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11/01/2006

Triângulo amoroso espanhol: pai, filha, rapaz

The New York Times
Charles Isherwood

Em Nova York
Como uma rápida excursão abaixo do preço de vistas e sons do sul da Espanha, a produção do Manhattan Theater Club de "Beauty of the Father" (beleza do pai), a nova peça de Nilo Cruz, é um sucesso incontestável. Um violão é dedilhado hipnoticamente no fundo em várias cenas, enquanto a certa altura o som de castanholas é ouvido. Uma convidativa extensão de paisagem marítima cruza o fundo preto do cenário. Quando os personagens da peça realizam um piquenique na praia no segundo ato, você quase pode sentir a areia coçando entre os dedos de seus pés.

Sara Krulwich/The New York Times 
Elizabeth Rodriguez, a filha, e Pedro Pascal, o vértice do triângulo, de "Beauty of the Father"

Mas esta não é a única sensação desconfortável que esta peça letárgica pode provocar, infelizmente. Cruz favorece o clima em detrimento do drama, uma estratégia que foi realizada de forma mais eficaz na vencedora do Prêmio Pulitzer "Ana nos Trópicos".

Um resumo rápido da trama de sua nova peça poderia sugerir os melodramas loucos do início de carreira de Almodóvar: pai e filha estão atraídos pelo mesmo bad boy sensual, provocando todo tipo de foguetório emocional. Mas o ritmo sem pressa e reflexivo de Cruz, assim como seu diálogo lírico, cheio de rodeios, permite que seus estopins queimem um pouco demais, resultando em mais chabu do que estouro.

Ritchie Coster interpreta Emiliano, que passa seus dias na costa perto de Granada pintando e resolvendo suas questões emocionais com o terapeuta mais improvável, o fantasma do dramaturgo visionário, poeta e revolucionário Federico Garcia Lorca (Oscar Isaac). A afinidade casual de Emiliano com esta figura visa sinalizar não insanidade mas sensibilidade; artista e musa são estranhos mútuos condenados a sofrer por sua sexualidade.

Garcia Lorca, como ele nos recorda, foi morto no estouro da Guerra Civil Espanhola (1936-1939). A punição de Emiliano é a separação de sua única filha, cuja chegada repentina em busca de reconciliação, logo após a morte de sua mãe, coloca os eventos da peça em movimento.

Apesar de não ver seu pai desde pequena, Marina (Elizabeth Rodriguez) se insere confortavelmente no ménage incomum de Emiliano, que compreende sua companheira e às vezes parceira de cama, Paquita (Priscilla Lopez), de meia-idade e conhecedora da vida, e seu jovem companheiro mais jovem e parceiro de cama preferencial, Karim (Pedro Pascal), alegre e teimoso.

Emiliano conheceu seu jovem amigo no país natal deste, o Marrocos, e persuadiu Paquita a se casar com ele para que o jovem pudesse obter cidadania espanhola. Mas Marina, encantada com as belezas libertadoras de sua nova casa, não consegue notar o emaranhado de relacionamentos entre seus companheiros até se apaixonar pelo jovem de sangue quente. Esta forma única de laço entre pai e filha não é confortável nem mesmo no condescendente sul da Espanha, ao que parece, e os temperamentos irão ferver.

Bem, ferver pode ser um exagero. Apesar de as vozes se erguerem finalmente no segundo ato, durante grande parte da peça os personagens evitam as questões problemáticas de sexo, traição e compromisso em seu coração refletindo o amplo estoque de incidentes simbólicos que escora o triângulo amoroso (ou seria um retângulo?).

Eles incluem um quase acidente de carro com um cervo, algumas estrelas cadentes, uma raposa ladra, um eclipse solar e uma fogueira nas qual demônios do passado são exorcizados. Ao que parece, por onde Garcia Lorca perambula o simbolismo o segue.

O diretor, Michael Greif, faz bom uso das áreas limpas do cenário simples mas evocativo de Mark Wendland. As cenas se desdobram de forma fluente assim como o mar. E os atores dão grande foco a personagens cujas paixões parecem perigosamente genéricas.

Apesar de seu papel como a discretamente fogosa Paquita ser envolto em clichê, Lopez está particularmente atraente em sua naturalidade distorcida, aguçando algumas das reflexões mais perceptivas de Cruz: "Quando você é jovem você vive mais próxima da pele, da carne", ela diz para Marina. "Eu passei para outra parte de meu corpo." Pascal tem uma presença física forte como o tempestuoso objeto da afeição de pai e filha.

O afável mas travesso Garcia Lorca de Isaac, que, de forma um tanto confusa, parece assumir forma corpórea no segundo ato, também é uma presença sedutora, particularmente quando está sendo mais sardônico do que simbólico. Mas isto não é freqüente o bastante. "O amor sempre foi uma floresta densa na qual nunca fui capaz de entrar", ele comenta a certo ponto, "e tudo o que conheci foi a promessa das árvores. O grito de um animal preso em um zoológico, mirando na cor verde". O apreço por "Beauty of the Father" poderá depender de sua postura em relação ao texto, de sangue azul.

"Beauty of the Father"

De Nilo Cruz, direção de Michael Greif; cenografia de Mark Wendland; figurino de Miranda Hoffman; iluminação de James F. Ingalls; som de Darron L. West; "dialogue coach", Deborah Hecht; diretor de produção de palco, Barclay Stiff; diretor de operações artísticas, Mandy Greenfield; gerente de produção, Ryan McMahon; administradora geral, Florie Seery; diretora de desenvolvimento artístico, Paige Evans; diretor de produção, Michael Bush; gerente de palco, David H. Lurie.

Apresentação do Manhattan Theater Club; Lynne Meadow, diretor artístico; Barry Grove, produtor executivo. No Stage II, City Center, 131 West 55th Street, Manhattan; (212) 581-1212. Até 19 de fevereiro. Duração: 2 horas e 10 minutos.

Com: Ritchie Coster (Emiliano), Oscar Isaac (Federico Garcia Lorca), Priscilla Lopez (Paquita), Pedro Pascal (Karim) e Elizabeth Rodriguez (Marina). Peça que lembra o universo de Almodóvar faz sucesso em NY George El Khouri Andolfato

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