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15/01/2006

Chile está pronto para eleger um presidente diferente de qualquer outro

The New York Times
Larry Rohter

em Santiago, Chile
Os chilenos elegerão um novo presidente no domingo, e independente de quem venham a escolher, o vencedor fará história. A candidata favorita, Michelle Bachelet, seria a primeira mulher a ser eleita presidente no Chile; seu rival, Sebastián Piñera, seria o primeiro bilionário a ocupar o cargo.

AFP 
Michelle Bachelet é a favorita
Mas pode haver outras primeiras vezes para o Chile, um país que pode ser o mais socialmente conservador e formalmente religioso na América Latina. Bachelet, uma pediatra de 54 anos que nunca ocupou cargo eletivo mas que foi ministra da Saúde e Defesa, é filha de um general que morreu na prisão após a derrubada de Salvador Allende em 1973. Ele tem três filhos de dois homens, um deles com o qual nunca se casou, e vive com outro que tinha laços com um grupo guerrilheiro, segundo recentes biografias. Ela não é casada e é freqüentemente descrita como uma mãe solteira. Ela se identifica publicamente como agnóstica.

Mas Piñera, 56 anos, também quebra a tradição -apesar de não na mesma área. Sua propaganda de campanha e aparições públicas o mostram como um homem de família exemplar e acompanhado de sua esposa, às vezes acompanhado pelos quatro filhos. Ele descreve sua filosofia política como "humanismo cristão" e em um debate transmitido pela televisão com Bachelet, na semana passada, invocou Deus várias vezes para ressaltar sua fé.

AFP 
Sebastián Piñera é de centro-direita
O que o torna diferente é o fato de ser um empreendedor, não um político profissional, uma opção de carreira que já atraiu algumas comparações indesejadas com o primeiro-ministro bilionário italiano, Silvio Berlusconi. E apesar de Piñera representar uma aliança de partidos de direita, ele tem tentado privar a esquerda de fazer uso político de seu saco de pancadas favorito ao criticar abertamente o general Augusto Pinochet, o ditador militar que governou o Chile de 1973 a 1990.

"Piñera é algo diferente e está tentando penetrar no centro", disse Sergio Bitar, um dos diretores de campanha de Bachelet. "Esta eleição está menos polarizada entre democracia e ditadura" do que as três anteriores desde que Pinochet deixou o poder, "e isto a torna mais difícil".

Em uma pesquisa publicada aqui na quinta-feira, 53% das 1.200 pessoas em idade de votação que foram entrevistadas disseram preferir Bachelet. A pesquisa, realizada pelo grupo de pesquisa de opinião MORI, apresentava uma margem de erro de três pontos percentuais.

Marta Lagos, a diretora do grupo de pesquisa, alertou que a diferença entre os candidatos dependerá de quantos eleitores decidirem não votar, "especialmente entre os homens nas províncias", onde o apoio a Bachelet tem sido menor.

Desde que passaram para o segundo turno há cinco semanas, os dois candidatos têm travado uma campanha em dois níveis. Um de idéias e políticas e outro, talvez igualmente importante, de personalidades e valores.

Inicialmente, Piñera questionou a competência da coalizão de centro-esquerda que tem governado o país desde a ditadura Pinochet, apontando o que descreveu como oportunidades desperdiçadas. Mas o Chile não tem apenas desfrutado das taxas de crescimento econômico mais altas na América do Sul, mas também de uma estabilidade política invejada por seus vizinhos. Assim, tal argumento não encontrou muita sustentação.

Mais recentemente, a campanha do candidato conservador mudou de direção, passando a enfatizar que ele é um homem que se fez sozinho, que faz, que se encarrega, argumentando que seu retrospecto nos negócios, administrando empresas e criando empregos, o torna a melhor opção para suceder o presidente Ricardo Lagos. Piñera tem buscado retratar Bachelet como inexperiente e indecisa, e adotou "Piñera, Mais Presidente" como seu slogan de campanha.

O diretor de campanha de Piñera, Rodrigo Hinzpeter, recusou um pedido de entrevista, dizendo por meio de um porta-voz que não podia dispor de tempo. Os assessores de imprensa do candidato também se recusaram a disponibilizar qualquer um de seus estrategistas de campanha, dizendo que eles também estavam ocupados demais.

Mas em uma entrevista, o consultor econômico chefe de Piñera, Felipe Larraín, parafraseou o famoso comentário do debate de candidatos à vice-presidência americana, em 1988, entre Lloyd Bentsen e Dan Quayle, para destacar o que o campo de Piñera considera como a falta de qualificação de sua oponente. "Eu conheço Ricardo Lagos, e Michelle Bachelet não é um Ricardo Lagos", ele disse.

Piñera também tem buscado se diferenciar de Bachelet em questões de família, cujas opções às vezes destoam das tradições mantidas pelo Chile. O divórcio não existia aqui até pouco mais de um ano. Homens e mulheres ainda votam em locais de votação separados.

Ocorreram tentativas de retratar Bachelet como uma radical social perigosa, que defende secretamente o aborto e o casamento gay, ambos ilegais aqui, apesar dela ter prometido não buscar mudanças em nenhuma destas questões. Um prefeito que pertence ao partido de Piñera chegou até a declarar que todos os cristãos tinham a obrigação moral de votar em Piñera porque Bachelet é "a filha do diabo".

Mas muitos analistas argumentam que a direita pode ter errado ao enfatizar "valores da cintura para baixo", nas palavras de Rosario Guzmán Bravo, a co-autora de uma recente biografia de Bachelet. Ela notou que há toda uma geração de eleitores mais jovens "que não se casam, praticam sexo quando querem, vivem para sua satisfação pessoal e não se lembram da ditadura de Pinochet", de forma que apresentam maior probabilidade de simpatizar com Bachelet do que com seu oponente.

Os esforços de Piñera para cortejar os democratas cristãos centristas ao se distanciar de Pinochet também podem ter saído pela culatra. "Piñera enterrou Pinochet, e isto terá efeitos duradouros", disse Patricio Navia, um cientista político que leciona na Universidade de Nova York e na Universidade Diego Portales daqui. Mas "ele provavelmente perdeu mais votos do que ganhou" com tal gesto, prosseguiu Navia, e agora é "visto como um traidor" pelos direita linha-dura, pró-Pinochet, que deve representar cerca de 10% dos eleitores.

Além disso, a riqueza de Piñera, e os conflitos potenciais de interesse que representa, pode tê-lo deixado vulnerável. Ele controla a principal companhia aérea, uma rede de televisão e tem participações em transporte de carga, construção, imóveis e banco, que ele prometeu entregar a um curadoria caso seja eleito.

"Valores importam", disse Lagos, a diretora do grupo de pesquisa. Mas ela disse que suas pesquisas têm mostrado repetidamente que "os valores de uma sociedade aberta, democrática, de igualdade e mobilidade social importam mais", e nestas áreas, Bachelet marca mais pontos que Piñera. "Sua experiência de vida é tão distante do conteúdo das exigências da sociedade que ele não é crível", acrescentou Lagos. George El Khouri Andolfato

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