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20/01/2006

Chirac sugere uma reação nuclear ao terrorismo

The New York Times
Ariane Bernard

Em Paris
O presidente Jacques Chirac afirmou nesta quinta-feira (19/01) que ele consideraria uma resposta nuclear frente a dirigentes de Estado que recorreriam a meios terroristas ou a armas de destruição em massa em ataques contra a França, "sob forma de uma agressão, de uma ameaça ou de uma chantagem odiosa".

"Os dirigentes de Estados que recorreriam a meios terroristas contra nós, assim como aqueles que considerariam utilizar de uma forma ou de outra armas de destruição em massa, precisam entender que eles estariam se expondo, dessa forma, a uma resposta firme e adaptada da nossa parte", afirmou Chirac num discurso que ele pronunciou numa base nuclear submarina na Bretanha (noroeste).

Ele não citou nominalmente nenhum país.

"Esta resposta poderia ser convencional", disse. "Mas ela pode ser também de outra natureza".

Um porta-voz do palácio do Eliseu, sede da presidência, precisou que o discurso de Chirac refletiu as mudanças que foram adotadas como parte de uma revisão rotineira da doutrina nuclear, que é feita a cada cinco anos.

Mas esta é a primeira vez que um presidente francês se refere publicamente e com todas as letras à possibilidade de uma retaliação nuclear frente ao terrorismo apoiado por Estados. No passado, a França havia estipulado que as armas nucleares poderiam ser utilizadas caso "interesses vitais" estivessem ameaçados, apesar de evitar deliberadamente especificar quais seriam esses interesses.

"Na doutrina francesa, as armas nucleares têm o propósito de dissuadir ataques contra os nossos 'interesses vitais'; esta imprecisão objetiva criar incertezas entre os agressores potenciais em relação a quais seriam esses interesses", comentou Francois Heisbourg, um consultor especial da Fundação de Pesquisas Estratégicas de Paris. "Mas agora, com este discurso, as coisas ficaram mais definidas. Isto representa uma mudança".

Mesmo se o discurso não citou nominalmente nenhum país, ele foi pronunciado em meio a um clima de crescente preocupação em relação ao Irã, o qual o Departamento de Estado chama com freqüência de "o Estado o mais ativo em patrocinar o terrorismo".

Iran retomou recentemente suas atividades nucleares, rompendo com isso um acordo assinado em novembro de 2004 no qual ele se comprometera a suspender a maior parte do seu programa nuclear. O Irã garante querer desenvolver um programa nuclear civil para fins pacíficos e que ele não pretende construir armas nucleares.

Chirac apresentou sua diretriz no quadro de outros princípios definidos anteriormente e de longa data, explicando que a França não planeja recorrer a armas nucleares para fins militares, em caso de conflito, e que a sua "dissuasão nuclear não se destina a dissuadir terroristas fanáticos" que operam em todo o planeta, de maneira independente em relação aos governos estabelecidos.

Na França, a oposição comunista e os grupos que militam pelo desarmamento criticaram duramente as declarações de Chirac, qualificando-as de irresponsáveis, segundo informou a agência de notícias Reuters.

"Longe de querer livrar a França das armas nucleares, o presidente, ao contrário, está considerando o uso efetivo de bombas nucleares", disse um porta-voz do um grupo anti-nuclear, Sortir du Nucléaire.

Um deputado comunista, Jacques Brunhes, afirmou que a posição de Chirac poderia, de maneira perversa, conduzir nações que rejeitaram o nuclear a buscarem adquirir armas nucleares. "[Um tal discurso] só pode incentivar Estados que assinaram o Tratado de Não-Proliferação a optarem pelo uso militar da tecnologia nuclear".

Especialistas dizem acreditar que o arsenal da França inclui cerca de 300 ogivas de combate.

Durante a guerra fria, vários críticos questionaram a necessidade da França de manter uma dissuasão nuclear, a qual absorve cerca de 10% do orçamento militar.

O governo Chirac vem enfrentando pressões no sentido de cortar suas despesas, no momento em que ele se empenha em trazer de volta o seu déficit orçamentário abaixo do limite de 3% do Produto Interno Bruto (PIB), uma regra que foi definida pela União Européia. Contudo, em seu discurso, Jacques Chirac afirmou: "A segurança do nosso país e a sua independência têm o seu preço". O presidente francês não citou nenhum país, mas o seu discurso intervém em meio à crescente preocupação global com o Irã Jean-Yves de Neufville

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