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24/01/2006

Bilionários chineses procuram noivas virgens

The New York Times
Howard W. French

Em Xangai, China
Era apenas uma questão de tempo até que o dinheiro transformasse o mais íntimo dos domínios privados, o amor e o casamento, como fez com quase tudo neste país em expansão. E faz sentido que o choque do novo ocorra aqui em Xangai, coração do capitalismo chinês.

Tudo começou com um advogado e um publicitário, sentados com um amigo que fez fortunas com peças de automóveis, perturbado com seu divórcio recente e a incapacidade de encontrar uma nova esposa. Coloque um anúncio, disse o publicitário de brincadeira. O advogado levou-o a sério e colocou um anúncio no jornal sobre um bilionário que procurava uma noiva virgem.

Ryan Pyle/The New York Times 
Su Jie, 23, à dir, conversa com amiga; ela diz que é mais importante o homem ser compreensivo que rico
A fortuna do bilionário em yuans é substancialmente menor em dólares, de cerca de US$ 125 milhões (R$ 285 milhões). Mas ainda assim é muito dinheiro, o suficiente neste caso para atrair uma enxurrada de 600 inscrições completas, com fotos e informações pessoais detalhadas. A lista foi peneirada até ficar com 100 candidatas, das quais 20 foram entrevistadas e uma foi selecionada, finalmente produzindo marido e mulher.

Essa primeira propaganda em busca de uma noiva virgem, há dois anos, gerou uma mini-indústria: centenas de corações solitários supostamente super-ricos e multidões de jovens mulheres, freqüentemente professando serem virgens, esperando encontrar homens abastados.

O advogado, um morador de Xangai de 25 anos chamado He Xin, disse que já foi procurado por mais de 50 bilionários e foi contratado por vários deles. Ele encontrou noivas para três, em um processo que dura cerca de três meses. Ao longo do caminho, ele também encontrou uma noiva para si --uma das mulheres rejeitadas por um de seus clientes.

Hoje, ele alega orgulhosamente que seu trabalho com os bilionários gerou um novo direito na China, de estilo de vida, um serviço personalizado para pessoas com meios. Isso também gerou um debate sobre a rápida mudança social na China, especialmente sobre a mudança do lugar da mulher na sociedade. Desde o início da reforma econômica, há 27 anos, nenhuma área da vida chinesa parece ter mudado tanto quanto o namoro, o amor e o casamento.

Durante séculos, os chineses celebraram casamentos arranjados, envolvendo dotes, que não deixavam espaço para noções ocidentais de romance. Durante longas décadas de comunismo, essas práticas foram substituídas pelo controle social maoísta. Eram os comissários da brigada de trabalho, em vez dos parentes e clãs, que decidiam quem podia ou não namorar e se casar.

Foi há pouco tempo que a idéia de morar junto sem casar ganhou alguma aceitação social na China. Em um período extraordinariamente curto de tempo, porém, a oportunidade sexual e romântica brotou em toda parte, em uma sociedade que ainda se considera conservadora. Prostitutas trabalham abertamente em quase todos os hotéis na China.

A Internet torna tudo possível, desde o namoro online até apresentações eróticas pelas câmeras da Web e gerou um vocabulário próprio, como MBA, das iniciais para casado mas disponível. Tampouco surpreende que os índices de divórcio nas grandes cidades como Xangai estejam explodindo.

Quando o jornal "Nanfang Zhoumo" fez uma reportagem recente sobre bilionários procurando esposas, grupos de discussão online receberam diversos comentários de leitores, freqüentemente em torno das respostas de uma das mulheres rejeitadas por um bilionário. "O propósito de resguardar a virgindade não é para se obter um bom dinheiro?" perguntou.

Muitos leitores deploraram sua postura e disseram que essas pessoas eram pouco melhores do que prostitutas. "Também sou uma mulher educada com bom corpo, mas detesto esse tipo de coisa", escreveu uma. "Essas meninas se venderam como mercadoria barata."

Outros ridicularizaram os bilionários. "Se eles acham que podem conseguir uma moça de coração puro desta forma estão realmente enganados", escreveu um comentador. "Para mim, é uma coisa triste a forma como as pessoas estão tratando a virgindade como um bem, hoje em dia."

Em uma entrevista, porém, uma jovem que respondeu a um anúncio de um bilionário mas foi rejeitada ofereceu forte defesa de sua escolha, defendendo a liberdade pessoal e sexual. "As coisas são diferentes hoje, porque todo mundo tem o direito de escolher", disse Wang Yue, acrescentando que, em uma relação física, os sentimentos podem sempre se desenvolver depois.

"Se os americanos podem ser liberais, porque os chineses não podem? É muito fácil eu me sustentar", acrescentou. "Sem homens, minha vida não seria difícil. Mas estou em cima dos ombros de um gigante, posso ver além."

A confusão sobre amor, sexo e casamento é provavelmente uma fase, disse Yang Xiong, especialista em cultura jovem da Academia Xangai de Ciências Sociais. "A China é uma sociedade em transição. Nos últimos 20 anos, as pessoas basicamente têm buscado coisas materiais", disse ele. "Daqui a mais 20 anos, e eu diria que poucas pessoas vão perseguir bilionários só pelo dinheiro."

Mesmo em um país que é cada vez mais movido pelo dinheiro, Xangai, com suas luzes e brilho, tem uma reputação muito especial. Seu povo é freqüentemente esnobado como materialista sem alma e profundamente invejado por outros chineses. As mulheres da cidade, em particular, freqüentemente são chamadas de consumistas e de esposas exigentes.

Em vários dias de entrevistas com as jovens daqui, porém, ficou claro que os bilionários que estão tentando comprar o amor têm que agradar. Uma após a outra, as jovens disseram que o veredicto de seus corações era mais importante do que o custo de seu guarda-roupa ou o tamanho da conta.

"Tenho que ter um tempo para ver se o homem é adequado para mim ou não, porque a vida é uma longa jornada", disse Su Jie, 23, aeromoça. "Posso fazer dinheiro sozinha, talvez não muito, mas o suficiente. Para mim, é mais importante que nos entendamos." O dinheiro pode comprar o amor e a felicidade na nova China? Deborah Weinberg

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