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24/01/2006

Ford vai fechar fábricas nos EUA e demitir 30 mil

The New York Times
Micheline Maynard

Em Dearborn, Michigan
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    A Ford Motor Company anunciou nesta segunda-feira (23/01) que fechará até 14 fábricas e demitirá até 30 mil funcionários nos próximos seis anos. Foi o mais recente passo em uma reestruturação fundamental das montadoras tradicionais de Detroit, atingidas duramente pelas concorrentes estrangeiras que conquistaram mais de 40% do mercado americano. As medidas da Ford, a segunda maior montadora nos Estados Unidos, ocorrem dois meses depois que a General Motors, a líder do setor, anunciou que fechará totalmente ou parcialmente uma dúzia de fábricas e demitirá um número semelhante de funcionários.

    Erik S. Lesser/The New York Times 
    Trabalhador caminha no pátio lotado de carros em fábrica da Ford na Geórgia, sul dos EUA

    Incluindo os cortes que ocorreram na Chrysler Corp., as Três Grandes montadoras eliminaram ou anunciaram planos para eliminar quase 140 mil vagas de trabalho desde 2000, incluindo cargos administrativos. Isto representa cerca de um terço de sua folha de pagamento norte-americana, uma volta a um tamanho de força de trabalho não visto desde o final da Segunda Guerra Mundial.

    "Este pode não ser o fim, mas é certamente o início do fim do setor automotivo como o conhecíamos", disse Gary Chaison, professor de relações industriais da Universidade Clark, em Worcester, Massachusetts.

    Enquanto as três grandes estão visivelmente encolhendo, suas ações combinadas não representam o fim da manufatura automotiva nos Estados Unidos. Mas as pegadas geográficas estão claramente se dirigindo para o sul, onde uma nova indústria automotiva está florescendo.

    Empresas japonesas, alemãs e sul-coreanas agora empregam 60 mil pessoas, ou cerca do mesmo número que Ford e GM disseram que encolherão. Mas as montadoras estrangeiras estão criando uma força de trabalho mais jovem, mais barata, descartando os demitidos por Detroit e os pacotes de benefícios e maiores salários que os trabalhadores de Detroit têm recebido.

    O sindicato United Automobile Workers, que representa os trabalhadores nos Estados Unidos, disse que o anúncio pela Ford foi "profundamente decepcionante e devastador" para seus membros.

    As ações da Ford fecharam em alta de 42 centavos, a US$ 8,32, na Bolsa de Valores de Nova York. Os cortes na Ford estão transcorrendo segundo um plano de recuperação que ela chama de "Way Forward" (caminho à frente), marcando sua segunda tentativa de reestruturar a empresa nos últimos quatro anos.

    A meta da Ford é se tornar tão ágil quanto a Toyota e a Honda, cortando camadas de burocracia que têm impedido o desenvolvimento de veículos inovadores como carros elétricos híbridos. O plano também acentua as raízes americanas da Ford e visa criar identidades mais claras para suas marcas Ford, Lincoln e Mercury.

    O aumento dos preços da gasolina e do aço e a forte concorrência do exterior intensificaram o desafio para a Ford e GM, já sobrecarregadas pelos custos crescentes de planos de saúde e um legado de promessas de ricos pacotes de aposentadoria e outros benefícios. Mais importante, ambas empresas fracassaram em encontrar as fórmulas certas para agradar o comprador americano.

    O resultado tem sido uma forte perda de participação no mercado. A Ford, que detinha cerca de 25% do mercado de carros em 2000, ficou com apenas 17,4% em 2005. Grande parte da queda se deve ao declínio da popularidade dos grandes utilitários esporte, que sustentaram os lucros e a participação de mercado da Ford durante os anos 90, quando tinha cerca de 100 mil trabalhadores ganhando por hora.

    Os cortes de hoje na Ford afetam cerca de um terço da folha de pagamento por hora na América do Norte, onde tem 87 mil trabalhadores. A empresa também demitirá outros 4 mil funcionários com salários mensais, ou cerca de 10% de sua força de colarinho branco, e prometeu reduzir suas fileiras de executivos em 12%.

