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19/01/2006

As lágrimas se misturam à chuva no último adeus a uma criança que se foi

The New York Times
Alan Feuer*

Em Nova York
Poucas coisas são mais perturbadoras do que o caixão de uma pequena garota. Ele transmite a sensação de uma traição, ou de uma promessa não cumprida. Você o vê, mas ele não tem sentido algum. Este é o sentimento que prevalecia na quarta-feira (18/01), no funeral de Nixzmary Brown, que foi objeto de uma missa calorosa numa igreja fria, no Lower East Side (região sudeste, não longe do ex-World Trade Center) de Manhattan.

Ruby Washington/The New York Times 
Maria Gonzalez, com flores, avó de Nixmary Brown, e o tio da menina, Omar Santiago, durante o enterro
Marines uniformizados carregaram o caixão para dentro do recinto e o carregaram de volta para fora, mas ninguém parecia acreditar no que estava vendo.

"São tantas as criancinhas que não resistem às adversidades", disse Lucille Lozada, uma parenta atordoada da defunta. "Ela era um pequeno anjo --pequenos anjos, pequenos anjos, pequenos anjos por todo lugar".

O caixão era pequeno e branco, e continha o corpo de Nixzmary, de 7 anos apenas, que morrera na semana passada, vítima de maus-tratos. Nos bancos lotados da igreja St. Mary, na Grand Street, ninguém falava daquilo que ela havia sofrido nem das oportunidades de ajudá-la que haviam sido perdidas pelos serviços de assistência da cidade. Eles faziam comentários sobre a sua vida, e sobre a nossa impotência diante da morte.

"Ela foi atingida pela maldade", disse o reverendo Robert O'Neil, que celebrou a missa. "Mas ela está acima disso, agora".

Eles também falavam da sua mãe, Nixzaliz Santiago, e do seu padrasto, Cesar Rodriguez, que agora estão presos, acusados de matá-la. No início desta semana, um grande júri do Brooklyn indiciou Santiago e Rodriguez sob a acusação de terem abusado repetidamente da menina. Na última noite da vida de Nixzmary, disseram os promotores públicos, Cesar Rodriguez a surrou, arrancou suas roupas, deixando-a nua, mergulhou sua cabeça debaixo de água e a deixou sozinha num quarto durante horas.

"Eles precisam ser condenados à pena capital", disse Jasminda Villaneuva, uma prima de Nixzmary. "Ele precisa ser torturado, assim como ele torturou minha pequena prima".

Parentes e amigos sentaram na frente da igreja e se lamentaram. Enquanto hinos eram entoados em espanhol, o irmão de Santiago, Omar Santiago, gemia e apertava a cabeça com as mãos.

Ele caiu de joelhos e desmaiou. A sua testa bateu no chão.

O diretor de escolas Joel I. Klein foi falar com este homem. Ele foi seguido por Linda I. Gibbs, a prefeita-adjunta para assuntos de saúde e de serviços assistenciais. Antes que a santa comunhão fosse distribuída, Klein levantou-se e abraçou aquele homem. Foi um abraço demorado, e eles também se deram tapas nas costas.

Aquele era um dia apropriado para um enterro, comentaram alguns - um dia rude, úmido, penetrante. O vento soprava com força; ele arrancava o chapéu da cabeça das pessoas. Então, a chuva começou a cair. "Isso é Jesus Cristo que está chorando", comentou Awilda Cordero, uma porta-voz da família.

Uma enorme multidão lotava a igreja; muitos não puderam entrar e ficaram nas escadas do lado de fora. Havia guardas de trânsito com os seus abrigos amarelos e membros do Lion's Club. Havia trabalhadores sindicalizados, funcionários dos serviços médicos de emergência e crianças que estavam a caminho da escola.

"Eles quiseram vir", explicou Katia Sherman, referindo-se à sua filha, Isabelle, 5, e ao seu filho, Gabriel, 7, que estavam dentro da igreja para acender uma vela e pronunciar uma prece reservada.

"Eles acompanharam a história pela televisão e tudo isso os deixou transtornados", acrescentou Sherman. "Nós estamos rezando para que ela vá ao paraíso".

Numa caixa de vidro, perto das velas para oferenda, alguém havia colocado a primeira-página de um jornal com uma foto de Nixzmary. Alguém havia escrito nas margens da página o seguinte comentário: "As nossas preces e os nossos pensamentos estão com você! Descanse em paz".

"Eu não tenho palavras para expressar o que estou sentindo", disse uma das guardas de trânsito, Esther Aquino. "Não existem palavras para descrever a atrocidade que este monstro cometeu. Como podem certas pessoas ser tão impiedosas e desumanas assim?"

Mais tarde, no cemitério de Cypress Hills, na fronteira entre os bairros do Brooklyn e do Queens, Jasminda Villanueva gemeu e berrou, enquanto amigos e familiares de Nixzmary jogavam flores recém-colhidas sobre o seu túmulo.

"Estou tão desolada por não ter podido ajudá-la", disse ela em voz alta, enquanto o caixão estava sendo depositado dentro da cova.

Então, a família se foi e Iris Rodriguez, a irmã de Cesar Rodriguez, aproximou-se do túmulo da menina. Ela ficara aguardando num estacionamento nas proximidades, por não querer se intrometer no luto da sua bela-família.

Ela olhou intensamente para o túmulo. Então, ela beijou uma flor e a arremessou sobre a lápide. "Eu devo isso a ela", disse. "Eu devo isso a ela".

*Colaboraram Corey Kilgannon e Colin Moynihan. A morte de uma menina de 7 anos seviciada pelo padrasto é objeto de uma missa e um enterro comoventes em Manhattan Jean-Yves de Neufville

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