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12/01/2006

Fungo que se alastra com o aquecimento global pode acabar com espécies de anfíbios

The New York Times
Andrew C. Revkin

Em Nova York
Cientistas que estudam uma espécie em rápido desaparecimento de vários tipos de sapo harlequim multicoloridos em regiões montanhosas e nevoentas da América Central e da América do Sul divulgaram um relatório nesta quarta-feira (11/01) segundo o qual o aquecimento global está propiciando a proliferação de um fungo capaz de matar muitas espécies de animais anfíbios.

Forrest Brem via The New York Times 
Disseminação de fungos provocada pelo aquecimento global ameaça espécies como o sapo dourado do Panamá
Os pesquisadores detectaram o papel importante exercido pelo aquecimento global neste processo, que se diferencia claramente das variações de temperatura ou de outras condições locais.

As suas conclusões baseiam-se em sua descoberta de que os padrões de surgimento do fungo e as ocorrências de extinção de animais registradas em áreas de habitat espalhadas por amplas regiões distantes entre si, estão sincronizadas de uma forma que não poderia ser explicada pelo acaso.

Se a análise for comprovada, ela será a primeira a relacionar as recentes mudanças climáticas à disseminação de um fungo letal para os sapos e as salamandras, assim como os seus aparentados. O fungo chytridiomycota (uma das quatro categorias da filogenia dos fungos), o Batrachochytrium dendrobatidis, andou devastando comunidades de anfíbios em muitos lugares do mundo no decorrer das últimas décadas.

Mas os especialistas em doenças de animais anfíbios e em ecologia divergem em relação a esta descoberta, que será publicada nesta quinta-feira (12) na revista "Nature". Muitos cientistas criticaram este artigo na quarta-feira, afirmando que ele contém fontes significativas de incertezas; outros disseram que ele apresenta uma prova importante de que o aquecimento provocado pela atividade humana já está dizimando os animais selvagens.

Forrest Brem via The New York Times 
Dois terços das mais de 110 espécies das regiões tropicais do hemisfério ocidental desapareceram desde os anos 80
Os cientistas especializados no clima já estabeleceram a relação entre a maior parte do recente aumento da temperatura média na terra com o alastramento do efeito estufa, que é provocado, entre outros, pelas emissões de dióxido de carbono por parte das indústrias e dos automóveis.

Esta nova pesquisa foi dirigida por J. Alan Pounds, o biólogo residente na Área de Preservação da Mata tropical de Monteverde, na Costa Rica. Num texto analítico que acompanha os dados divulgados, dois cientistas que não participaram da pesquisa afirmam que ela fornece "provas irrefutáveis" de que o aquecimento causado pela atividade humana já está rompendo o equilíbrio ecológico.

"Os sapos estão enviando um sinal de alarme a todos os que se preocupam com o futuro da biodiversidade e com a necessidade de proteger o maior de todos os recursos de livre acesso --a atmosfera", escreveram os cientistas, Andy Dobson, um ecologista da Universidade Princeton, e Andrew R. Blaustein, um zoólogo da universidade do Estado do Oregon.

Mais de 110 espécies do sapo harlequim de cores vivas, do gênero Atelopus, costumavam viver perto de córregos nas regiões tropicais do hemisfério ocidental, mas cerca dos dois terços dentre eles desapareceram desde os anos 80.

O principal suspeito desta matança é o fungo chytridiomycota que, nas últimas décadas andou dizimando muitos animais anfíbios nos desertos, nas florestas tropicais situadas em planícies e nas regiões montanhosas. Ainda não foi esclarecido se o fungo foi disseminado pelo mundo afora pelo comércio humano com animais anfíbios ou se ele permaneceu totalmente despercebido até o seu recente surgimento.

Paradoxalmente, o fungo prospera com maior facilidade dentro de condições mais frias, o que é um desafio para a teoria que atribui a culpa pelo seu alastramento ao aquecimento global. Mas J. Alan Pounds, junto com a sua equipe, ao estudar tendências de temperaturas e as ocorrências da doença nas regiões tropicais do continente americano, descobriu padrões recorrentes que, segundo ele, explicam a situação.

Uma vez que o aquecimento aumenta a evaporação, ele pode gerar nuvens que tendem a tornar os dias mais frios por bloquearem a luz do sol. Numa entrevista, Pounds explicou que esta tendência poderia ter criado condições favoráveis para a disseminação do fungo chytridiomycota.

Ele acrescentou que, uma vez que as aparentes extinções têm ocorrido de maneira invariável em locais e terrenos muito distantes entre si, elas dificilmente poderiam ser atribuídas a qualquer processo que não seja a vasta tendência ao aquecimento que os cientistas já vincularam às crescentes concentrações de gases na atmosfera que geram o efeito estufa.

Contudo, alguns especialistas que já tiveram acesso ao artigo se disseram confusos ao lerem nele afirmações definitivas tais como "A nossa pesquisa desvenda o mistério do declínio dos animais anfíbios, demonstrando que o aquecimento em grande escala constitui um fator-chave deste processo".

Cynthia Carey, uma especialista em doenças de animais anfíbios na Universidade do Colorado, afirma que, enquanto tanto o clima como a extinção de animais anfíbios constituem problemas graves, este artigo em particular apresenta problemas, uma vez que ele nada oferece além de provas circunstanciais.

"É muito difícil provar causas e efeitos no terreno, onde múltiplos fatores interagem de formas complexas", diz.

Stephen H. Schneider, um especialista em clima da Universidade Stanford que trabalhou com Pounds em outros estudos e foi consultado na elaboração deste último, reconhece que as incertezas permanecem, mas ele também acrescenta que este trabalho é significativo.

"É comparável com qualquer outra coisa que seja complexa", explica. "Quando você ainda se encontra nos estágios iniciais do aprendizado, você procura múltiplas linhas de raciocínio, e quando estas convergem com a teoria básica, cresce a sua confiança na existência de uma conexão efetiva". Pesquisa publicada nesta quinta na revista "Nature" revela que o processo de extinção ocorre sempre da mesma forma em regiões muito distantes em si Jean-Yves de Neufville

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