UOL Notícias Internacional
 

23/01/2006

Musculação no recreio: academias ajudam crianças a combater ócio e obesidade

The New York Times
Mireya Navarro
Los Angeles
Aos 13, Jena Jerve conseguiu esticar seu dia para fazer tudo: manter a média oito na escola, jogar no time de basquete e nutrir seu amor pela dança com seis horas semanais de sapateado, balé e jazz.

Mas no último ano e meio Jena acrescentou outra atividade extracurricular em sua agenda lotada --a academia de ginástica. Ali, por cerca de uma hora duas vezes por semana, descobriu os rigores da musculação e a alegria de conquistar força em uma bicicleta estacionária e caber nas calças. "Perdi alguns centímetros de cintura e pernas", disse Jenna, que tem 1m75 e pesa 80 kg. "Tenho muita energia agora."

Com as estatísticas apontando para uma população cada vez mais obesa, a preocupação nacional com o peso está levando os pais de adolescentes e até de crianças a inscreverem-nos em academias especializadas, contratar treinadores particulares e marcar hora para os exercícios como marcam as lições de piano.

Para as gerações Xbox e iPod, a brincadeira desestruturada ao ar livre se tornou algo do passado, dizem pais e especialistas. Pique-esconde? Ir para a escola de bicicleta? Muitas crianças hoje só pedalam em locais fechados, em frente a uma tela de vídeo.

Apesar de haver críticos chamando a tendência de desnecessária, ou de exagero dos ricos, muitos pais dizem que têm razão em pagar --algumas vezes preços de adultos-- a academia de ginástica para os filhos.

"Quando éramos crianças, meus amigos e eu sumíamos o dia todo. Atualmente, não dá para fazer isso. Você marca hora para brincar", disse Rhonda Horowitz, agente imobiliária em Northridge, Califórnia, que contratou um treinador para ajudar seu filho Craig a se exercitar. Com 14 anos, ele pesa em torno de 90 kg.

Nos últimos dois anos, a indústria de ginástica passou a explorar mais o mercado jovem. A rede Fitwize 4 Kids, para jovens de 6 a 15 anos, abriu 14 franquias no país no ano passado. Ali, o exercício é recompensado com maçãs e bananas e inclui pular corda. A mensalidade fica entre US$ 50 e US$ 125 (entre R$ 115 e R$ 290) e há planos de abrir dezenas de outras filiais.

A Associação Internacional de Clubes de Saúde, Tênis e Esportes diz que as crianças são o segundo mercado que mais cresce para academias de ginástica, depois da geração do "baby boom", agora com mais de 55 anos. Quase um terço de seus 5 mil clubes oferece um componente infantil, disse a associação. Mais de 4,6 milhões de menores americanos entre 6 e 17 anos estão associados a academias, comparados com 3,2 milhões em 2000.

Uma atenção maior à chamada epidemia de crianças obesas --16% ou mais de 9 milhões de crianças e adolescentes, entre 6 e 19 anos-- significa que a pressão está sobre os jovens para entrar na batalha da gordura, freqüentemente pelo estímulo da mãe e do pai. Alguns pais observam que houve uma mudança cultural estética com o tempo, de forma que os querubins do passado tornaram-se os gordinhos de hoje.

"Estou com 50 anos. Quando eu era pequena, todos eram considerados normais, mesmo os mais parrudos. Pelos padrões atuais, todos nós teríamos que fazer dieta", disse Helen Cordes, editora de Daughters, revista nacional para pais de meninas.

Muitas famílias hoje estão trilhando um caminho entre a preocupação real e a desnecessária. A mãe de Jena, Mary Baldwin, 46, disse que apesar de toda a dança e o basquete, sua filha tende a ganhar peso pela combinação de genética com a pressa na alimentação. "Não vou fingir que não comemos 'fast food' por causa da pressa", disse Baldwin, babá em Novato, na área da baía de San Francisco.

Quando Baldwin sugeriu pela primeira vez à filha que entrasse em uma academia, há alguns anos, Jena não se interessou. "A última coisa que você quer é provocar uma bulimia", disse Baldwin.

Mas quando Jena ficou mais velha, passou a ter mais consciência de sua aparência e, na quarta série, já era alvo provocações na escola sobre seu peso, disse Baldwin. Um ano e meio atrás, no final da quinta série, Jena concordou em começar uma ginástica em uma academia da rede Fitwize 4 Kids. "Não estou querendo uma nova Miss EUA", disse Baldwin. "Para nós, o importante é a saúde."

Autoridades dos Centros de Prevenção e Controle de Doenças, que soaram o alarme sobre obesidade infantil, dizem que a saúde é a principal razão de preocupação, não a aparência. Talvez a primeira coisa que as crianças acima do peso enfrentem sejam as implicâncias e a marginalização social, mas o mais grave é que ficam suscetíveis a doenças de adulto como diabetes tipo 2. Além disso, podem ter expectativa de vida menor que a de seus pais, sugerem alguns estudos, por causa do aparecimento de doenças em idade mais tenra.

A indústria reagiu não só abrindo novas cadeias de academias, mas com equipamentos de alta tecnologia modificados para as crianças, com DVDs de exercícios e programas infantis em academias de adultos --para os que querem perder peso ou melhorar nos esportes. A musculação é segura, dizem alguns na indústria, desde que supervisionada por um profissional.

