UOL Notícias Internacional
 

17/01/2006

Primeira mulher chefe de Estado de um país africano toma posse na Libéria

The New York Times
Lydia Polgreen

Em Monróvia, Libéria
Recebida aos gritos de "Rainha da África!" e dirigindo-se a uma multidão em frente ao edifício crivado de balas do palácio presidencial, um retrato fiel desta nação dilacerada pela guerra civil, Ellen Johnson Sirleaf, uma banqueira formada em Harvard e, sobretudo, uma mulher forte, valente e decidida, sobrevivente dos brutais costumes políticos da Libéria, prestou juramento nesta segunda-feira (16/01) para se tornar a primeira mulher de um país africano a ser eleita chefe de Estado.

Michael Kamber/The New York Times 
Ellen Johnson Sirleaf acena para simpatizantes antes de fazer o juramento de posse em Monróvia
Ao tentar pronunciar seu discurso de posse, ela foi constantemente interrompida por gritos de alegria. A platéia respondia às suas frases com palavras como "Sim!" e "Amem!".

Ellen Johnson Sirleaf disse à multidão que ela pretende estabelecer "uma mudança fundamental em relação ao passado, o que vai requerer, portanto, que nós avancemos de maneira ousada e decisiva na resolução de problemas que, durante décadas retardaram nosso desenvolvimento, minaram nossa unidade nacional e mantiveram as divisões, tanto as antigas como as novas em estado de fermentação".

Aquele foi um momento de jubilação, impregnado de significado histórico, observado pelos sorridentes membros deste "ex-clube do Bolinha" ao qual Ellen Johnson Sirleaf estava se juntando, a fraternidade até então exclusivamente masculina dos líderes africanos. Olusegun Obasanjo, o presidente da Nigéria e principal dirigente da União Africana, parecia estar irradiando luz no momento da posse de Ellen Johnson Sirleaf.

A delegação americana conduzida por Laura Bush e a secretária de Estado Condoleezza Rice também compareceu. O alto nível dos seus integrantes, que assistiram à posse sob um simples baldaquino de tecido tosco, sinalizou a vontade de pôr fim à crise que sempre dominou a conturbada história entre os dois países, marcada por relações tão antigas quanto difíceis: a Libéria foi fundada por escravos que retornaram dos Estados Unidos em 1847.

Na fileira da frente também estava sentado George Weah, o ex-jogador de futebol (vencedor da Bola de Ouro e eleito pela Fifa melhor jogador do mundo em 1995) que perdeu a eleição para Ellen Johnson Sirleaf e recusou-se então a reconhecer a vitória da sua adversária. A sua reação fez com que todos temessem pela possibilidade de ver ruir mais uma vez uma oportunidade de paz duradoura para a tão sofrida Libéria. Mas Weah reconheceu sua derrota no mês passado, o que abriu o caminho para a realização desta cerimônia histórica de segunda-feira.

Apesar da euforia, Ellen Johnson Sirleaf tem pela frente uma montanha de problemas para resolver, numa nação atingida por uma guerra civil que durou 14 anos. As infra-estruturas da Libéria estão completamente destruídas; não há água encanada, nem rede elétrica. As suas estradas, suas escolas e seus centros de saúde, onde eles ainda existem, dificilmente conseguem cumprir suas funções.

Um governo interino que esteve no poder desde que seu antigo ditador, o líder militar Charles Taylor, fugiu do país em 2003 tinha supostamente por missão de dar o pontapé inicial do desenvolvimento, mas a corrupção desmedida que assola o país obrigou muitos doadores estrangeiros a interromperem seus programas.

Por exemplo, a União Européia (UE) chegou a apoiar um projeto visando a implantar uma rede de energia na capital, mas ela acabou se retirando por causa das preocupações com a corrupção. Agora que a nova presidente assumiu seu cargo, a UE voltará a implantar o programa, com uma doação de US$ 70 milhões (R$ 159,33 milhões). Os Estados Unidos estão envolvidos com a reconstrução das forças armadas do país. A missão das Nações Unidas na Libéria, que inclui um contingente de manutenção da paz de 15.000 soldados, custa cerca de US$ 700 milhões (R$ 1.593,34 bilhão) por ano.

Também continua pendente a difícil questão do que fazer com Charles Taylor, o líder militar que se tornou presidente e que, com o apoio da Líbia e de outras forças regionais, promoveu ondas de destruição contra o seu próprio país e boa parte da África ocidental, desencadeando um ciclo de guerra que até hoje vem repercutindo seus efeitos negativos. Ele fugiu no exílio para a Nigéria em 2003.