    As montadoras estrangeiras, que atualmente vendem mais de quatro entre cada 10 carros e caminhões vendidos nos Estados Unidos, criaram dezenas de milhares de vagas de trabalho em novas fábricas de Ontario até Ohio, por todo o sul americano e no México.

    Devido ao seu crescimento, não ocorreu perda líquida de empregos no setor automotivo americano nos últimos 10 anos, segundo James P. Womack, um autor e especialista em eficiência no setor manufatureiro. O emprego na indústria automobilística tem sem mantido estável em cerca de 1,1 milhão de trabalhadores, incluindo os que trabalham para empresas de autopeças, disse ele.

    De fato, as montadoras estrangeiras, que coletivamente empregavam cerca de 60 mil trabalhadores nas fábricas norte-americanas no ano passado, estão expandindo suas fábricas. Ainda neste ano, a Toyota inaugurará uma nova fábrica de caminhões em San Antonio, e está construindo outra fábrica em Ontario.

    No início deste mês, o executivo-chefe da Nissan, Carlos Ghosn, que se tornou um exemplo de administrador ao comandar a recuperação bem-sucedida de sua empresa nos últimos seis anos, disse que a Nissan ampliará sua fábrica de dois anos em Canton, Mississippi.

    Apesar das montadores estrangeiras terem contratado alguns ex-trabalhadores de Detroit, a maioria de seus trabalhadores não tem experiência automotiva e foi escolhida por meio de um processo rigoroso de triagem, avaliando resistência física e tendência ao trabalho em equipe.

    Com uma participação menor de mercado, as fábricas da Ford na América do Norte estão operando a apenas três quartos da capacidade, provocando a decisão de segunda-feira da empresa de fechar as linhas de montagem de Wixom, Michigan, fora de Detroit; Hapeville, Geórgia, fora de Atlanta; e Hazelwood, Missouri, um subúrbio de Saint Louis.

    Mais duas linhas de montagem fecharão, disse a Ford, apesar de não ter dito quais serão. A montadora também está fechando a fábrica de transmissão em Batavia, Ohio, perto de Cincinnati, e analistas disseram esperar que outras fábricas da Ford fecharão à medida que a empresa decidir quais linhas de montagem fecharão.

    A Ford também está cortando um turno de trabalho em sua fábrica em Saint Thomas, Ontario, a duas horas a oeste de Toronto. O executivo-chefe da Ford, William Clay Ford Jr., chamou os cortes de "um último recurso doloroso". Mas ele disse que o plano da empresa contém "a visão e foco estratégico para reconstruir os negócios. Com ele, nós retomaremos a estrada americana", disse Ford.

    Ford, que apresentou o programa de transformação anterior em 2002, logo após ter se autonomeado executivo-chefe, disse que aquele plano atingiu suas metas, mas não foi suficiente diante da forte concorrência estrangeira.

    "Nós não defenderemos os negócios de costume", disse Ford.

    Mas a empresa manteve alguma esperança para alguns trabalhadores, dizendo que planeja criar uma nova fábrica em algum ponto da América do Norte para construção de carros pequenos a baixo custo. Os executivos da Ford se recusaram a dizer quando a fábrica será construída -ou se planeja empregar trabalhadores sindicalizados nos Estados Unidos ou Canadá.

    A idéia parecia repetir a intenção original da GM com a Saturn Corp., cuja fábrica em Spring Hill, Tennessee, visava provar que trabalhadores americanos eram capazes de produzir carros capazes de competir com os automóveis japoneses.

    De fato, os Saturn conseguiram roubar alguns compradores da Toyota e da Honda no início dos anos 90, quando os carros começaram a ser vendidos. Mas os Saturn foram perdendo popularidade após a GM ter decidido concentrar sua atenção no desenvolvimento de utilitários esporte.

