UOL Notícias Internacional
 

20/01/2006

Uma viagem de um dia para o abismo

The New York Times
Steven Erlanger

Em Nablus, Cisjordânia
Um fotógrafo local foi o primeiro a contar a Samer Antar, chocado, que seu irmão mais moço, Sami, estava morto. Os lamentos de sua mãe logo se seguiram, aumentando de volume até chegarem às escadas escuras, enquanto parentes, jornalistas e pessoas em luto começavam a chegar, subindo pelo caminho íngreme de calçamento irregular.

Sami Antar, 21, cursava o segundo ano da faculdade de educação física da Universidade de Na Najah. Ele saiu de casa às 8h na quinta-feira (19/01). À tarde, explodiu a si mesmo em nome do grupo militante Jihad Islâmico, em uma área de lojas e restaurantes em Tel Aviv, mas matou apenas a si mesmo. Cerca de 20 israelenses, pessoas comuns, ocupadas com suas vidas diárias, ficaram feridas; uma em estado grave.

Sami Antar também explodiu um furo enorme em seu círculo de amigos e parentes, que não imaginavam isso. "Crescemos juntos, estudamos na mesma universidade, por isso estou tão chocado", disse Muhammad, também de 21, que, como outros amigos de Sami e alguns de seus parentes, não quis dar seu nome completo. "Ele era conhecido como uma pessoa simples, com um bom senso de humor", acrescentou, secando as lágrimas da bochecha e passando a mão pelo cabelo curto com gel. "Não sabíamos de nenhum laço com um movimento político."

Outro amigo, Rami, disse: "Eu o vi ontem, inscrevendo-se em novas turmas, pegando seu horário para o próximo semestre."

O irmão de Sami, Samer, apareceu de olhos vermelhos para contar aos jornalistas que a família não ia falar sobre o acontecido. Fez uma curta declaração, entretanto: "Isto é uma honra, não só para a família Antar, mas para todo o bairro."

Israel, o Ocidente e a Autoridade Palestina vão condenar o ato de Sami Antar como terrorismo, um esforço para matar civis inocentes. Seus vizinhos e familiares chamam de tragédia, mas também de resistência, luta e martírio. O abismo é tão marcado quanto as montanhas de Nablus.

Perto da porta do apartamento da família havia um pequeno cartaz fixado na parede, com os dizeres impressos: "Confiante na vitória de Deus" e o logotipo do Grupo Islâmico, descrito como "a estrutura estudantil do movimento do Jihad Islâmico na Palestina".

Ninguém se lembra quando foi afixado. Alguns sugerem que foi Sami que o colocou, quando saiu de manhã; outros dizem que foi erguido mais tarde. Nenhum de seus amigos parecia saber, ou quis admitir, que Sami era membro do grupo.

"A família está em completo choque", disse um primo, que se identificou apenas como Abu Muhammad, ou o pai de Muhammad. "Até seus irmãos estão abismados. Não conseguem acreditar nessa história."

Abu Muhammad fez um intervalo para ajudar um tio, que usava uma bengala e caminhava com dificuldade, a descer as escadas do prédio e voltou. "Tenho tanta pena da família", disse ele. "Todo mundo está tão ocupado com sua rotina. Sinto-me mal porque não vi Sami por algum tempo."

Perguntado o que teria dito a Sami, se soubesse de seus planos, ele disse: "Não sou uma pessoa política. Minha vida é apenas trazer alimento para minha família."

O rosto de Assem, outro amigo e parente, estava coberto de lágrimas. Ele abraçou uma mulher de preto, que disse, chorando: "É um mártir." "Mas se foi", ele respondeu. Seu telefone celular tocou e ele atendeu em inglês: "Desculpe-me, não posso ir agora porque um dos meus amigos tornou-se mártir."

O apartamento fica em um pequeno prédio em cima de um morro próximo ao centro de Nablus, em um bairro chamado Dahieh do Alto. Os prédios são de concreto aparente, as ruas pavimentadas, mas muito estreitas. No topo do morro, a cerca de 150 metros da casa, tem um posto do exército israelense, iluminado por luzes amarelas fortes.

Muhammad começou a debater a questão de atentados suicidas com um jornalista, descrevendo a ocupação israelense, os postos de fiscalização, a impossibilidade de viajar, as batidas noturnas, a falta de emprego. "Tudo gera esse tipo de ação", insistiu. "Eles levam as pessoas a pensarem em uma só direção, essa é a única forma."

Muhammad, porém, estava discursando. Poucos minutos depois, mostrou ao jornalista seu celular, com a última mensagem de texto que recebeu de Sami, enviada na quarta-feira às 21h.

A mensagem era floreada: "Nós te perdemos. Se pudéssemos, viríamos até você no meio do sonho. Sentimos a sua falta. Não sabemos se você sentirá a nossa."

Ele estava aflito. "Não respondi à mensagem", disse. "Achei que não importava". E agora? "Agora entendo", disse baixinho. "É uma mensagem de adeus." Israel, o Ocidente e a Autoridade Palestina vão condenar o ato de Sami Antar como terrorismo, um esforço para matar civis inocentes. Seus vizinhos e familiares chamam de tragédia, mas também de resistência, luta e martírio Deborah Weinberg

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