UOL Notícias Internacional
 

22/01/2006

Líder da Bolívia conduz região ainda mais para a esquerda

The New York Times
Juan Forero e Larry Rohter
Em La Paz, Bolívia
Quando Evo Morales, um índio aymara e ex-líder do sindicato dos plantadores de coca bolivianos, tomar posse como presidente no domingo, esta poderá ser a maior guinada na persistente inclinação da América do Sul para a esquerda, com repercussões potenciais muito além das fronteiras desta nação andina.

Apesar de altamente vago em detalhes, e de sua recente moderação no tom, Morales tem prometido transformar a Bolívia. Ele disse que "despenalizará" o cultivo de coca, o principal ingrediente da cocaína, algo em que Washington gastou centenas de milhões de dólares e mais de duas décadas tentando erradicar.

Ele prometeu inserir o Estado nos setores de petróleo e gás natural da Bolívia, e o fantasma da nacionalização está incomodando as empresas multinacionais de energia que vieram para cá no final dos anos 90, apesar de Morales ter dito recentemente que não desapropriará propriedades estrangeiras.

Ele tem rejeitado as políticas de livre comércio apoiadas pelos Estados Unidos e certamente será o posto mais ao sul do novo nexo antiamericano, juntamente com Cuba e Venezuela, cujo presidente, Hugo Chávez, se tornou um os maiores críticos do governo Bush.

Todos ou qualquer um destes passos em um país com áreas de plantio de coca e ricas reservas de energia lhe dão uma importância estratégica de muito peso, apesar de sua minúscula população, e que poderiam perturbar Washington e a região.

As reservas de gás da Bolívia, a segunda maior do continente, ajudam a mover as maiores economias da América do Sul. O Brasil, por exemplo, fez US$ 1,5 bilhão em investimentos em energia na Bolívia e teme um aumento dos problemas de criminalidade e narcóticos em suas favelas urbanas caso a produção de coca da Bolívia não seja controlada.

Morales é o sétimo líder esquerdista sul-americano a chegar ao poder desde 2000, um grupo variado que passa pelo Chile, Brasil, Argentina, Uruguai, Equador e Venezuela, com fortes candidatos esquerdistas despontando no Peru e no México, países que também passarão por eleições neste ano.

Seu sucesso também é o exemplo mais proeminente das recentes revoluções democráticas na América Latina. Por toda a região, os indígenas e pobres, cada vez mais mobilizados pela frustração com as prescrições econômicas apoiadas por Washington, têm usado as urnas para eleger líderes mais representativos da maioria pela primeira vez em quase cinco séculos.

Com a exceção de Chávez, que é apoiado pela riqueza do petróleo da Venezuela, a maioria dos demais líderes de esquerda do continente, como Luiz Inácio Lula da Silva do Brasil, tem buscado políticas pragmáticas assim que se vêem diante da tarefa real de governar.

Nas últimas semanas, Morales baixou o tom de seus discursos mais estridentes e adotou um tom mais conciliatório com as autoridades americanas. Mas no caso da Bolívia, disseram analistas políticos daqui, é muito mais difícil saber como exatamente Morales governará.

Morales, um ex-congressista, não tem experiência no Executivo e é mais conhecido como líder de protestos e orador inflamado do que como pragmático. Vários de seus associados, incluindo o vice-presidente eleito Álvaro Garcia e Carlos Villegas, que supervisionará o planejamento econômico, são acadêmicos esquerdistas sem nenhuma experiência em governo.

"Poderá haver realismo e pragmatismo em suas políticas, ou poderão permitir que a ideologia os guie", disse Roberto Laserna, um analista político da Universidade de Sam Simón em Cochabamba, a cidade onde mora Morales. "Mas não temos como avaliar a experiência administrativa deles."

O que está claro é que a atraente história da ascensão ao poder de Morales deu a este país isolado de 9 milhões de habitantes uma atenção internacional que raramente recebeu. Um ex-pastor de lhamas que viu seus quatro irmãos morrerem na infância, Morales teve uma vitória esmagadora nas eleições de 18 de dezembro, algo que o país nunca viu desde sua volta à democracia em 1982.

O primeiro presidente indígena eleito em um país onde a população de descendência indígena corresponde à maioria, Morales, sempre vestido casualmente em camisa com colarinho aberto e suéter, embarcou em uma turnê mundial de vitória de 10 dias. Ele se encontrou neste mês com o presidente da França, Jacques Chirac, com o presidente da China, Hu Jintao, e com o primeiro-ministro da Espanha, José Luiz Rodríguez.

Para sua posse no domingo --que ocorrerá após uma cerimônia indígena no sábado nas ruínas de Tiwanaku, a capital de uma poderosa civilização pré-Inca-- Morales disse que espera 12 líderes estrangeiros, um número bem maior do que em posses bolivianas anteriores.

"A Bolívia não está sozinha, nem Evo Morales está sozinho", disse Morales a um grupo de jornalistas estrangeiros na quinta-feira. "Nós contamos com muito apoio internacional e solidariedade."

Parte desta solidariedade deriva de seu papel como representante de um novo pólo latino-americano na política global, à medida que a região amadurece como contraponto às impopulares políticas americanas. Mais e mais países latino-americanos rejeitam as prescrições políticas de Washington, assim como as do Fundo Monetário Internacional. Alguns estão fortalecendo seus laços com a China, que está investindo pesadamente na região.

Muitos se recusaram a apoiar as exigências do governo Bush de isentar os americanos de processos criminais no Tribunal Penal Internacional em Haia. Virtualmente nenhum --com exceção de El Salvador-- enviou soldados para apoiar a guerra no Iraque. As críticas antiamericanas se tornaram um esporte político, enquanto as pesquisas de opinião dão ao presidente Bush o apoio mais baixo na América Latina para um presidente americano na história da região.

