UOL Notícias Internacional
 

18/01/2006

Com cuidado e sutileza, Hillary Clinton pavimenta a sua candidatura à presidência

The New York Times
Raymond Hernandez

Em Washington
Quando a senadora Hillary Rodham Clinton capitaneou recentemente uma campanha de arrecadação de verbas para o governador de New Hampshire, um colega do Partido Democrata, os seus assessores procuraram assegurar que o evento não fosse realizado naquele Estado, mas sim em Boston, no vizinho Estado de Massachusetts, onde uma visita da senadora não causaria um frenesi de especulações sobre os seus planos políticos.

Ruth Fremson/The New York Times 
Hillary Clinton durante homenagem a Martin Luther King, quando comparou a liderança republicana a um plantation
O evento, ocorrido em outubro, garantiu a ela uma crucial boa-vontade por parte do principal candidato eleito em um importante Estado para as primárias presidenciais, no raio de ação da mídia de marketing de Boston.

Mas ele também revelou como Hillary se movimenta delicadamente quando se trata de construir uma rede de relações políticas por todo o país, ao mesmo tempo em que disputa a reeleição para o Senado por Nova York, mantendo-se conscientemente distanciada dos conturbados territórios da campanha presidencial, como os estados de New Hampshire e Iowa.

Nos últimos meses, enquanto a sua oposição política em Nova York desmoronava, Hillary viajava pelo país, buscando verbas para a sua já abarrotada reserva de campanha, tendo visitado uma Nova Orleans arrasada pelo furacão, e oferecido apoio a candidatos que, em troca, a auxiliarão no que diz respeito a qualquer ambição de âmbito nacional da senadora.

E ela aumentou o tom dos seus ataques contra os republicanos, criticando a forma como o presidente Bush administra a guerra no Iraque, e tendo causado um burburinho na última segunda-feira, ao afirmar que a Câmara dos Deputados é gerenciada como um "plantation" [latifúndios da época colonial que praticavam a monocultura com mão-de-obra de escravos negros].

Embora seja de esperar tal tipo de comportamento por parte de qualquer pessoa que se prepare para conquistar a presidência em 2008, Hillary está em uma situação completamente diferente daquela dos outros democratas que têm se preparado abertamente ara as campanhas de âmbito nacional ao criarem comitês preliminares e visitarem Estados de peso fundamental na fase das primárias.

Faltando apenas dez meses para a sua disputa em Nova York, nem ela nem os seus assessores políticos desejam fazer qualquer coisa que possa sugerir que as ambições da senadora extrapolem as fronteiras do Estado. Os republicanos costumavam acusá-la de usar a eleição em Nova York como trampolim para a presidência.

O evento para a arrecadação de verbas de campanha para a reeleição do governador John Lynch, de New Hampshire, foi realizado em Boston, depois que os assessores de Hillary sugeriram aquele local.

Na verdade, Hillary e os seus assessores parecem ter bolado uma estratégia limitada sobre como concorrer à presidência sem realmente concorrer à presidência --isso embora o campo dos correligionários da senadora insista em dizer que a única preocupação de Hillary no momento é ser reeleita em Nova York, e chame atenção para o fato de ela estar viajando pelo país há anos no intuito de auxiliar os democratas.

Don Fowler, da Carolina do Sul, um ex-presidente do Comitê Nacional Democrata, sugeriu que Hillary tem sido capaz de desempenhar com sucesso este delicado papel --"descascando a cebola com perfeição", conforme as suas palavras-- em grande parte porque os republicanos de Nova York ainda não encontraram um candidato forte para concorrer com ela a uma vaga no Senado.

A única candidata na qual os republicanos nova-iorquinos depositaram as suas esperanças, Jeanine F. Pirro, a juíza distrital do Condado de Westchester, se retirou da disputa no mês passado, depois que a sua campanha foi prejudicada por gafes públicas e eventos para arrecadação de verbas sem nenhum brilho.

Fowler disse duvidar que Hillary teria disposição para embarcar em um esquema de viagens tão intenso fora do Estado de Nova York se os republicanos tivessem realmente conseguido um candidato forte para disputar com ela. Ele afirmou que Hillary não está tão ameaçada em Nova York quanto estaria caso os republicanos tivessem um candidato "nota dez" se opondo a ela.

Kathleen Sullivan, presidente do Partido Democrata em New Hampshire, afirmou que os membros do partido não ficaram ressentidos com Hillary devido à sua decisão de não visitar o Estado, tendo em vista às demandas de um ano eleitoral que ela enfrenta em Nova York.

"Creio que a população adoraria vê-la", disse ela a respeito de Hillary, que esteve pela última vez em New Hampshire em 1996. "Mas o povo entende as questões políticas práticas relativas à campanha pela reeleição em Nova York".

Hillary ainda está em contato com as suas bases em Nova York, onde ela conquistou a reputação de ser uma candidata incansável durante a sua bem-sucedida campanha de 2000 pelo Senado. Nos últimos dois meses, Hillary apareceu em público pelo menos 21 vezes no Estado --visitando a cidade de Nova York e os seus subúrbios, e cidades do interior do Estado, como Glens Falls, Syracuse, Schnectady e a região de Finger Lakes--, tendo passado grande parte do resto do seu tempo trabalhando em Washington.