A sua segurança era uma condição para pôr fim à guerra, mas ele foi indiciado por um tribunal por crimes de guerra que ele teria cometido em Serra Leoa. A Nigéria já anunciou que ela o entregaria somente se a Libéria fizer o pedido para tanto.

Ellen Johnson Sirleaf disse que a Libéria está impedida de agir por causa de uma resolução da ONU que determina que Taylor compareça em primeiro lugar perante um tribunal em Serra Leoa, mas ela acrescentou que, no curto prazo, ela precisa ponderar os apelos por justiça em relação à necessidade de implantar a paz.

"A nossa paz é frágil; nós ainda temos muitos outros iguais a Taylor operando no país", disse Ellen Johnson Sirleaf numa entrevista. "Nós não queremos promover um retorno ao estado de guerra".

Os liberianos, até mesmo os partidários de George Weah, que haviam promovido uma onda de violência pelas ruas para protestar contra aquilo que eles consideravam uma eleição fraudada, exultaram no momento da posse, ao mesmo tempo aliviados por verem que a guerra parece ter se afastado finalmente da Libéria, e orgulhosos pelo fato de o seu país ter dado à luz a primeira chefe de estado mulher do continente.

"Eu votei por George Weah, mas eu aceito Ellen porque ela é a nossa 'Ma' ['Vovó'] e que ela vai cuidar de nós", conta Benedict Newon, um ex-menino soldado hoje com 19 anos. Ele levantou uma arma pela primeira vez no exército de Charles Taylor, quando ele tinha 10 anos, embora mais tarde ele tivesse se juntado a um outro grupo rebelde.

"Eu nunca mais voltarei a andar armado", diz Newon, apontando para o seu filho de 8 meses e a sua mulher, Fatou, que está grávida. "Agora, eu tenho um futuro. Eu preciso protegê-lo. Por isso, eu tenho que ser paciente com a Vovó Ellen".

Essa noção que faz de uma presidente uma mãe de família pode parece novidade, mas, na Libéria, a política sempre foi paternalista - os soldados que lutavam no exército de Taylor chamavam-no de "Papai".

Numa entrevista antes da sua posse, Ellen Johnson Sirleaf afirmou que, diferentemente do que preconizam algumas mulheres ocidentais que atuam na política, ela admite os papéis femininos estereotipados como sendo parte integrante da sua personalidade e da atração que ela exerce, embora ela seja também conhecida como a "dama de ferro da Libéria" pelos anos em que ela atuou como militante da oposição, que incluíram dois episódios em que ela se viu na condição de prisioneira política.

"Esse apelido de dama de ferro, é claro, vem das enormes dificuldades que enfrentei por muitos anos como mulher profissional da política num mundo dominado pelos homens", disse Ellen Johnson Sirleaf. "Mas, há também todos esses jovens que nós temos aqui, e o sofrimento que eu testemunhei assim como o desespero e a falta de esperança. Tudo isso acabou valorizando a mulher materna que eu tenho em mim, e foi a partir disso tudo que veio o apelido de Vovó Ellen".

Trata-se de uma combinação de dureza e de ternura que permitiu às mulheres conquistarem um novo tipo de respeito na cena política cada vez mais democrática da África. Dominados no passado por homens autocratas, muitos são os países africanos que contam atualmente mulheres em posições elevadas. Nesse sentido, boa parte dentre elas está bem posicionada para se juntar a Ellen Johnson Sirleaf e ascender ao cargo máximo do poder.

Mulheres de todo o continente afluíram a Monróvia para celebrar sua vitória. Abena P.A. Busia, uma professora de inglês de Gana disse que ela teria se deslocado a nado, se preciso, para a posse.

A euforia era palpável nas ruas, onde contingentes de trabalhadores aprontavam freneticamente esta cidade tão maltratada, de modo que ela seja apresentável para a tão esperada cerimônia. Carecendo de quaisquer equipamentos adequados, equipes pintavam faixas nas ruas e nas avenidas por meio de enormes matrizes e de escovas manuais.

Pandora Matati, uma ex-soldada, hoje com 20 anos, integrou uma das equipes que trabalharam febrilmente para preparar o grande evento. "Eu amo Ellen por tudo que ela vai fazer por nós", disse Pandora no momento em que ela fazia uma curta pausa do seu trabalho que consistiu em reforçar as estruturas de concreto do prédio da presidência. "Com Ellen, tudo voltou a ser possível". Ellen Johnson Sirleaf tem dois apelidos: ela é "Vovó Ellen", num país onde a política sempre foi paternalista, e a "dama de ferro", endurecida por anos de luta na oposição Jean-Yves de Neufville

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