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25/01/2006

Hamas deve ganhar força na eleição palestina

The New York Times
Steven Erlanger

Em Ramallah, Cisjordânia
Para melhor ou para pior, Mahmoud Abbas, presidente palestino, conseguiu o que queria: eleição legislativa palestina, a primeira em uma década. Mas a vitória de Abbas com a realização das eleições nesta quarta-feira (25/1) é também um risco extraordinário. Ele decidiu acabar com o monopólio da sua facção, Fatah, sobre todos os instrumentos de poder nos territórios palestinos e atrair o grupo islâmico radical Hamas para a política nacional.

AFP - 23.jan.2006 
Simpatizantes do Hamas participam do comício que encerrou a campanha do grupo na Cisjordânia
Muitos na Fatah, e mais ainda em Israel e nos EUA, acreditam que Abbas está convidando cobras para o jardim. Eles acham que, ao tentar cooptar o Hamas em vez de confrontá-lo, ele arrisca dar o Estado Palestino nascente para um grupo armado que jurou destruir Israel. E dizem que está cavando sua cova política.

Mas Abbas, um homem pálido e acadêmico de 70 anos, superou as objeções com sua distância característica dos atritos e sua recusa em exercitar o poder no estilo pessoal e tribal de seu falecido predecessor, Iasser Arafat.

Abbas era seu sucessor evidente, pois foi por longo tempo o número dois de Arafat.

No entanto, não era uma escolha natural: é homem de lógica e não de paixão; negociador, não político; homem que usa terno, não uniforme militar; homem que condena a violência, não a incita; despreza o culto a personalidade e se recusa a colocar uma foto sua em cada escritório; é dado a maus humores e freqüentemente ameaça largar tudo, como deixou o cargo de primeiro-ministro depois de quatro meses, em 2003, quando Arafat não lhe deu suficiente poder.

Se as eleições fracassarem ou se o Hamas vencer, tornando difícil ou impossível para ele desenvolver suas políticas de reforma interna e negociações com Israel, Abbas diz que vai deixar o cargo.

Abdul Fatah Ayyseh, vendedor palestino, votou em Abbas e gosta dele. "Abu Mazen é um homem esperto que não merece ser presidente do povo palestino", disse ele, usando o nome pelo qual Abbas é conhecido na região. "Ele merece ser presidente de um país escandinavo. Ele é inteligente, calmo e anti-militarista. Ele rejeitou a intifada armada, mas não foi ajudado pelas facções palestinas, pela Fatah ou por Israel."

No entanto, Nariman Sharif se arrepende de ter votado nele. "Não dá para compará-lo com Abu Ammar", disse ela, referindo-se a Arafat e puxando um lenço. "Abu Mazen tem personalidade fraca. Eu esperava que a situação em terra fosse melhorar no minuto que assumisse. Mas ele fracassou. Não tem nada a dizer exceto 'O.K.' Abum Ammar era respeitado - o presidente dever ser respeitado e temido. Ele não tem essas características."

O pragmático Abbas nasceu na cidade israelense de Safed, da qual fugiu com a família aos 13 anos, em 1948. No entanto, ele é considerado um homem de princípios pelos israelenses, que acredita que a intifada armada é contraprodutiva, negocia com justiça e quer dois Estados vivendo lado a lado.

Na terça-feira, nas vésperas das eleições, Abbas foi às ruas instar todos os palestinos a votar. "As eleições são um direito e um dever ao mesmo tempo. E espero que os resultados dessa eleição reflitam honestamente a escolha de cada palestino", disse ele.

Os palestinos parecem ansiosos por votar, e acredita-se que mais de 80% irão às urnas. As pesquisas de opinião sugerem uma vitória estreita para a Fatah e seus aliados seculares. Mas não se sabe se então tentarão governar em uma coalizão com o Hamas ou se preferirão deixá-los de fora, na oposição. Abbas, que vai nomear o próximo-primeiro-ministro, permaneceu em silêncio sobre suas intenções.

"A convocação dessas eleições neste momento é uma conquista de Abu Mazen", disse Salah Abdel Shafi, economista de Gazan. "Ele estava sob forte pressão para adiá-las ou cancelá-las. Isso prova seu compromisso genuíno com o processo de democracia e os resultados dessas eleições."

Os riscos são imensos, disse Shafi: "O futuro da Palestina no curto e médio prazo serão decididos na próxima semana."

A grande aposta de Abbas é um resultado no qual o Hamas torna-se agente político, mas não dominante. "Ou emergiremos com um parlamento e um governo forte ou teremos o colapso da Autoridade Palestina", disse Shafi. "Não acho que haja uma terceira opção."

Mahdi Abdul Hadi, diretor do Passia, um instituto de pesquisa palestino em Jerusalém, diz que toda a região está buscando uma forma de lidar com os partidos islâmicos como o Hamas, citando o Egito, Líbano, Jordânia e Síria. "Não dá mais para ignorá-los, negá-los ou contê-los, então é preciso envolvê-los", disse ele.

O Hamas, com um exército de 5.000 homens, é poderoso demais para ser combatido e poderia assumir Gaza em horas se quisesse, dizem muitos especialistas. Abbas sempre disse que não ia começar uma guerra civil palestina, mas também prometeu a Washington que ia desarmar o Hamas depois das eleições. Mesmo assim, poucos esperam algo além de um esforço cosmético para incorporar a milícia do Hamas nas forças de segurança palestinas, da forma como a Brigada de Mártires Aksa, da Fatah foi ao menos parcialmente incorporada.