Levando-se em conta todos os fatores, ela não descartou a possibilidade de disputar a presidência em 2008.

Paul Begala, que foi assessor político do presidente Bill Clinton, disse que Hillary Rodham Clinton tem lidado com questões sobre uma corrida presidencial da mesma forma como George W. Bush agiu quando disputou a reeleição para o governo do Texas em 1998: Ele disse aos eleitores que não sabia se concorreria à presidência em 2000.

"As situações são bastante análogas", disse Begala. "Ele deixou as suas opções em aberto, e honestamente não fechou a questão. E estou certo de que Hillary também não fechou a questão, já que qualquer político esperto esperará e estudará o terreno".

Os republicanos de Nova York ainda esperam utilizar a questão das suas possíveis aspirações nacionais conta ela na campanha pelo Senado em 2006, argumentando que os nova-iorquinos estão sendo ludibriados por uma senadora que, segundo eles, não está genuinamente comprometida com o Estado.

"Desde o primeiro dia, ficou claro que o foco da senadora Clinton estava na disputa à presidência, e não em Nova York", disse Ryan Moses, diretor-executivo do Partido Republicano do Estado de Nova York.

Há apenas um ano, logo após a derrota do senador John F. Kerry para o presidente Bush, os democratas próximos a Hillary argumentaram reservadamente que ela não deveria tentar a reeleição em Nova York, dizendo que seria quase certo que uma campanha pelo Senado em 2006 complicaria qualquer campanha presidencial em 2008.

Parte da preocupação é com a possibilidade de os republicanos utilizarem a corrida pelo Senado como uma oportunidade de atacar Clinton, que continua sendo uma figura polarizadora para muita gente, e de a obrigarem a gastar dinheiro, além de exigirem que ela prometa cumprir todo o seu segundo mandato, caso seja reeleita.

Há também o temor de que o calendário político seja demasiadamente apertado, até mesmo para uma política com as habilidades de Hillary. A convenção de Iowa, por exemplo, ocorre apenas 14 meses depois do dia da eleição de 2006, o que significa que ela teria que dar meia-volta e começar a concorrer à presidência tão logo assumisse um outro mandato no Senado.

Mas como os republicanos de Nova York ainda lutam para encontrar um candidato para concorrer com ela, essas preocupações parecem ter diminuído.

Agora, à medida que Hillary viaja pelo país, os democratas afirmam que ela está em uma posição para coletar favores que poderão, por sua vez, beneficiá-la no futuro. Os democratas de todo o país a vêem como a principal atração para a arrecadação de verbas para o partido, e como a sua representante mais articulada neste período de domínio republicano.

Em dezembro, por exemplo, Hillary participou de um evento em Michigan que ajudou a arrecadar US$ 500 mil para a senadora Debbie Stabenow, uma democrata que disputará a reeleição naquele Estado. A seguir, ela organizou um evento para arrecadação de verbas em Louisville, Kentucky, que gerou uma arrecadação de US$ 600 mil para os democratas do Estado, e que atraiu 2.000 participantes, que lotaram o centro de convenções da cidade.

Nas próximas semanas, Hillary pretende viajar ao Estado de Washington para participar de um outro evento deste tipo que deverá resultar na arrecadação de US$ 300 mil para uma outra colega senadora, Maria Cantwell, que também disputará a reeleição neste ano.

Hillary também deverá participar de um evento similar para o senador Bill Nelson, da Flórida, que enfrenta o desafio de vencer a deputada Katherine Harris, mais conhecida pelo seu papel como secretária de Estado da Flórida durante a recontagem dos votos presidenciais em 2000.

De maneira geral, as visitas de Hillary pelo país têm provocado o tipo de reação que seria de se esperar quando está em jogo uma pessoa tão célebre e de tal estatura política. Recentemente, por exemplo, Hillary visitou as áreas de Nova Orleans atingidas pelo furacão.

Lá ela foi acompanhada por jornalistas de expressão nacional, enquanto conversava com vários moradores desabrigados, vários dos quais falaram abertamente sobre as suas esperanças de que a visita da célebre senadora ajudasse a refocalizar a atenção do país no sofrimento pelo qual estão passando.

Mas, apesar de todo o entusiasmo que Hillary provoca durante as suas viagens, há vários sinais de que ela continua sendo uma figura polarizadora em grande parte do país. Durante a sua viagem a Kentucky, por exemplo, republicanos locais procuraram causar um tumulto político, pintando-a como uma liberal nova-iorquina e afirmando que ela seria um estorvo político para os democratas, em um Estado republicano como Kentucky.

Mesmo assim, vários estrategistas democratas argumentam que a boa-vontade que Hillary está construindo durante as suas viagens junto a militantes do partido e a lideranças democratas só vão fazer com que seja mais difícil vencê-la em 2008, pelo menos na corrida pela candidatura presidencial.

"Se ela continuar fazendo favores para todos de forma tão magnânima, é possível que neutralize as opções de qualquer oposição política", opina Fowler. Viagens pelos EUA garantem apoio para ser a candidata democrata Danilo Fonseca

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