UOL Notícias Internacional
 

14/01/2006

Irã ameaça encerrar cooperação com inspetores de armas

The New York Times
Richard Bernstein e John O'Neil
Na sexta-feira(13), o ministro das Relações Exteriores do Irã ameaçou limitar a cooperação com os inspetores internacionais de energia atômica, em uma reação irada à decisão européia de quinta-feira de exigir que o Irã seja encaminhado ao Conselho de Segurança da ONU para possíveis sanções.

Manouchehr Mottaki, o ministro das Relações Exteriores, disse que tal ação forçaria o Irã a "encerrar todas as medidas voluntárias" de cooperação com a Agência Internacional de Energia Atômica.

"Os europeus perderão todas as outras opções que atualmente dispõem nas conversações com Teerã", disse Mottaki, segundo agências de notícias.

A agência "Reuters" também informou que um importante clérigo iraniano, Ahmad Khatami, disse em uma sermão na sexta-feira que o país resistirá à "guerra psicológica" travada pelo Ocidente.

"Esta nação não é uma nação que cede a tais pressões", disse Khatami para uma multidão de fiéis na Universidade de Teerã, segundo a "Reuters". "Os europeus devem evitar a linguagem da ameaça. Usar tal linguagem contra a grande nação iraniana é inútil."

Os ministros das relações exteriores da Grã-Bretanha, França e Alemanha declararam na quinta-feira, em uma coletiva de imprensa em Berlim, que os três anos de negociações com o Irã em torno de seu programa nuclear chegaram a um "beco sem saída", nas palavras de Frank-Walter Steinmeier da Alemanha.

Pouco depois, em uma resposta aparentemente orquestrada, a secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, declarou em Washington que os Estados Unidos apoiavam plenamente a ação européia. As ações do Irã, ela disse, "arruinaram a base para negociação".

Com planos para os três países europeus realizarem uma reunião de emergência na segunda-feira, com Estados Unidos, Rússia e China, a há muito quente disputa com o Irã está começando a ferver.

Os países europeus iniciaram as negociações com o Irã em 2002, após a descoberta de um programa nuclear secreto. O Irã admitiu em 2003 que enganou os inspetores internacionais, mas insistiu que seu programa era apenas para fins pacíficos. Todavia, ele suspendeu o programa enquanto prosseguiam as negociações.

Desde a eleição de um governo mais conservador em agosto, o Irã adotou uma linha mais dura. O atual conflito foi provocado pela sua decisão de retomar a pesquisa nuclear, incluindo o trabalho com centrífugas usadas para enriquecer urânio.

Apesar da nova determinação de americanos e europeus, e muito provavelmente da Rússia e China, em fazer com que o Irã reverta o curso no campo nuclear, muitos especialistas e diplomatas disseram que o processo para de fato coagir o Irã a dar tal passo poderá demorar e nunca funcionar.

Acredita-se que o Irã esteja a anos de produzir bombas, mas a apenas um ano ou dois de dispor da perícia para fazê-lo. Por sua vez, o governo iraniano diz que apenas está fazendo o que lhe é permitido segundo o Tratado de Não-Proliferação Nunclear. "O Irã não precisa da permissão de qualquer país" , disse Mottaki na sexta-feira. "É nosso direito legítimo ter tecnologia nuclear."

O fim da cooperação ameaçado por Mottaki na sexta-feira se refere ao acordo voluntário feito pelo Irã após a revelação de seu programa secreto. Segundo o acordo, inspetores nucleares tinham o direito de conduzir inspeções repentinas.

Mas no outono passado, à medida que as tensões começaram a crescer, o Parlamento iraniano aprovou um lei declarando que as inspeções repentinas terminariam se a disputa fosse encaminhada ao Conselho de Segurança. "O governo deve cessar todas as medidas voluntárias de cooperação segundo a lei", ele disse.

A nova rodada de pesquisa está sendo realizada com monitoramento de câmeras da Agência Internacional de Energia Atômica.

Mottaki disse que os europeus "devem reconhecer o direito do Irã de realizar pesquisa nuclear para fins pacíficos".

Em troca, ele disse, "Teerã terá que fornecer explicações claras sobre seu programa nuclear e acalmar as preocupações da Europa".

Tal formulação provavelmente não deterá o esforço da Europa e dos Estados Unidos para bloquear o programa. As autoridades destes países estão preocupadas não apenas com a produção de urânio enriquecido, mas com a pesquisa que daria ao Irã a capacidade de realizar enriquecimento, já que a diferença entre produzir urânio para reatores e urânio para armas envolve apenas a escala do esforço.

Muitos especialistas ocidentais disseram que Teerã parece determinada a seguir em frente mesmo se sanções forem impostas e o país ficar isolado diplomaticamente. Não há sinal de que os principais países estejam prontos para suspender as compras de petróleo, porque tal medida faria o preço do petróleo disparar, possivelmente prejudicando a economia mundial.

Mas vários diplomatas americanos e europeus disseram que vários dias de diplomacia intensa os convenceram de que a Rússia e a China se juntariam ao crescente consenso de que o conselho da Agência Internacional de Energia Atômica, que compreende 35 países, deve encaminhar o assunto para o Conselho de Segurança, mesmo que apenas para registrar uma condenação quase mundial ao governo de Teerã.

Declarações da França e da Alemanha na sexta-feira ressaltaram o desejo de não deixar a impressão de que seus países estavam pedindo imediatamente por medidas punitivas.

"A questão de sanções é prematura", disse um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da França, segundo a agência de notícias "France-Presse" O porta-voz acrescentou que é necessário proceder "passo a passo".

Autoridades americanas fizeram comentários semelhantes na quinta-feira.

"Nós sempre dissemos que ir ao Conselho de Segurança não é um fim em si mesmo e não um sinal do final das negociações", disse Robert Joseph, subsecretário de Estado para controle de armas e segurança internacional. "Ir ao conselho oferece uma série de opções que podem ser usadas para tentar fazer o Irã mudar de curso."

Reportagem de Richard Bernstein, em Berlim; John O'Neil, em Nova York. Steve R. Weisman contribuiu com reportagem para este artigo, em Washington. George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,21
    3,129
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h35

    0,04
    76.004,15
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host