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18/01/2006

Capote de Hoffman é pervertido, vampiro e grosseiro. Mas com certeza um cara legal

The New York Times
David Edelstein

Em Nova York
Ao observar Philip Seymour-Hoffman (cabeça grande, corpo grande, vozeirão profundo) incorporando Truman Capote (cabeça pequena, corpo pequeno, bizarra vozinha de bebê) em "Capote", você vai querer cobri-lo com todos os prêmios de interpretação possíveis e talvez até também com um par de medalhas olímpicas.

Que concentração! Que capacidade de transmutação!

Sara Krulwich/The New York Times 
Philip Seymour-Hoffman perto de sua casa, no restaurante Five Points, em Manhattan
O desempenho dele transcende o simples mimetismo. Com precisão implacável, Hoffman expõe as vísceras que explicam a empatia de seu personagem, enquanto Capote aprofunda seu relacionamento com o assassino convicto Perry Smith (Clifton Collins Jr.) para poder escrever melhor seu livro "In Cold Blood" (A Sangue Frio). Ficamos com um retrato dilacerante do artista enquanto um vampiro, com os caninos afiados mesmo quando está inundado pela autodepreciação.

Para um ator que se revela por inteiro nas telas, Hoffman, 38 anos, esteve decididamente --talvez de maneira decepcionante-- não-histriônico no almoço perto de seu apartamento em Lower Manhattan, onde ele vive com a namorada e o pequeno filho deles. Nada de voz trovejante, nem de demonstrações de virtuosismo: dificilmente se diria que ali estava um ator.

Pessoas que já trabalharam com ele comentam duas coisas: a) que ele é um dos atores mais legais e honestos na indústria; e b) que durante as filmagens ele pode se tornar inabordável.

"Eu não discordaria de nada disso", Hoffman admite, recuando um pouco diante da possibilidade de ser considerado um temperamental. "Há certos trabalhos, em certos ambientes, onde eu não fico tão na defensiva. Mas eu sou assim mesmo, do jeito que eu sou, e me considero uma pessoa bem decente. Mas se eu estou diante de um desafio, e sinto que posso estar fraquejando, aí eu me exijo muito. E, diante de uma câmera e na frente das pessoas, você está num lugar muito vulnerável. Aí eu posso me tornar uma pessoa bem difícil. Mas não sou um carente. Não sou daqueles caras que se isolam em seu próprio trailer. Mas decididamente sou um cara que me xingo bastante, e bem alto."

Nesses momentos nem pense em abordá-lo e conversar à toa. É melhor nem mesmo olhar para ele. "Eu irei pensar: `Será possível ter um pouco de privacidade? Há alguma possibilidade de você não olhar para mim agora?'", confessa o ator.

É estranho ouvir um ator lamentar o fato de que as pessoas estão olhando para ele, mas há também algo de profundamente particular --e de devastador-- nos papéis que Hoffman escolhe para interpretar.

Primeiro ele se insinuou nas mentes dos críticos e cinéfilos na tragicomédia pedófila de Todd Solondz em 1998, "Felicidade". Hoffman não era o pedófilo. Ele era o voyeur gordão boca-suja que ligava para a vizinha gostosona (Lara Flynn Boyle), e que se masturbava ao dizer para a moça todas as coisas que queria fazer com ela. Sentando na beira da cama, de cueca, com o barrigão indecente, a cueca lamentável e uma voz que parecia emergir de suas entranhas, Hoffman garantiu um lugar para si mesmo no Hall da Fama dos Grandes Pervertidos do Cinema.

Nem todos os desempenhos dele são tão perturbadores assim, mas, desde "Felicidade", Hoffman vem encarando uns malucões formidáveis: um exuberante travesti cantor de boate em "Flawless" (Ninguém é Perfeito, 1999); o perturbado marido de uma suicida em "Love Liza" (2002); um jogador devasso e maníaco em "Owning Mahowny" (2003); um pastor emocionalmente inflamado em "Cold Mountain" (2003); e um grotesco (e absurdamente engraçado) ex-ator mirim em "Quero Ficar com Polly" (2004).

O alcóolatra Jamie Tyrone que ele viveu em "Longa Jornada Noite Adentro" na Broadway em 2003, contracenando com Vanessa Redgrave e Brian Dennehy, parecia estar relativamente em segundo plano --até sua grande cena, com a confissão de Jamie quanto à malícia em relação ao seu irmão mais novo (interpretado por Robert Sean Leonard), cena em que começa hesitante até construir um crescendo de excruciante intensidade.