Qual o exercício ideal?
Na terça-feira à noite, Craig Horowitz, menino de 14 anos com óculos e aparelho, estava entre os homens tatuados e musculosos e algumas mulheres em forma "puxando ferro" no Gold's Gym em Northridge. Exercitando-se com pesos de 3,5 kg, sob a supervisão de Taylor Kevin Isaacs, Craig apertou os lábios, torceu a língua e suou enquanto fazia uma hora de alongamento, exercícios de força e cardiovasculares, terminando com alguns minutos de futebol ao ar livre.

Isaacs disse que a diversão deve ser incorporada nas rotinas de ginástica para manter os jovens interessados. Ele escolhe termos divertidos para a faixa etária --como o "esmagador de crânio", para a extensão do tríceps com peso-- e toma cuidado para não ferir seus sentimentos. "Não se pode usar a palavra 'errado', por exemplo, dizendo: 'Você está fazendo isso errado.'"

Mas a US$ 100 (cerca de R$ 230) por hora para cada sessão particular (incluindo avaliações de nutrição e saúde), há também pressão para que Craig seja sério. Ele vem ajudando Isaacs desde os 11 anos, junto com seu pai, Ben Horowitz, e a mãe, Rhonda. Esta disse que entendeu que precisava melhorar a dieta da família quando chegou aos 115 kg ela mesma.

Craig recentemente se comprometeu a fazer três sessões por semana, com o objetivo de perder até um quilo por semana. Ele tem outro objetivo: entrar no time de beisebol da escola. Para isso, entretanto, precisa parar de comer as besteiras que vêm mantendo seu peso em torno dos 90 kg.

"Vou às festas e vejo a comida --batata frita, cachorro quente. Aí dá vontade de se acabar", disse Craig, que tem 1m65. "Sinto que vou conseguir", falou de perder peso, "mas é difícil em certos momentos".

Alguns críticos, até dentro da indústria, reclamam da idéia de colocar as crianças para se exercitar com treinadores pessoais e academias de ginástica próprias. Ron Clark, diretor executivo da Federação Nacional de Treinadores Profissionais, que licencia os professores, disse que as crianças estariam mais bem servidas perseguindo esportes e atividades físicas das quais gostam naturalmente. Clark disse que os pais muitas vezes preferem pagar alguém para ensinar hábitos alimentares e exercícios que deveriam ser promovidos em casa.

"Estão simplesmente entregando a responsabilidade de dizer para seus filhos que não podem comer chocolate todos os dias", disse ele. William Dietz, diretor da divisão CDC de nutrição e atividade física, disse que era cedo para dizer se as academias de ginástica infantis seriam uma resposta de longo prazo. "Se as crianças se encherem, isso poderá ter um efeito adverso na próxima coisa que tentarão fazer", disse ele.

"É fácil demais se concentrar na atividade física", acrescentou Dietz. "Não vamos negligenciar os outros tipos de mudanças no ambiente que ajudariam os pais que não podem pagar US$ 1 mil (em torno de R$ 2.300) por ano para uma academia."

Muitos pais, entretanto, dizem que tudo em volta trabalha contra suas melhores intenções. O idealismo logo se confronta com a realidade, mesmo os pais que dão de lanche uma fruta orgânica e se preocupam com o peso dos filhos da mesma forma que outros se preocupam com problemas na fala (ou, como fez a personagem de Tea Leoni em "Spanglish", que comprou para a filha roupas tamanho menor para motivá-la a perder peso).

"Eles jantam em família, mas têm pouco controle sobre o que seus filhos estão comendo durante o dia", disse Michel Cohen, pediatra em Nova York. "A maior parte dos pais começa com grandes ideais, mas quando as crianças chegam aos 7 ou 8 anos, vai tudo para o brejo, porque tem tanto lixo por aí."

Os maiores índices de crianças acima do peso são entre afro-americanos e hispano-americanos. Dietz disse que não se sabe a razão da diferença entre grupos étnicos, mas pode estar relacionada a fatores socioeconômicos tanto quanto com padrões culturais de beleza ou do que é um peso aceitável.

A conscientização da obesidade crescente gerou novos programas para crianças em associações cristãs de moços e centros comunitários, onde as taxas tendem a ser mais acessíveis para famílias de baixa renda. Mas nos centros cristãos, a ênfase ainda não é em apenas entrar em forma, mas em "atividades alegres da infância", como natação e passeios de bicicleta, disse Lynne Vaughan, consultora nacional da organização.

Mirackle Smith, de 9 anos freqüenta o Fitwize em Studio City cinco dias por semana depois da escola e faz aulas de kickboxing, dança e esportes. Ela disse que entrou para a academia porque sua "barriga estava grande".

"Eu costumava comer bolinhos de canela", disse ela. "Quando vou para casa agora, como morangos com Equal e não muito."

Mirackle disse que perdeu mais de cinco quilos desde o último verão, mas verdade seja dita, a maior parte em uma visita a sua avó na Jamaica.

A vovó tinha uma esteira? Não, disse Mirackle, "brinquei". Deborah Weinberg

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,97
    3,127
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    0,99
    64.389,02
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host