UOL Notícias Internacional
 

16/01/2006

Apesar da qualidade, alguns bons filmes têm pouca chance de conseguir Oscar

The New York Times
Mark Olsen
Com tanta euforia no último trimestre de 2005 em torno das premiações do
Oscar, pode ter ficado fácil esquecer que houve lançamentos de filmes antes de setembro. Mas, como vários trabalhos que passaram por um pesado trabalho de marketing na temporada do Oscar acabaram enfrentando dificuldades em termos de aceitação - "Memórias de uma Gueixa" ("Memoirs of a Geisha" , EUA, 2005), "North Country" ("Terra Fria", EUA, 2005) -, outros filmes lançados mais cedo podem ter uma nova chance de premiação.

A lista seguinte analisa a trajetória de vários desses lançamentos do início de 2005 - alguns disputarão as indicações para prêmios da Academia em 31 de janeiro, outros certamente não - a fim de mostrar alguns dos percalços e manobras inerentes à disputa pelo Oscar.

"No Limite" ("Crash", Alemanha/EUA, 2004, 6 de maio) - Uma das surpresas do ano foi a forma como o filme de Paul Haggis sobre colisões e conexões no caldeirão étnico de Los Angeles abriu caminho até as páginas de opinião dos jornais, e o fato de ele ter gerado a expressão "um momento Crash". "Quando os produtores souberam que a Lionsgate planejava uma estréia de primavera, ficaram furiosos", conta Cathy Schulman, uma das produtoras do filme. "Creio que Paul Haggis deu gritos e berros, e que de fato pulou sobre uma mesa. O problema não foi o fato de eles lançarem o filme tão cedo neste ano - queríamos que eles distribuíssem o filme no ano passado. Terminamos o filme e o vendemos em Toronto 2004, na esperança de que ele concorresse a premiações. Eles nos disseram que nós estávamos errados, e eles certos".

De fato, todas as principais associações - de diretores, atores, roteiristas e produtores - concordaram em indicar o filme ou os seus integrantes a premiações, fazendo com que "No Limite" seja um sério concorrente a um Oscar que se acreditava que pertenceria a Steven Spielberg e ao seu filme, lançado no final do ano passado, "Munique" ("Munich", EUA, 2005).

É claro que o lançamento do filme em DVD no outono ajudou a fixá-lo nas
mentes dos eleitores do Oscar. A sua estrutura circular significa que nenhum dos atores - incluindo Sandra Bullock, Don Cheadle, Matt Dillon e Terrence Howard - eram candidatos óbvios a premiações, embora algumas decisões difíceis tivessem que ser tomadas com relação a quem deveria receber um empurrão para entrar no circuito de prêmios.

"Foi muito difícil fazer tais escolhas", diz Schulman. "Mas, até certo
ponto, eles escolheram a si próprios. Assim, a coisa toda foi parcialmente administrada e desenvolvida".

No final, Cheadle e Dillon foram indicados para disputar o prêmio de ator
coadjuvante pela Associação de Atores Cinematográficos (e Dillon recebeu uma indicação ao Globo de Ouro), o que os empurrou para o pelotão de frente, enquanto dez membros do elenco foram homenageados com uma indicação para a inusual categoria grupal da associação.

"A Outra Face da Raiva" ("The Upside of Anger", EUA/Alemanha/Reino Unido, 2005, 11 de março) - Até o momento, as coisas não iam muito bem para este drama a respeito de uma crise de meia idade. O filme não se saiu bem junto às associações, embora as suas chances parecessem boas no início do ano. Explicando a decisão da New Line Cinema de lançar o filme em março, Russel Schwartz, o presidente de marketing doméstico do estúdio, disse: "A pior coisa que se pode fazer é lançar um filme para impressionar a Academia. É preciso lançá-lo no melhor momento. Depois disso, decide-se o que fazer".

Conforme mostraram os fatos, decidir o que fazer não foi difícil. Embora a reação da crítica tenha sido variada, os astros do filme, Kevin Costner e Joan Allen, foram recebidos com entusiasmo.

"A coisa boa a respeito desses prêmios e grupos de crítica é que eles
eliminam grande parte do fator adivinhação do processo", afirmou Schwartz. "Joan e Kevin são certamente os dois elementos deste filme que pairam acima de tudo o mais. E não há desrespeito a nenhum outro envolvido - essa foi a forma como a coisa funcionou. Sabemos que se existe dinheiro para gastar em uma campanha para premiação na Academia, o 'dinheiro inteligente' vai para Kevin e Joan, e o 'dinheiro egocêntrico' para 'todas as categorias'".

"A Luta pela Esperança" ("Cinderella Man", EUA, 2005, 3 de junho) - Com a sua temática séria e o seu elenco de astros e estrelas, o filme parecia ser um candidato natural à disputa pelo Oscar. Mas ele pareceu afundar com a data de lançamento no verão. Desde então, com novas exibições limitadas nos cinemas e o subseqüente lançamento em DVD, a Universal Pictures fez o possível para colocar o filme no páreo, com resultados duvidosos.

Os roteiristas, Cliff Hollingsworth e Akiva Goldsman, foram indicados para um prêmio pela Associação de Roteiristas dos Estados Unidos, e Russel Crowe e Paul Giamatti receberam indicação da associação dos atores e dos eleitores do Globo de Ouro. Mas o filme não foi capaz de revelar aquele tipo de ímpeto que se constitui em uma promessa de um vigoroso desempenho na disputa pelos Oscars.

