UOL Notícias Internacional
 

24/01/2006

Rússia acusa britânicos de espionar em Moscou

The New York Times
Steven Lee Myers*

Em Moscou
Um escândalo de espionagem com cheiro de Guerra Fria se desenrolou nesta segunda-feira (23/01), depois que a Rússia acusou quatro diplomatas britânicos de espionagem, e vinculou algumas das suas atividades ao financiamento de proeminentes instituições privadas, incluindo a Fundação Eurásia e o Grupo Moscou-Helsinki.

Um vídeo pouco nítido, em preto-e-branco, transmitido pela rede de televisão estatal na noite do último domingo, e exibido de novo repetidamente na segunda-feira, mostrava um diplomata britânico pegando uma pedra que esconderia um aparelho de comunicação utilizado para colher e transmitir informações sigilosas por meio de computadores portáteis.

A pedra, do tamanho de uma melancia, e o aparelho, que seria capaz de transmitir e receber dados a distâncias superiores a 20 metros, foram apreendidos nos arredores de Moscou, fazendo com que se desencadeasse uma operação de busca por artefatos similares pela cidade, disse aos jornalistas russos Sergei N. Ignatchenko, principal porta-voz da agência russa de inteligência, o Serviço de Segurança Federal, segundo a agência de notícias Interfax.

"Um segundo dispositivo foi encontrado, mas o serviço britânico de inteligência conseguiu resgatar um dos aparelhos", disse Ignatchenko.

Um cidadão russo acusado de cumplicidade foi preso, mas um outro porta-voz da agência de inteligência russa, Nikolai N. Zakharov, se recusou a dizer se o homem foi formalmente acusado. Zakharov só informou que o esquema de espionagem foi descoberto e desbaratado no início do inverno.

O destino dos quatro diplomatas --identificados como secretários de escalão intermediário da Embaixada do Reino Unido-- não foi informado. Ignatchenko disse que a possível expulsão dos quatro seria decidida "no nível político".

O escândalo, um dos mais sérios em anos, ameaça elevar as tensões diplomáticas, ainda que a Rússia tenha assumido a presidência do G-8 (grupo das oito nações mais industrializadas), que inclui o Reino Unido. Ignatchenko acusou o Reino Unido de violar um acordo feito em 1994 no sentido de que fossem encerradas as operações de espionagem na Rússia. "Na verdade, nós fomos enganados", reclamou ele.

O primeiro-ministro Tony Blair, respondendo a perguntas em uma entrevista coletiva à imprensa em Londres, se recusou a comentar o assunto: "Temo que vocês receberão a resposta padrão: 'Nós nunca fazemos comentários sobre questões de segurança, exceto, obviamente, quando desejamos'", disse Blair. "Creio que quanto menos se falar sobre isso, melhor", acrescentou o premier.

A natureza da operação de espionagem permaneceu envolvida em secretismo, mas o alegado vínculo com organizações privadas surgiu em meio a uma campanha de cunho político contra as organizações de ajuda humanitária e os grupos de defesa dos direitos humanos que atuam aqui, muitos dos quais financiados pelos Estados Unidos e por países europeus, para a promoção da democracia, de uma imprensa independente e de outras melhorias de aspectos da sociedade civil.

Neste mês o presidente Vladimir V. Putin assinou uma lei impondo novas restrições legais à atuação de tais grupos, algo que segundo os críticos pode ser utilizado para pressionar aqueles que se opõem às políticas russas. Mas a relação entre as acusações de espionagem e as organizações parece ser tangencial.

Zakharov disse em uma entrevista por telefone que um dos diplomatas, identificado como Marc Doe, um secretário político, aprovou verbas distribuídas pelo governo britânico a organizações russas e estrangeiras, ainda que estivesse envolvido em atividades secretas.

"Ele lhes forneceu o dinheiro", disse Zakharov, referindo-se às organizações. "Tudo isso está documentado".