Abbas foi eleito há pouco mais de um ano para preencher a vaga deixada pela morte de Arafat, líder carismático complicado da Organização da Liberação Palestina, da Fatah e da Autoridade Palestina. "A era Arafat foi três coisas: pagar, nomear e matar", disse Hadi, economista. "Mas Abu Mazen não tem essa personalidade. Não precisamos desse tipo de líder, e ele está tentando instaurar o Estado de direito em etapas."

Abbas há muito argumenta que a democracia vai domar os radicais, e ele se ateve a seu plano de fazer isso funcionar. Mas no processo, fez muitos erros. Apesar de manter índices altos de aprovação, de mais de 60%, ele está quase sem aliados de fato, seja na Fatah ou na própria Autoridade Palestina. Israel tampouco o ajudou a convencer os palestinos de que a retirada de Gaza deveu-se a Abbas e não aos foguetes e ataques suicidas do Hamas.

"A visão geral é que ele é fraco", disse Shafi. "As pessoas esperam mais liderança da parte dele."

Abbas nunca estabeleceu um escritório presidencial eficiente, apesar dos esforços americanos para ajudá-lo. Ele nunca nomeou um secretário de imprensa permanente para tentar aproximá-lo da população. Ele continua reativo e indeciso. "Não acho que de fato compreendeu o que é ser presidente, o desafio diante dele e o enorme problema de gerenciamento e corrupção na Fatah", disse um ex-membro do governo palestino que viu o processo de perto.

"Não há um processo de tomada de decisão, não há cadeia de comando clara", disse ele. "É como jogar macarrão na parede. As pessoas gostam de democracia, mas queriam mudança institucional. Ele herdou a bagunça, mas prometeu pôr fim à corrupção e restaurar a ordem e criar 'uma lei, uma autoridade e uma arma', mas fracassou miseravelmente."

O ex-membro do governo, que admira Abbas, disse que ele também fracassou em tirar os homens de Arafat de seu governo, que retêm o poder de vetar decisões e não são leais. Em particular, Abbas manteve Ahmed Qurei como seu primeiro-ministro, apesar da oposição deste a quase todas as suas políticas.

Hanan Ashrawi, legisladora da Fatah agora concorrendo na chapa independente Terceiro Caminho com o ex-ministro de finanças Salam Fayyad, foi explícita em sua crítica. "Nosso povo se desesperou com a corrupção nas instituições do governo, com as brigas internas entre o presidente e o primeiro-ministro e com o fato que Abu Mazen não fazer nada", disse ela ao jornal israelense Yediot Aharonot.

Os legisladores levaram a Qurei um plano de ação para reforma, mas ele não fez nada, disse ela. Então eles levaram a Abbas, que ficou entusiasmado. "Mas em vez de agir, ele fez um acordo: congelem tudo, não tirem os corruptos, sentem-se e não façam nada, usem as eleições como desculpa", disse ela.

No entanto, as eleições, originalmente marcadas para julho passado, são cruciais ao esforço de Abbas de tirar os membros antigos da Fatah, como Qurei, que decidiu nem concorrer.

A teoria de Abbas é que seu mandato vem dos eleitores -diferentemente de Arafat, cujo mandato vinha de seu passado. Com a Fatah dividida em três ou mais partes, a Autoridade Palestina não era mais representativa, então se tornou necessária uma nova legitimidade democrática. E o Hamas ficou poderoso demais para ser combatido em qualquer campo de batalha, exceto o democrático, onde ele acredita que pode ser contido.

Então, na opinião de Hadi, "Ele deixou as coisas soltas -ele não se ligou a ninguém nem se comprometeu com nenhum caminho; ele deixou as coisas se desenvolverem sozinhas." Se isso é bom ou ruim, disse ele, ainda não sabemos.

Shafi disse: "Ele compreendeu seu papel em convocar novas eleições e colocar um governo legitimamente eleito no lugar, mas não entendeu que tem que reestruturar e reformar a Autoridade Palestina."

O primeiro-ministro Ariel Sharon, de Israel, "não queria um sócio palestino", disse Hadi. "Ele não tinha interesse em reconhecer os palestinos ou lidar com eles."

As promessas de Israel a Abbas caíram por terra, fazendo seus argumentos contra o terrorismo parecerem vazios. Devido aos ataques terroristas palestinos e à política interna israelense, não se realizaram os planos de soltar um grande número de prisioneiros palestinos, devolver grandes cidades ao controle palestino, flexibilizar restrições de viagens na Cisjordânia e melhorar o acesso de bens e pessoas a Gaza.

"O fato que Israel e a comunidade internacional não fizeram sua parte prejudica Abu Mazen", disse Ahmed. "É um erro de cálculo, que será refletido nos resultados das eleições."

Mesmo assim, Abbas foi responsável por muitos de seus próprios problemas, disse Hadi. "Abbas não é hipócrita. Todo mundo quer que ele seja diferente. Mas não pode ser", disse Hadi. Muitos acreditam que o presidente Mahmoud Abbas "convidou cobras para o jardim" ao tentar cooptar o grupo radical que já afirmou pretender destruir o Estado de Israel Deborah Weinberg

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