Depois de viver durante seis meses uma das almas mais prodigamente atormentadas de Eugene O'Neill, interpretar Truman Capote não deve ter sido das tarefas mais difíceis.

Considerando seu tipo endomórfico (ele se queixa da tendência de ganhar peso muito facilmente) e a forma com que ele é escalado para personagens que não estão em boa forma física, é surpreendente saber que Hoffman era considerado um "gatão" na escola de ensino médio em Fairport, Estado de Nova York, perto de Rochester. Ele jogou beisebol, depois mudou para luta livre. Ele partiu para a interpretação só depois que uma contusão lhe afastou dos ringues. Mas ainda é um apaixonado pelos esportes.

"As competições esportivas lembram muito o teatro", diz Hoffman. "Tem sempre o mesmo repertório de jogadas, mas é diferente a cada noite. Tem que haver tanto disciplina quanto criatividade. Há também a visualização: na luta livre, quando você está por cima pensa, `se eu pegar o braço dele por ali posso me dar bem por aqui', e você se imagina fazendo aquilo. O mesmo acontece quando se interpreta. Os atores têm um objetivo e correm atrás dele, e é na luta por esse objetivo que a força do personagem será revelada."

A busca da essência em relação aos personagens. A maneira como, quando eles precisam correr atrás dos objetivos, se expõem de peito aberto. Por aí você pode ver porque as apostas em Philip Hoffman estão assim tão altas.

O primeiro grande papel de Hoffman nos tempos de ensino médio foi --imaginem-- Willy Loman em "A Morte do Caixeiro Viajante". Ele diz que sabia não estar à altura do papel. Mas aí ele pergunta --para que fazer apenas as coisas que você sabe que é capaz de realizar?

"É uma lei da natureza", diz o ator. "Quanto mais alto o risco, mais você se propõe ao sucesso. Aí você procura algo que lhe leve a uma região assustadora, a algo desconhecido, que irá ocupar todo o seu tempo, toda a sua cabeça --ocupar você por inteiro."

As lembranças daqueles momentos (têm havido muitas desde que a estrela de Hoffman subiu) sugerem que seu famigerado caixeiro viajante assombrou as platéias pelos riscos que assumiu --embora ele agora admita que plagiou um pouco outro ator que salta no escuro, Dustin Hoffman, cujo Loman ele viu na Broadway quando estava disputando uma vaga para a New York University. Recentemente, Philip ficou emocionado ao receber um telefonema de Hoffman (Dustin), que ligou para louvar o Truman Capote do colega.

"O que eu não falei para ele", admite Philip Seymour-Hoffman, "foi que o desempenho dele na Broadway me animou tanto na época que eu saí do teatro e fiz aquela ceninha boba dos filmes, e de repente me peguei correndo de um lado para o outro, empolgado e feliz".

Em harmonia com seu currículo no teatro da NYU, Hoffman estudou na escola de artes dramáticas Circle in the Square, e agora dá créditos a dois professores por duas abordagens diferentes: um que dava ênfase à ação ("altos riscos, assuntos de vida ou morte", segundo o ator), enquanto o outro seguia uma escola mais interiorizada e classicamente ligada ao Método (do Actors Studio).

"A impressão que eu tinha era que um sem o outro resultaria numa interpretação ruim", diz o ator. "Mas, se combinasse as duas técnicas, para mim isso significava que eu teria boas chances."

Para Hoffman, é preciso refletir muito ao conciliar essas duas abordagens. "Vários professores de interpretação diriam, `Não pense muito, vá lá e faça'", diz o ator. "Mas eu tive um professor que me dizia: `Nada disso. Pense. Tenha certeza de que está pensando o tempo todo. Seja um ator pensante. Por favor seja um pensante. Não pare de pensar.'"

E o que dizer dos treinadores de elenco que dizem aos seus atores que eles estão pensando demais?

"É, mas é porque existem os atores que ficam pensando na maneira como poderiam fracassar", responde Hoffman. "Pensar não significa ser um auto-centrado. O ator que pensa é aquele que observa a trajetória da bola e antevê como ela irá fazer a curva. É assim que você poderá atingir a bola."

O primeiro grande sucesso de Hoffman veio com "Perfume de Mulher" (1992), onde ele interpretou o colega bobão de Chris O'Donnell na escola ("Philip S. Hoffman" é o nome que aparece no final dos créditos de abertura).