Um porta-voz da Embaixada do Reino Unido em Moscou se recusou a fazer comentários sobre o incidente, mas citou uma declaração do Departamento de Relações Exteriores, que dizia: "Rejeitamos quaisquer alegações a respeito de qualquer conduta imprópria nas nossas negociações com organizações privadas russas. Toda a nossa assistência é fornecida abertamente, e tem como objetivo apoiar o desenvolvimento de uma sociedade civil sadia na Rússia", disse a declaração.

Um dos grupos apoiados pelo Reino Unido e citado pelas autoridades russas é a Fundação Eurásia, uma organização sem fins lucrativos com sede em Washington, e que fornece uma série de doações financeiras em toda a região da antiga União Soviética.

Irina V. Akishina, diretora do escritório da organização em Moscou, disse em uma entrevista por telefone que o grupo recebeu uma doação no valor de US$ 105 mil em 2004 para promover jornais independentes nas cidades russas provincianas.

Akishina expressou perplexidade com as acusações, afirmando que a reportagem televisiva, que foi ao ar no canal do governo, Rossiya, com a cooperação do Serviço de Segurança Federal, fez com que ela ouvisse falar pela primeira vez de qualquer suspeita quanto à sua organização. Segundo ela, as acusações refletem a crescente hostilidade do governo para com as organizações privadas que operam independentemente do Kremlin.

"Nós certamente sentimos que existe algum perigo", disse ela, referindo-se à nova lei relativa a organizações como a sua. "Simplesmente não entendemos por que fomos mencionados nesse programa. Não estamos envolvidos em nenhuma atividade ilegal".

O Grupo Moscou-Helsinki, que também estaria envolvido no caso, é uma das mais famosas organizações de defesa dos direitos humanos do país, e critica o Kremlin com freqüência.

Os chefes da inteligência russa fizeram alertas públicos a respeito da espionagem ocidental. Os alertas enfatizam a crescente preocupação da inteligência e dos círculos diplomáticos russos com aquilo que é tido como interferência estrangeira nas questões domésticas, especialmente após o apoio norte-americano e europeu aos movimentos democráticos na Ucrânia, na Geórgia e em outras ex-repúblicas soviéticas.

"As operações de inteligência não só não estão diminuindo", advertiu Nikolai P. Patrushev, diretor do Serviço de Segurança Federal, em uma entrevista concedida ao jornal estatal "Rossiskaya Gazeta", em novembro. "Elas estão sendo fortalecidas".

Na entrevista, ele disse que no ano passado agentes russos de contra-inteligência descobriram a ação de 20 agentes a serviço de governos estrangeiros, e de 65 cidadãos estrangeiros trabalhando para serviços secretos. No início do ano passado, Patrushev apontou diversas organizações, incluindo o Peace Corps e a entidade filantrópica britânica Merlin, como sendo fachadas para a espionagem estrangeira.

"Usando como estória-cobertura a implementação dos programas humanitários e educacionais nas regiões russas, eles fazem lobby em favor dos interesses de certos países, e coletam informações sigilosas sobre uma ampla gama de assuntos", disse Patrushev, referindo-se aos representantes dessas organizações.

As declarações de Patrushev, altamente criticadas à época pelos governos norte-americano e britânico, se transformaram, não obstante, na base para uma nova lei que submete tais organizações a um maior escrutínio.

O último escândalo envolveu uma espionagem de tipo mais tradicional, embora com um toque tecnológico sofisticado. A pedra falsa era utilizada como local determinado para a troca de informações sigilosas ou para a comunicação entre agentes. Não se sabe exatamente onde ela estava localizada, embora a reportagem de televisão a tenha mostrado em uma calçada próxima a um local que foi identificado como um parque nos arredores de Moscou.

O sistema oculto de comunicação permitia que um agente russo transmitisse as informações em pulsos cuja duração era de apenas um ou dois segundos, informaram Ignatchenko e outras autoridades. A seguir, os agentes operacionais britânicos eram capazes de armazenar as informações nos seus próprios computadores portáteis, informaram as autoridades, recusando-se, entretanto, a discutir a natureza das informações fornecidas pelo russo aos agentes britânicos, e tão pouco a sua significância.



*Alan Cowell contribuiu de Londres para esta reportagem. Vídeo mostra um diplomata britânico apanhando aparelho suspeito Danilo Fonseca

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