"Há a sensação de que a Universal pode ter inicialmente cochilado, devido à forma como fizeram o marketing do filme e à data do seu lançamento", explica Anne Thompson, vice-editora de cinema e colunista do "The Hollywood Reporter", referindo-se à insistência do estúdio em fazer um lançamento prematuro, apesar das dúvidas dos produtores. "Se olharmos apenas para o resultado bruto, é um resultado perfeitamente respeitável para este tipo de filme dramático. Mas, ao se levar em conta a exposição com a qual o filme contou, podemos considerá-lo um desapontamento em termos de bilheteria".

Há várias teorias para explicar por que o filme foi percebido como um
trabalho cujo resultado financeiro deixou a desejar. Há quem diga que o
fenômeno se deva ao cansaço da platéia, após o lançamento anterior de
"Menina de Ouro" ("Million Dollar Baby", EUA, 2004). Outros põem a culpa no infame incidente no qual Russel Crowe perpetrou uma agressão utilizando um aparelho telefônico. A equipe por trás dos lobbies pelas premiações na Universal, o estúdio que fez "A Luta pela Esperança", não quis tecer comentários para este artigo, e parece estar às voltas com um problema de percepção. "Eles estão fazendo uma grande campanha, e gastando um bocado de dinheiro", afirma Thompson. "E o público gosta do filme - esta não é a questão. O problema é saber se este é um filme que pode passar do status de fracassado para o de vencedor".

"Sr. e Sra. Smith" ("Mr. And Mrs. Smith", EUA, 2005; 10 de junho) - Os dois grandes tópicos relativos ao cinema no verão passado foram a queda nas arrecadações nas bilheterias e a onda de refilmagens, novos episódios e adaptações de programas de televisão. "Sr. e Sra. Smith" desafiou as duas tendências: o filme se baseia em um roteiro original, e é um dos filmes que mais deu lucros no ano. Mas isso não foi o suficiente para fazer dele um candidato sério a premiações, nem mesmo no Globo de Ouro, tão sensível às platéias, e que poderia tê-lo aproveitado em uma das suas bastante flexíveis categorias de melhor musical ou comédia.

"Nunca alimentei nenhuma expectativa de que seria reconhecido pelas
premiações 'para adultos'", escreveu, em uma mensagem de e-mail, o
roteirista Simon Kinberg. "Achei que teríamos uma chance no People's Choice e no MTV Movie Awards. Mas temos alguns pontos desfavoráveis quando se trata dos prêmios mais badalados. Creio que o elemento ação é um obstáculo especialmente grande a ser superado. Quando lemos as críticas positivas percebemos que os críticos entenderam totalmente que o que estávamos tentando fazer era uma história de amor ligeiramente subversiva, embrulhada nas cenas de um filme de ação. Algumas pessoas disseram ter adorado a história, enquanto outras afirmaram só ter visto os carros explodindo".

"Junebug" (EUA, 2005; 3 de agosto) - Já no momento em que "Junebug" estava sendo comprado, uma campanha para inserir o filme na rota das premiações estava em andamento, segundo um co-presidente da Sony Pictures Classics. "Isso é algo que obviamente se tinha em mente naquele momento", diz ele. "E agora esta tendência pode evoluir, à medida que são escritas as críticas e se promove um filme que estava meio na periferia. Mas, no primeiro momento em que vimos 'Junebug', sabíamos que o filme teria chances, só não estávamos certos sobre em que categorias. Nos sentimos muito confiantes quanto ao melhor roteiro original, ou melhor filme, com base na avaliação de certos grupos de críticos. A atuação de Amy Adams foi elogiada em todas as críticas".

De fato uma indicação de Adams - que foi premiada no Festival de Cinema
Sundance, no ano passado - por parte da associação de atores, a manteve no páreo, ainda que o filme não obtivesse uma platéia muito grande ao estrear em menos de 150 cinemas.

"Quando o filme estreou, sentimos imediatamente que o nosso plano seria
produzir o primeiro DVD enviado aos membros da Academia", conta Barker. "E é claro que a imprensa prestou muita atenção a isso. Afortunadamente, isso fez com que muita gente assistisse ao DVD. A questão básica nessas campanhas ao Oscar é fazer com que os membros da Academia assistam ao seu filme. A verdade é que não há muito que se possa fazer além disso".

"O Jardineiro Fiel" ("The Constant Gardener", EUA/Reino Unido, 2005) -
Lançado no último minuto antes do início da temporada pré-premiações, "O
Jardineiro Fiel" foi intencionalmente colocado na posição de regulador do
ritmo da campanha. E até o momento a estratégia tem funcionado. O filme
conseguiu três indicações ao Globo de Ouro, incluindo a de melhor drama, e além disso obteve o reconhecimento de associações de atores e produtores.

"Queríamos levantar a nossa mão e fincar a nossa bandeira", afirma David Linde, co-presidente da Focus Features. "Estávamos bastante confiantes quanto às críticas, e sentimos sempre que o filme faria parte da campanha para todas as categorias de premiação. Mas se não tivéssemos contado com essas críticas, a história seria diferente".

Linde acrescenta: "O que estamos procurando fazer é dar a cada filme o seu momento sem comprometer a sua capacidade de brilhar na temporada de premiações. É algo como promover duas estréias. Temos que dizer a nós mesmos que acreditamos que o filme é capaz de atender às expectativas dos cineastas e às da companhia. Ao mesmo tempo, não deixamos nunca de pensar sobre como será a campanha pelas premiações". Danilo Fonseca

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    17h00

    -0,22
    3,175
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h23

    1,12
    65.403,25
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host