UOL Notícias Internacional
 

18/01/2006

Irã pretende retomar a negociação com europeus

The New York Times
Elaine Sciolino*

Em Paris
Aparentemente em um esforço para conquistar apoio internacional e evitar uma censura do Conselho de Segurança da ONU, o Irã propôs nesta terça-feira (17/01) a retomada das negociações nucleares com os europeus, uma medida que foi imediatamente rejeitada pela Grã-Bretanha como "vazia".

A proposta surge oito dias depois que o Irã retomou a atividade nuclear em três instalações, violando um acordo de 16 meses atrás com a França, Alemanha e Grã-Bretanha, que congelou a maioria das atividades nucleares do Irã. A retomada levou o trio europeu a declarar o fim das negociações e pedir ao Conselho de Segurança que julgue o Irã.

Em uma carta na terça-feira, Javad Vaeedi, o vice-chefe do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, enfatizou a determinação de seu país de "manter sua plena cooperação" com a Agência Internacional de Energia Atômica (Aiea), acrescentando que o Irã "não poupará esforços para remover qualquer ambigüidade sobre suas atividades nucleares pacíficas por meio de diálogo e negociação", segundo uma cópia da carta obtida por The New York Times.

Expressando apreço pelos europeus, ela acrescentou que o Irã "considera o diálogo e a negociação como o melhor curso de ação" e "está preparado para tornar o processo um sucesso".

Mas a carta, endereçada aos três ministros das relações exteriores e enviada por intermédio de suas missões em Viena, não deu indício de que o Irã voltará a congelar sua conversão, enriquecimento e reprocessamento de urânio como exigido pelo acordo.

"É inaceitável". disse uma autoridade alemã, que descreveu a carta como "muitas palavras bonitas sem qualquer oferta concreta".

De fato, Ali Asghar Soltaniyeh, o representante do Irã na agência nuclear internacional, disse em uma entrevista por telefone de Viena, Áustria, que a decisão do Irã de retomar a pesquisa de combustível nuclear era "legal e irreversível".

Ele acrescentou: "Nós estamos prontos para negociar com os europeus e russos. Agora é a vez deles de nos entenderem".

Ele considerou injusto que os cientistas do Irã não tenham podido conduzir sua pesquisa nuclear sob o congelamento, dizendo: "A filosofia de dizer a cientistas para que não pensem e nem pesquisem é contrária aos princípios de direitos humanos e à Carta da Organização das Nações Unidas".

A carta surgiu em um dia de intensa diplomacia em várias capitais.

Os Estados Unidos e os europeus iniciaram uma campanha para convencer parte dos 35 países que compõem o conselho de tomada de decisão da agência nuclear internacional a apoiar sua posição de que a crise nuclear iraniana deve ser encaminhada ao Conselho de Segurança. O conselho discutirá a questão em uma sessão especial que terá início em 2 de fevereiro.

França, Alemanha e Grã-Bretanha começaram a esboçar uma resolução para consideração pelo conselho, que pede que Mohamed ElBaradei, o diretor da agencia internacional, envie um relatório sobre o histórico de logro e falta de plena cooperação do Irã com a agência ao Conselho de Segurança, segundo duas autoridades européias.

As autoridades descreveram o esboço sob a condição de anonimato devido às regras diplomáticas normais.

Em setembro passado, o Irã foi pego violando suas obrigações segundo o Tratado de Não-Proliferação Nuclear por ter enganado por quase duas décadas a agência.

A resolução esboçada também expressa pesar pelo fato do Irã ter violado seu congelamento voluntário de atividades nucleares sensíveis. Ela pede ao Conselho de Segurança que exija do Irã "plena e imediata cooperação" com a agência. Ela também pede que o conselho informe o Irã que "medidas adicionais de transparência são indispensáveis" se espera provar que seu programa nuclear é pacífico e não visa produzir bombas nucleares.

O esboço, que está em estágios iniciais, não inclui a recomendação de medidas punitivas como sanções, disseram as autoridades.

A estratégia tanto dos Estados Unidos quanto da Europa é de aumentar gradualmente a pressão diplomática sobre o Irã. Vários governos, incluindo Grã-Bretanha, França, Alemanha e Japão, disseram que a discussão de sanções é prematura, e Rússia e China, que têm poder de veto no Conselho de Segurança, são contra sanções.

"Nós não vemos isto levando diretamente a sanções", disse um alto funcionário britânico aos repórteres sob a condição de que não fosse identificado, acrescentando: "Nós queremos formar com o tempo uma pressão gradual sustentada. Esta é uma questão de longo prazo".

O funcionário descreveu o pedido do Irã de retomada das negociações como "vazio, devido aos iranianos terem criado condições que impossibilitam conversações".

Enquanto isso, China e Rússia não têm demonstrado disposição de levar o caso do Irã ao Conselho de Segurança.

Ao ser perguntado em uma coletiva de imprensa, em Moscou, sobre quando a Rússia estaria disposta a encaminhar o Irã ao Conselho de Segurança, o ministro das Relações Exteriores, Sergey Lavrov, foi vago, dizendo: "Esta é uma abordagem muito esquemática. A política não permite tal abordagem". Ele acrescentou: "Eu não acho que a conselho de governadores da Aiea esgotou as possibilidades".

A China pediu na terça-feira pela retomada das negociações como a melhor forma de desarmar a crise.

Um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China disse que Pequim é favorável à diplomacia e pede a todos os lados que "mantenham a paciência e façam os maiores esforços para a retomada das negociações" entre os europeus e o Irã.

A Rússia está particularmente disposta a tirar a iniciativa diplomática dos outros europeus e negociar com o Irã para que aceite sua oferta, a de permitir que a Rússia enriqueça o urânio do Irã em solo russo e sob um rígido controle russo para impedir o desvio para um programa de armas.

A carta do Irã aos europeus também declarou o desejo do país de prosseguir as negociações com a Rússia, como previsto no próximo mês, na crença de que "continuarão de forma séria e construtiva".

Lavrov reiterou na terça-feira a oferta para enriquecer o urânio do Irã, mas também alertou o país a retomar seu congelamento de todas as atividades envolvendo urânio. "As conversas pressupõem uma obrigação", ele disse. "A obrigação iraniana é manter a moratória."

O Irã, ele disse, "deve fazer muito mais do que fez até o momento".

Mas ressaltando a oposição da Rússia às sanções, ele disse: "A questão das sanções contra o Irã coloca o carro antes dos bois. Sanções não são a melhor forma, e nem a única, de resolver o problema".

Em Londres, o funcionário britânico expressou ceticismo aos repórteres de que as negociações entre russos e iranianos possam ser promissoras.

"Eu acho que o Irã está jogando com a proposta russa por motivos táticos", disse o funcionário.

*Com reportagem adicional de Alan Cowell, em Londres, e Andrew E. Kramer, em Moscou. Agora, o país afirma que "considera o diálogo e a negociação como o melhor curso de ação" e que já "está preparado para tornar o processo um sucesso" George El Khouri Andolfato

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