que tinha relutado em considerar sanções, disse que a retomada da pesquisa "causa preocupação", de acordo com a Reuters. A medida tomada pelo Irã reflete um jogo de alto risco, no qual testa seu direito legal de conduzir certas atividades nucleares sob o Tratado de Não-Proliferação Nuclear de 1968, o principal regulamento internacional que governa a disseminação de tecnologia nuclear.

Os EUA e cada vez mais governos europeus acreditam que o complexo de enriquecimento inacabado de Natanz faz parte de um programa de armas nucleares. Eles acreditam que este pode estar mais avançado que o programa iraquiano em seu ápice, sob o governo de Saddam Hussein.

As operações em Natanz foram mantidas em segredo e só foram confirmadas pelos inspetores em fevereiro de 2003. Estes encontraram preparativos para a construção de mais de 50.000 centrífugas -máquinas altas e estreitas que giram em velocidade supersônica para enriquecer o urânio antes de ser utilizado em reatores nucleares.

Quando o urânio é enriquecido a um grau muito alto, pode ser usado em uma arma nuclear. As centrífugas podem preparar combustível para até 20 armas nucleares por ano, de acordo com o Carnegie Endowment for International Peace.

Para a liderança religiosa iraniana e grande parte de sua população, Natanz é sinônimo de modernidade e energia.

O Irã insiste que seu objetivo em Natanz é conduzir pesquisa e produzir combustível para um programa nuclear civil. Alguns dos cientistas nucleares mais experientes do país trabalharam ali, e o Irã descreveu o fechamento do complexo --sob um acordo com a França, Reino Unido e Alemanha em novembro de 2004 para congelar grande parte de suas atividade nucleares-- como voluntário e temporário.

Uma questão crucial debatida na semana passada foi se o Irã pretende meramente testar seus equipamentos ou se irá além e conduzirá experimentos com combustível nuclear. Mohamed ElBaradei, diretor da agência internacional, chamou esta última hipótese de "uma linha vermelha para comunidade internacional", em uma entrevista na segunda-feira com a BBC.

Ele instou o Irã a "exercitar ao máximo seu controle" e advertiu que o impasse "pode virar uma grande crise" por causa da falta de cooperação plena do país com a agência internacional e seus planos de reiniciar a pesquisa nuclear.

A agência nuclear internacional não conseguiu persuadir o Irã a entregar importantes informações sobre seu histórico nuclear e a dar aos inspetores da agência acesso a certos locais. Entretanto, a falta de transparência do Irã é uma questão separada de seu direito legal de conduzir pesquisa nuclear.

ElBaradei admitiu que, sob o tratado de não-proliferação, o país pode fazer uma série de atividades nucleares. "Em termos legais, o Irã tem o direito de desenvolver todas as atividades nucleares, inclusive enriquecer o urânio", disse a James P. Rubin em entrevista na segunda-feira, em Londres.

No final do ano passado, o conselho de 35 países da agência nuclear internacional decidiu enviar a questão do Irã ao Conselho de Segurança, caso não cumprisse suas obrigações internacionais. Mas a Rússia, China e outros países importantes vêm resistindo à ação do conselho.

Atualmente, o Irã está discutindo a proposta de Moscou de enriquecer conjuntamente o urânio iraniano em território russo. A oferta é defendida pelos três países europeus e os EUA. A Rússia ajudou o Irã a construir a usina nuclear na cidade de Bushehr, no Sul.

O jornal Etemad escreveu hoje que o Irã pode estar perseguindo objetivos aparentemente contraditórios para ganhar espaço de barganha. Por um lado, ao considerar a proposta russa, quer enviar a mensagem à comunidade internacional que está desejoso de se engajar em negociação com as partes. Por outro lado, ao voltar às atividades em torno da energia atômica, mostra que não está disposto a desistir do enriquecimento do urânio.

"Cada vez que retomou parte de suas atividades nucleares, o governo se sentiu vitorioso ao não ver reação imediata da comunidade internacional. Assim, pode ser tentado a continuar retornando ao trabalho. No entanto, no longo prazo, vai acabar provocando um consenso contrário, e a Rússia e a China vão se unir aos EUA na adoção de uma postura mais dura contra o Irã", disse Issa Saharkhiz, jornalista e analista.

*Elaine Sciolino contribuiu de Paris. Pesquisa permitirá aos iranianos "adquirir o conhecimento e a capacidade" de enriquecer urânio em qualquer nível, de acordo com funcionário da AIEA Deborah Weinberg

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