    E apesar da GM estar tentando rejuvenescer sua linha Saturn, ela anunciou no ano passado que fechará uma linha de montagem em Spring Hill, colocando em dúvida o futuro a longo prazo da fábrica.

    O anúncio pela Ford do plano "Way Forward", na segunda-feira, colocou um fim a semanas de especulação de que ela eliminaria algumas linhas de produtos. Mas na segunda-feira, a Ford se recusou a fazer comentários sobre veículos específicos. Logo após ter apresentado o programa na segunda-feira, a Ford disse que perdeu US$ 1 bilhão antes da dedução de impostos em suas operações automotivas em 2005, em comparação a uma perda de US$ 850 milhões em 2004. Ela postou um lucro anual de US$ 2 bilhões, uma queda em comparação a US$ 3,5 bilhões em 2004, seu terceiro lucro anual consecutivo. Ela conseguiu continuar ganhando dinheiro devido aos bons resultados no exterior e à força de sua divisão de serviços financeiros.

    Mas em dezembro, a Standard & Poor's Ratings Services rebaixou a dívida da Ford em dois pontos, descendo ainda mais na condição de junk, o mesmo que a S&P fez com a GM após esta ter revelado seu plano de reestruturação. A S&P alertou que a Ford estava particularmente vulnerável aos passos que a GM poderia adotar para melhorar sua participação de mercado, como os grande descontos para funcionários oferecidos aos compradores em geral no verão passado. Mas a agência de rating, que alertou que a GM poderia ser forçada a pedir concordata, disse não achar que a Ford terá que fazer o mesmo.

    Um motivo, disseram os analistas, é que a família Ford, que controla a empresa por meio de uma classe especial de ações, fará de tudo para impedir tal medida.

    Na segunda-feira, os primos de Ford, Edsel B. Ford II e Elena Ford, assistiam enquanto ele invocava seu bisavô, Henry Ford, em um esforço para encorajar os funcionários da Ford a serem mais inovadores.

    Ford lembrou que Henry Ford construiu seu primeiro carro em um barracão atrás de sua casa em Detroit, apenas para perceber que era grande demais para passar pela porta. Ford disse que ele então não hesitou em derrubar a parede para tirá-lo.

    "Nós pretendemos lembrar diariamente às pessoas que se você quiser construir algo que nunca foi construído antes, talvez seja preciso derrubar uma parede ou duas", disse Ford.

    Mas Wall Street, por outro lado, esperava por informações mais específicas do que as que a empresa forneceu em sua apresentação de uma hora. Executivos da Ford disseram que a montadora não mais emitirá metas anuais de ganhos para analistas -o fim de uma antiga prática da Ford de declarar suas metas antecipadamente.

    A empresa disse na segunda-feira que espera voltar a ser lucrativa em suas operações automotivas em 2008, o que significa que perderá dinheiro nelas neste ano e no próximo.

    Mark Fields, recentemente nomeado presidente das operações da Ford para as Américas e que foi o autor do plano "Way Forward", também disse que a Ford pretende estabilizar sua participação de mercado em declínio e no final conseguir ganhos nas vendas.

    Mas ele não disse quando isso acontecerá ou que participação no mercado americano a Ford espera obter.

    A recusa da Ford em dar mais detalhes sobre seus planos de fechamento de fábricas e metas financeiras contrasta com o plano bem definido da Nissan por Ghosn, o executivo da Renault que assumiu a empresa em 1999.

    A Nissan cumpriu ou ultrapassou as metas em três programas traçados por Ghosn, que prometeu há seis anos renunciar ao cargo se a empresa não atingisse suas metas.

    Na segunda-feira, Fields disse em uma entrevista que estava encarando seu trabalho "como se meu emprego estivesse em risco".

    "Com sorte seremos bem-sucedidos", acrescentou Fields. "Eu compartilharei as recompensas e, caso contrário, compartilharei as conseqüências." O objetivo da montadora é se tornar tão ágil quanto a Toyota e a Honda, que vêm ganhando terreno no mercado norte-americano George El Khouri Andolfato
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