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15/01/2006

Quando o cálculo de gastos militares inclui vidas perdidas

The New York Times
Louis Uchitelle
Enquanto cresce o número de americanos mortos e feridos no Iraque, alguns economistas estão afirmando que os custos da guerra, avaliados amplamente, superam em muito seus benefícios.

Os estudos de guerras passadas se concentraram nos enormes gastos em operações militares. Essa ainda é uma grande preocupação, juntamente com o impacto colateral de coisas como o preço do petróleo, o crescimento econômico e os juros da dívida contraída para financiar a guerra.

Agora alguns economistas acrescentaram o valor em dólares de cada vida perdida em combate, e isso aumentou o sentimento antiguerra. "A profissão econômica em geral está dando mais atenção ao custo das vidas interrompidas ou prejudicadas por ferimentos e doenças", disse David Gold, um economista da Nova Escola. "Toda a questão do tabaco incentivou essa pesquisa."

A economia da guerra é um tema que remonta a séculos. Mas nas análises de custo-benefício da guerras americanas do passado um soldado morto ou ferido em batalha geralmente não era considerado um custo, e sim um sacrifício, uma conseqüência triste e inevitável para se alcançar uma vitória que protegia e reforçava o país. A vitória era um benefício que superava o custo da morte.

Essa aura ainda se aplica à Segunda Guerra Mundial, que na psique americana foi uma guerra defensiva em reação a um ataque. As vidas perdidas em combate ajudaram a proteger e preservar a nação, e esse é um benefício considerável e talvez incomensurável.

Os economistas de modo geral evitaram calcular o custo de uma vida humana durante a Guerra Fria. Mesmo durante a guerra do Vietnã, o enfoque dos estudos econômicos foi para as armas e os enganos -- a insistência desorientada do governo Johnson em que os EUA podiam suportar uma guerra total e gastos civis irrestritos. A inflação dos anos 70 foi em parte conseqüência da era do Vietnã.

A análise de custo-benefício aplicada à guerra praticamente parou depois do Vietnã e só foi retomada no outono de 2002, quando o presidente Bush empurrou o país para a guerra no Iraque. "Estamos fazendo novamente essa pesquisa, porque a guerra no Iraque é muito polêmica", disse William D. Nordhaus, um economista de Yale.

Nordhaus colocou o tema de volta na mesa com a publicação de um trabalho presciente, anterior à guerra, que comparava o conflito iminente a um "gigantesco jogo de dados". Ele advertiu que "se os EUA tiverem um surto de má sorte ou fizerem avaliações errôneas durante ou depois da guerra, a conta final poderá chegar a US$ 1,9 trilhão", incluídos todos os custos secundários durante vários anos.

Até agora o surto de má sorte se materializou, e a previsão de Nordhaus cumpriu-se parcialmente. Em estudos recentes de outros economistas, as estimativas máximas do custo real da guerra, amplamente avaliado, já entram na faixa de US$ 1 trilhão. Para começar, as despesas só com operações militares chegaram a US$ 251 bilhões em dezembro, e esse número deverá dobrar se a guerra prosseguir por mais alguns anos.

Os pesquisadores acrescentam a esse custo o dos pagamentos por incapacidade e tratamentos vitalícios em hospitais do governo para os feridos mais graves -- os que sofreram lesões no cérebro e na coluna, aproximadamente 20% dos 16 mil feridos até agora.

Antes da guerra no Iraque esses gastos já estavam crescendo para compensar o envelhecimento dos veteranos da Segunda Guerra Mundial e da Coréia. Mas aquelas guerras foram aceitas pelo público, e os custos escapam à percepção pública. No Iraque, não.

Em uma guerra que perdeu grande parte do apoio público, os custos se destacam e os benefícios -- que deveriam superar os custos e justificar a guerra -- são mais difíceis de apontar.

Em um trabalho de setembro passado, por exemplo, Scott Wallsten, um acadêmico residente no conservador Instituto de Empresas Americanas, e Katrina Kosec, uma pesquisadora assistente, citaram como benefícios "não mais aplicar sanções da ONU como a 'zona de exclusão aérea' no norte e no sul do Iraque e pessoas que deixaram de ser assassinadas pelo regime de Saddam Hussein".

Esses benefícios, segundo eles, ficam muito aquém dos custos. "Outro impacto possível do conflito é uma mudança na probabilidade de novos grandes ataques terroristas", eles escreveram. "Infelizmente, especialistas não concordam sobre se a guerra aumentou ou diminuiu essa probabilidade. Claramente, se os benefícios diretos da guerra superam os custos depende em última instância, pelo menos em parte, da resposta a essa pergunta."

A última pesquisa é um trabalho publicado na semana passada na Web
(www2.gsb.columbia.edu/faculty/jstiglitz/cost_of_war_in_iraq.pdf) por dois democratas do governo Clinton contrários à guerra: Joseph E. Stiglitz, da Universidade Columbia, e Linda Bilmes, hoje na Escola de Administração Pública de Harvard. Sua estimativa máxima de custos em longo prazo supera US$ 1 trilhão, com base nas mortes e prejuízos causados pela guerra até hoje.

Eles levaram em conta a presença americana no Iraque até pelo menos 2010, e sua estimativa inclui a contribuição da guerra para a alta do preço do petróleo nos EUA. Eles também afirmam que, embora os gastos militares tenham contribuído para o crescimento econômico, esse crescimento teria sido maior se o dinheiro tivesse sido aplicado em estradas, escolas, pesquisas e outros investimentos mais produtivos.

A guerra aumentou o custo do recrutamento militar, eles afirmam, e subtraiu da receita os salários abandonados por milhares de reservistas que deixaram empregos civis para lutar no Iraque com menor soldo. Assim como Wallsten e Kosec, Stiglitz e Bilmes calcularam o valor da vida perdida em batalha ou prejudicada por ferimentos e situaram o prejuízo em mais de US$ 100 bilhões.

É mais que o dobro da estimativa de Wallsten e Kosec. Ambos os estudos se baseiam em pesquisas realizadas a partir do Vietnã por W. Kip Viscusi, um professor de direito em Harvard. A maneira antiga de avaliar a vida calculava o valor atual da cessação de rendimentos, padrão ainda usado pelos tribunais para indenizar vítimas de acidentes, os quais geralmente concedem US$ 500 mil por vítima, no máximo.

Viscusi, porém, concluiu que os americanos tendem a avaliar o risco de modo diferente. Ele descobriu que a sociedade paga às pessoas US$ 700 adicionais por ano, em média, para trabalhar em ocupações perigosas. Dada uma morte por 10 mil trabalhadores em ocupações de risco, em média, o custo para a sociedade chega a US$ 7 milhões por vida perdida, segundo o cálculo de Viscusi.

Stiglitz e Bilmes reduziram esse número para cerca de US$ 6 milhões, mantendo sua estimativa no lado conservador, como eles dizem. Nem heroísmo nem sacrifício pelo país aparecem nas pesquisas recentes, e por um motivo: "Não precisávamos lutar essa guerra, e não precisávamos entrar em guerra naquele momento", disse Stiglitz. "Poderíamos esperar até estarmos mais reforçados e seguros, mas preferimos não esperar." Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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