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13/01/2006

Filmes que precisam de retoques

The New York Times
Caryn James
"The New World", filme poético de Terrence Malick sobre John Smith, Pocahontas e o a colônia de Jamestow, foi apresentado durante uma semana em Nova York e Los Angeles, mas essa versão já está obsoleta. O "New World" que estréia em todo o país na sexta-feira, dia 20 de janeiro, dura 2h15, 15 minutos a menos que sua prévia encarnação (cuja breve temporada permitiu-lhe concorrer ao Oscar) e muito mais curto do que a versão de três horas que Malick está preparando para lançar em DVD. O original agora é algo como "The New World 1.0". Talvez você se pergunte se essas versões que se multiplicam não fazem parte de uma estratégia de marketing inspirada na Microsoft, com suas correções intermináveis que fazem você ficar atualizando seu Windows.

Malick, que não dá entrevistas, não quis se explicar, mas a produtora do filme, Sarah Green, o fez em entrevista telefônica. Como qualquer outro, disse ela, "Terry fica impaciente sentado no cinema". Ao preparar o DVD para "The New World" ele viu que a versão que entregara às pressas para a New Line para concorrer ao Oscar "ficaria melhor se fosse um pouco mais enxuta". Ele iniciou as mudanças, e o pessoal da New Line -com um filme mais curto para vender- deve ter ficado satisfeito.

A opinião de que o espectador talvez tenha melhor experiência com filmes mais enxutos é rara entre diretores, especialmente nesta temporada em que alguns dos filmes mais famosos são inutilmente longos. O inchaço tem diferentes razões: o velho "New World" e "O Segredo de Brokeback Mountain" (2h14) demoram muito para começar. Se o público já sabe que os colonos ingleses vão chegar e que os caubóis são gays, os filmes não precisavam gastar 15 minutos para dizer isso.

O cinema pipoca "King Kong" de Peter Jackson, de gigantescas 3h07, e o ultra-sério "Munique" de Steven Spielberg, de 2h44, parecem mais frouxos do que deveriam, provavelmente porque seus poderosos diretores podem fazer o que querem. Quem vai dizer que não? O que todos esses filmes têm em comum, porém, é que os minutos a mais deixam o público irrequieto, em vez de atraí-lo.

Como Malick percebeu, a questão não é a duração em si, mas o que funciona na tela. O "New World" original criava uma sensação agradável de experiência épica, ao acompanhar Pocahontas (Q'orianka Kilcher) de sua juventude inocente, por seu romance com Smith (Colin Farrell), seu casamento com outro colono, John Rolfe (Christian Bale), e sua viagem a Londres, onde é presenteada ao rei. Mas a versão também incluía o que Green chama de "cenas livres": belas imagens de pássaros voando, água correndo e árvores crescendo. Muitas aparecem no início, quando Pocahontas vive em um mundo sem ingleses.

Essas cenas preliminares, que diminuíam o ritmo, foram cortadas. Os monólogos interiores nos quais Pocahontas e Smith meditam sobre suas vidas deixaram de ser acompanhados de imagens pitorescas da natureza. Em vez disso, disse Green, a narração "puxa você para a próxima cena". A edição foi do tipo que, com um bom tratamento, pode passar desapercebida. Além disso, Malick pode inserir tudo de volta (e mais) no DVD. "Ele sempre teve em mente fazer uma versão mais longa, permitindo que as pessoas façam intervalos", disse Green.

É claro que um filme não é apenas a trama e que, artisticamente, um trabalho pode precisar de tempo para estabelecer seus personagens e seu ritmo. Mas o público atual entra no cinema já tão cheio de informações sobre o filme que aquelas cenas explicativas ficam quase desnecessárias.

Um filme de 2h14 não é incomum hoje -o inchaço vem acontecendo há anos- mas "Brokeback Mountain" gasta tanto tempo oferecendo vistas das montanhas e todos aqueles carneiros que você começa a pensar se os personagens de Jake Gyllenhaal e Heath Ledger jamais vão se aproximar. O filme levanta vôo somente quando seu romance se inicia, quase meia hora depois.

Há uma anomalia por trás desses filmes gigantescos: enquanto a atenção do espectador parece encurtar, acostumada a telas de computador fragmentadas e programas de televisão, os filmes estão ficando mais longos, esperando competir criando um evento. O enormemente alardeado "King Kong" ganhou ainda mais publicidade quando se soube que tinha mais de três horas. O problema deste filme não é a introdução, porém. A primeira parte, na qual a atriz Ann Darrow (Naomi Watts) é contratada pelo produtor de cinema Carl Denham (Jack Black) e eles se dirigem para Skull Island, entretém o suficiente para sustentar seus 45 minutos.

O excesso acontece com os efeitos especiais, aqueles truques mágicos que Jackson parece relutar tanto em cortar. Não são seqüências inteiras que precisam ser aparadas de "King Kong" (bem, talvez o episódio bonitinho demais no qual Kong patina no gelo no Central Park, a caminho do Empire State Bulding). Mas a caracterização de cada participante da cena -os dinossauros, as aranhas, aquelas minhocas com dentes que parecem refugiadas de um filme de "Alien"- é longa demais. O filme também se demora no rosto de Kong e seus olhos expressivos. Esses são sinais de um diretor tão apaixonado por suas próprias conquistas que sacrifica o ritmo do filme.

"Munique", muito mais violento, também tem um início ótimo. Spielberg hábil e horripilantemente retrata os assassinatos dos atletas israelenses nas Olimpíadas de 1972, e apresenta os israelenses nomeados para a retaliação. Mas quando Avner (Eric Bana) e sua equipe começam a caçar os 11 homens de sua lista, o filme entra em um padrão repetitivo. Há leves variações na ação; as bombas são plantadas em locais diferentes. De vez em quando, há uma pausa para os personagens questionarem a moralidade ou a eficácia do que estão fazendo. Duas horas depois, o público começa a temer que o filme vá se arrastar por todos os 11 nomes. De fato, a equipe não precisa assassinar todos seus alvos. Quando a contagem chega a meia dúzia -e alguns israelenses são assassinados como vingança- os crimes ficam tão embolados que perdem o impacto.

Spielberg fez "Munique" rapidamente e, às vezes, dá para perceber. Você quase vê onde o roteiro, de Tony Kushner e Eric Roth, foi costurado. As metades filosófica e de ação nunca fazem um total coeso. Suas melhores partes -o questionamento moral do assassinato político, a angústia de Avner- são tão boas que você fica desejando que Spielberg tivesse feito um filme mais enxuto e convincente, que combinasse com sua ambição. Nesses casos, uma volta à sala de edição, como fez Malick, pode ser uma inspiração e não um capricho do diretor. Deborah Weinberg

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