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18/01/2006

Filmes premiados no Globo de Ouro mostram que grandes questões chegaram à tela

The New York Times
David Carr

Em Beverly Hills

Na Califórnia
Em geral, as entrevistas do Globo de Ouro giram em torno de frivolidades. De quem é seu vestido? Para onde você vai? Jamais sonhou que de fato venceria?

Mas nas entrevistas do prêmio neste ano no Beverly Hilton, dedicou-se muito tempo a questões como o preconceito à homossexualidade, o papel do cinema no discurso público e se o presidente deveria sofrer impeachment.

"Acho que todos concordamos que esse não é o local para esse tipo de conversa", disse George Clooney, que conquistou o Globo de melhor ator coadjuvante por seu papel no filme politicamente carregado "Syriana".

"Não é um ataque ao governo Bush; é um ataque a 60 anos de política externa fracassada para o Oriente Médio", disse ele, que depois tentou mudar o assunto mencionando que estava pensando em usar o troféu como enfeite no capô do carro.

Clooney, que também está concorrendo a uma indicação ao Oscar de melhor diretor de "Good Night, and Good Luck", que medita sobre o papel da mídia em derrubar um governo agressivo, não deve se surpreender que a imprensa, e, em alguns casos, o público, esteja tratando os filmes deste ano como dever de casa. Hollywood, que tentou em vão usar seu dinheiro e poder para influenciar as últimas eleições, está pensando alto.

Depois de lidarem --ou não-- com essas questões, as estrelas fora para as festas se divertir. E a indústria voltou ao normal por algumas horas. Em toda parte, ouviam-se comentários como os de "Mean Girls" --"Reese está tão, tão fofa!" e "O que Drew estava pensando quando escolheu essa roupa?"

Depois do evento na segunda-feira (16/01) à noite, vários estúdios e revistas se reuniram para servir vodka, camarão e música ruim suficientes para fazer a guerra do Iraque e a política parecerem distantes.

Mas não há dúvidas que a indústria e algumas de suas vozes cada vez mais importantes sentem alguma dissonância. Ang Lee recebeu o Globo de melhor diretor por "O Segredo de Brokeback Mountain" e a tocha de ícone do Western de Clint Eastwood.

No palco, falou com sinceridade sobre "o poder dos filmes de mudar a forma em que pensamos". Mais tarde, porém, quando a imprensa insistiu em forçá-lo a declarar que seu filme queria transmitir uma mensagem, ele resistiu com firmeza, apesar de gentil.

"Vamos ver como se sai, mas não foi o motivo pelo qual fiz o filme", disse Lee. "Se é um marco cultural, não sou eu que vou dizer." O filme foi anunciado e descrito como "história de amor universal".

Philip Seymour-Hoffman, enfrentou torrente similar de perguntas. Os repórteres queriam saber se era difícil retratar Truman Capote, gay assumido em uma época em que isso era uma escolha difícil.

"É o drama interior de um personagem que torna um papel difícil de fazer", disse ele. "Essas são as coisas que realmente dão medo, não sua preferência sexual." Mais tarde, quando questionado sobre o tratamento aos homossexuais nos EUA, acrescentou: "Não acho que o filme de fato tomou lado."

Mas é claro, vivemos em uma época em que tomar lados é o que as pessoas fazem. É um momento estranho na história cultural, com muitos competidores pesados no ano, além de "Munique" e "Soldado Anônimo" provocando um momento de seriedade. (Imagine: há apenas dois anos, nossa grande questão era se Frodo e Sam deveriam destruir o anel.)

O atual ambiente do cinema era provavelmente inevitável. Com a mídia cultural dividida, Jon Stewart não é a única fonte não tradicional de pensamento político. Sua seleção como apresentador da cerimônia dos Oscars pode ser entendida como uma reação da elite liberal da indústria ao choque da eleição. Talvez seja um sinal de que está disposta, ao menos neste momento, em segurar as oportunidades com as duas mãos.

"Com 'Syriana', 'Good Night, and Good Luck' e 'O Jardineiro Fiel', algumas pessoas estão dizendo que voltamos aos anos 70, em termos de filmes políticos", disse Rachel Weisz, que recebeu um Globo por seu papel de atriz coadjuvante em "Jardineiro".

Alguém perguntou quais eram seus desejos para o próximo ano.

"Um bebê saudável, é claro", disse Weisz, que comparou o tamanho da barriga com Gwyneth Paltrow, quando se encontraram no banheiro. O que mais? "Hmmm. Parece declaração de candidata à Miss: a paz mundial e a volta dos soldados", disse ela, rindo do clichê, mas falando sério.

Nisso tudo, é fácil esquecer que Hollywood --que precisa de mais de um ano para produzir um filme importante-- geralmente não lidera as tendências políticas e culturais, mas as segue.

Isso significa que os filmes homenageados pelo Globo dão uma idéia da indústria de 18 meses atrás, quando os executivos estavam em alto alerta quanto à guerra, preocupados com as eleições e com a crescente divisão do país.

Foi naquele tempo que Hollywood, que em geral produz filmes leves, assumiu sua nova gravidade. Depois de anos trabalhando em torno do que rapazes de 14 anos gostariam de ver no cinema, grandes estúdios como Warner Brothers passaram a dizer sim para filmes como "Syriana", uma visão ambiciosa da política externa americana, seus meios e objetivos.

O público agora se sente bem porque está vendo filmes sobre questões importantes e toma posição. "O Segredo de Brokeback Mountain", "Transamerica", "Syriana" e "O Jardineiro Fiel" --todos homenageados pela Associação de Imprensa Livre de Hollywood-- refletem sobre o ódio, ambição e pobreza.

"Good Night, and Good Luck" e "Capote" usam o passado para refletir sobre as falhas do jornalismo. (Enquanto isso, "King Kong", com seu tema escapista e sabor Gable-Lombard em um filme de monstro, foi praticamente ignorado, e até "Walk the Line", que apareceu no Globo, tem uma mensagem significativa sobre os salários da fama.)

Inevitavelmente, o pêndulo vai voltar por si próprio. Afinal, temas portentosos e significativos nem sempre vendem muita pipoca e podem criar alguma indigestão.

Então é provável que a seriedade tenha atingido seu pico, ou quase.

Lembre-se, nos anos 80, Hollywood era sobre Benjamins. Nos anos 90, sobre os astros que recebiam muitos Benjamins.

A última onda tem sido histórias verdadeiras sobre eventos reais que engajam o público adulto. E haverá mais desses no ano que vem, inclusive a visão de Oliver Stone dos ataques de 11 de setembro; "Sicko", outro filme de Michael Moore; e o atrasado "A Grande Ilusão".

No entanto, as novas versões de Super-Homem, o Homem Aranha e X-Men em breve virão salvar a tarde, e talvez a indústria, de um surto persistente de seriedade. É divertido, ou ao menos interessante, enquanto dura. Contestação política e preconceito estão entre os temas abordados Deborah Weinberg

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