Atualmente o ator recapitula seus primeiros desempenhos no cinema e considera que eles não tinham muito foco, de tão ocupado que ele estava. Mas em 1996 ele teve uma cena de destaque como um jogador da pesada no primeiro longa de Paul Thomas Anderson, "Hard Eight", o que marcou o início de uma íntima amizade com o diretor, assim como garantiu papéis seguintes nos filmes de Anderson.

O desempenho dele como um tiete meigo porém um tanto grotesco do astro pornô vivido por Mark Wahlberg em "Boogie Nights" (1997), de Anderson, foi um marco em seu desenvolvimento --um marco no processo de aprender a entrar de cabeça na mente de um personagem, tanto diante quanto por trás das câmeras.

"No final das contas, você precisa criar uma compreensão em tantas camadas, sobre a forma como seus personagens funcionam e também sobre as motivações deles, que depois disso você só precisa ter a confiança de dar um passo adiante e abrir a boca", diz o ator.

É importante dizer que esse processo de imersão total também pode ter seus pontos negativos. Hoffman é capaz de mergulhar tão profundamente em seus personagens que sua interpretação pode parecer um tanto sem modulação, em personagens desconcertantes. Vagando por "Love Liza" (escrito pelo irmão dele, Gordy), o sofrimento do personagem dele é tão radical que fica até difícil de assistir.

O Mahowny de "Owning Mahowny" (Possuindo Mahowny) é um homem reduzido à crueza de seu próprio vício, com uma vaga percepção de consciência. Você pode argumentar que uma das características da integridade de Hoffman é a de que ele não exacerba as obsessões de seus personagens. Mas isso também pode resultar em monotonia - numa ausência de carga dramática.

E aqui vai uma novidade que você não ouve todos os dias das estrelas do cinema: na ilha de edição de "Capote" (que ele co-produziu), Hoffman brigou com o diretor, Bennett Miller, para que o personagem fosse menos atraente.

"O filme poderia ser montado tranqüilamente sem mostrar o aspecto desagradável dele", diz Hoffman. "Mas eu falei: `Para se alcançar a empatia em relação ao personagem, a melhor maneira é pegar pesado com ele. Quanto mais forte for, mais empatia virá para o personagem, no final das contas.'"

Eu disse a ele que não havia entendido bem essa argumentação.

"Isso quer dizer que você pode até ter uma opinião bem formada sobre o personagem, mas só irá entender plenamente toda a dimensão de seu distúrbio emocional quando realmente flagrá-lo nas atitudes mais condenáveis", explicou o ator.

"Acredito que, lá no fundo, as pessoas entendem como os seres humanos são cheios de falhas. Acho que quanto mais benigna for sua abordagem, menos verdadeira ela será."

Certamente essa é a maneira de pensar de um ator que se atormenta um bocado --pensar que a maneira de chegar ao coração do público passa pela cruel auto-exposição. É esse sacrifício, sustenta Hoffman, que separa os grandes atores dos carreiristas. Ensaiar para "Capote", ele confessa, foi como ir malhar na academia durante várias horas por dia, empurrando seu corpo e sua voz para certas regiões que ele mal supunha poder alcançar.

Agora ele tenta não pensar muito sobre a disputa para o Oscar da Academia, uma disputa que poderá acontecer entre dois tipos bem diferentes de personagens gays: o loquaz e afetado dandy vivido por Hoffman contra o Homem de Marlboro de Heath Ledger, de poucas palavras. Enquanto isso, ele descansa, depois de terminar uma jornada um tanto mais atlética --um papel com maior desempenho físico em "Missão Impossível 3", como antagonista de seu companheiro em "Magnolia", Tom Cruise.

Ele diz ter adorado o treinamento físico e a convivência com os dublês, mas essa foi uma exceção muito bem paga em relação ao seu regime mais habitual, e bem diferente daquele jeito "panela de pressão" de ser, que faz dele às vezes alguém apavorante e assustador.

"Não é agradável viver todos esses sentimentos, habitar todos esses pensamentos", diz Hoffman. "Isso tanto pode render dias bem difíceis, onde é duro trabalhar contigo, como também pode resultar em dias bem lindos. A intimidade que você conquista com seu diretor ou com outras pessoas quando você vive esse processo --isso pode render alguns dos maiores momentos de sua vida."

E também pode render alguns dos maiores momentos de um artista --se ele for capaz de agüentar que olhem para ele enquanto faz o seu trabalho. Ator venceu o Globo de Ouro e é um dos favoritos para o Oscar Marcelo Godoy

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