Mas Morales já está tendo que encontrar um meio-termo entre a retórica populista explosiva que o levou ao poder e o caminho pragmático que ajudará a minúscula economia de US$ 9,5 bilhões da Bolívia a crescer, disse Nancy Birdsall, presidente do Centro para o Desenvolvimento Global, com sede em Washington, que estuda questões econômicas que afetam os países em desenvolvimento.

Em uma entrevista de 2002, Morales disse ao "The New York Times" que a solução para os problemas econômicos da Bolívia era um "socialismo comunitário", com comunas de camponeses administrando minas de metais e minerais e a agricultura. Morales, apesar de criticar a globalização, agora diz que acordos comerciais podem funcionar, se justos para ambos os lados, e que o investimento estrangeiro é necessário.

Desde que chamou "Bush" de terrorista em dezembro, ele tem adotado um tom mais conciliatório. Ele notou nesta semana que foi alvo de duros ataques por parte das autoridades americanas.

"Tudo aqui é perdoado", disse Morales. "Nós estamos em novos tempos. Vamos começar a conversar, não em um diálogo de submissão, mas para encontrar soluções."

Entre aqueles que aconselharão Morales está Juan Ramón Quintana, um acadêmico moderado que tem trabalhado extensivamente com organizações internacionais e governos. "Ainda há a percepção de Evo Morales como um líder radical", ele disse em uma entrevista. "Mas Evo Morales está passando por uma transformação importante. Nós todos acreditamos que ele pode se tornar um estadista."

Os Estados Unidos também têm sido mais conciliatórios. Thomas Shannon, o secretário assistente de Estado para assuntos das Américas, disse recentemente aos repórteres que Washington deseja diálogo com Morales e manter "as relações positivas" entre os dois países.

O embaixador americano, David Greenlee, também teve uma reunião no início deste mês com o presidente eleito que Morales chamou de frutífera. "Ele nos convidou", disse Morales. "Foi tensa, é claro, mas decidimos virar a página."

Ainda assim, se o governo Bush decidir que Morales está buscando políticas contrárias aos interesses americanos, seja em comércio ou políticas de combate às drogas, a ajuda poderá ser cortada ou congelada --e os Estados Unidos são os maiores doadores para este país. Eles forneceram US$ 655 milhões de 2000 a 2004, dois terços disto para desenvolvimento, e estão considerando um pedido boliviano de US$ 600 milhões para construção de estradas.

Solidariedade à parte, também para os vizinhos da Bolívia a ascensão de Morales cria novos desafios, que dificilmente serão atenuados pelo fato da maioria destes países ser dirigido por governos nominalmente esquerdistas. A principal preocupação é o acesso às vastas reservas de gás natural da Bolívia.

Mais do qualquer outro país, o Brasil tem interesses econômicos vitais a proteger. Cerca de metade do gás natural consumido no Brasil vem da Bolívia, um terço das exportações da Bolívia vão para o Brasil e as empresas brasileiras correspondem ao maior grupo de investidores na Bolívia, lideradas pela companhia de petróleo estatal Petrobras.

Assim, o Brasil tem assistido com preocupação a Bolívia se tornar cada vez mais instável nos últimos anos. O governo do presidente Lula tem sido cuidadoso para não provocar o nacionalismo boliviano, reagindo calmamente às declarações de Morales de que está à procura de "parceiros, não chefes" no desenvolvimento de suas reservas de gás.

Quando Morales visitou o Brasil neste mês, Lula convidou a Bolívia a se tornar membro pleno do Mercosul, o bloco comercial sul-americano dominado pelo Brasil. A filiação, disseram analistas da região, poderia conter qualquer tentação da Bolívia de adotar um radicalismo econômico.

O que está em jogo também é alto para a Argentina. Até agora, os governos bolivianos têm fornecido ao país gás abaixo dos preços de mercado. Morales disse durante uma visita a Buenos Aires nesta semana que planejar colocar um fim neste acordo, um passo que provavelmente aumentaria as pressões inflacionárias.

Mas as relações mais complicadas para a Bolívia são com o Chile, mesmo com a eleição na semana passada da socialista Michelle Bachelet como presidente. A vitória do Chile em uma guerra do século 19, que custou à Bolívia seu litoral, continua perturbando o relacionamento. O sentimento antichileno continua forte aqui.

Os dois países não têm relações diplomáticas plenas desde os anos 70, e Morales conduziu uma campanha contrária ao gasoduto que enviaria gás ao México e Estados Unidos passando por um porto chileno.

Ainda assim, Morales convidou o presidente de saída do Chile, Ricardo Lagos, para a posse, o primeiro líder chileno a visitar a Bolívia para tal ocasião em décadas. Bachelet disse que é favorável a uma maior integração entre o Chile e seus vizinhos mais pobres.

De fato, Morales começou seu mandato com boa vontade e cautela em toda parte. A Venezuela tem prometido diesel e cooperação em energia, enquanto a Espanha ofereceu redução da dívida, segundo autoridades bolivianas. Outros países prometeram fortalecer os laços bilaterais.

Morales, apesar de apreciar o comércio com países tão distantes quanto a Bélgica e a África do Sul, tem sido assediado por pedidos de presidentes de países com investimentos aqui para que assegure que a Bolívia mantenha um ambiente saudável para as empresas estrangeiras.

Até o momento, Morales tem andado cautelosamente em torno deles. Mas há pouca dúvida de que ele dará mais autoridade ao Estado, mudando alguns ministérios e criando outros, como um para administração da água e outro para o planejamento econômico. "O Estado precisa ser o ator principal no planejamento do desenvolvimento econômico", ele explicou. George El Khouri Andolfato

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