UOL Notícias Internacional
 

25/01/2006

Obesidade cresce assustadoramente na França

The New York Times
Elaine Sciolino*

Em Roubaix, França
Em um consultório médico municipal frio e austero, Hatim, de oito anos de idade, está sentado em silêncio enquanto a pediatra expõe o diagnóstico. Com 1,36 metro de altura e pesando 43 quilos, o garoto foi classificado como acima do peso e, segundo a médica, está na iminência de se tornar obeso. Os bolos matinais terão que ser abolidos. E também os refrigerantes Oasis e o pão-com-Nutella que ele consome após as aulas. Carnes e batatas foram permitidas, mas só uma vez por dia. O lanche pode incluir leite ou queijo, mas não ambos. Não há problema quanto às baguetes, mas onde estão as verduras e legumes?

www.cnao.fr via The New York Times 
Cartaz da campanha de combate à obesidade, que mata 55 mil pessoas anualmente na França
A doutora Corinne Fassler, citando um "índice de massa corporal de 23,6", afirmou: "Você precisa ser mais consciente. Tem que encontrar um esporte do qual goste. Mas se você for nadar na piscina, fique longe da máquina de venda de chips". Os franceses estão engordando, e 7 de janeiro foi o Dia Nacional da Pesagem das crianças do país. Um exército voluntário de centenas de pediatras percorreu mais de 80 cidades para pesar, medir, interrogar e instruir.

Roubaix é uma cidade industrial economicamente deprimida no norte da França, a região com maior incidência de obesidade no país.

Aqui, 51% dos habitantes estão acima do peso ou são obesos, em comparação à média nacional de 42%, segundo os mais recentes dados nacionais, relativos ao ano de 2003.

A tendência é mais significativa entre as crianças. Enquanto a obesidade entre os adultos está aumentando anualmente em 6%, entre as crianças o índice nacional deste incremento é de 17%. Neste ritmo, os franceses poderiam ficar --quelle horreur!-- tão gordos quanto os norte-americanos até 2020. (Mais de 65% da população dos Estados Unidos é considerada acima do peso ou obesa).

Há apenas alguns anos, a obesidade na França era um assunto relegado aos programas matinais de entrevistas na televisão e às revistas femininas. Mas agora a questão se tornou política.

Quando Jean-Marie Le Guen, médico e parlamentar socialista, começou a propor legislações no sentido de conter aquilo que ele chama de uma "epidemia de obesidade", alguns dos seus colegas não lhe deram atenção, considerando a sua proposta como uma esquisitice radical. Agora ele é considerado um pioneiro.

"Costumava-se falar pouco sobre o problema, e quando ele era discutido, geralmente o assunto dizia respeito a mulheres que estavam com um pouco de sobrepeso", conta Le Guen, que escreveu um livro, "Obesidade: A Nova Doença Francesa". Ele previu que a doença seria "um dos temas mais importantes" para os socialistas durante a campanha presidencial do próximo ano.

Em setembro passado, a França baniu as máquinas de venda de refrigerantes e lanches industrializados nas escolas públicas. A lei também proibiu as propagandas enganosas sobre alimentos na televisão e na mídia impressa, e impôs um imposto de 1,5% sobre o orçamento de publicidade das companhias alimentícias que não encorajarem hábitos alimentares saudáveis. Solicitou-se às escolas que proporcionassem aos alunos meia hora de exercícios físicos por dia.

Mas a reação negativa por parte da indústria de alimentos e a falta de vontade política tornaram impossível impor mudanças nas propagandas. Legislações mais drásticas foram rejeitadas pelo Parlamento, incluindo a inserção de alertas de saúde nas embalagens de alimentos não saudáveis, a exemplo das advertências que acompanham os recipientes de bebidas alcoólicas e as embalagens de cigarros; uma proposta no sentido de obrigar os restaurantes a exibir informações nutricionais e calóricas em seus menus; e uma proibição total das propagandas de alimentos prejudiciais à saúde na televisão.

Com o seu sistema de saúde de cobertura universal, o governo francês está também interessado em reduzir os custos médicos associados à obesidade e ao diabetes. Uma recente campanha de publicidade feita pela Coletividade Nacional de Associações de Obesos, uma organização educacional e que faz lobbies pela saúde da população, mostra uma mulher nua, claramente obesa, tendo abaixo a inscrição: "A Obesidade Mata". (Estima-se que morram anualmente na França 55 mil pessoas devido a doenças vinculadas à obesidade).

Algumas das razões para o aumento da obesidade são as mesmas que atingem os Estados Unidos e grande parte da Europa: a atração exercida pelos lanches do tipo fast food e os alimentos pré-preparados, a disponibilidade generalizada de lanches prejudiciais à saúde e o estilo de vida sedentário.

O McDonald's tem mais lucros na França do que em qualquer outro país da Europa. As vendas da rede aqui aumentaram 42% nos últimos cinco anos. Cerca de 1,2 milhão de franceses, ou 2% da população, comem no McDonald's todos os dias.

Houve também um rompimento com a tradição francesa clássica, segundo a qual as refeições se constituem em um ritual familiar tão disciplinado e respeitado que o fato de se abrir uma geladeira para uma criança entre as refeições era considerado um autêntico crime doméstico, passível de punição.

Um efeito colateral é a chamada "síndrome da culpa da mãe", já que um número cada vez menor de mães tem tempo para fazer compras nos supermercados a cada um ou dois dias, a fim de obter alimentos frescos, preferindo, em vez disso, recorrer aos pratos pré-preparados.

A Findus, a grande fabricante de alimentos congelados, mais conhecida pelos seus filés congelados de peixe à milanesa, filmou franceses comendo durante um determinado período e ficou chocada com os resultados.

Ao contrário do mito segundo o qual os franceses passam horas sentados à mesa, saboreando pequenas porções de vários alimentos, os filmes revelaram que eles comem em frente aos aparelhos de televisão, ao telefone e até mesmo quando estão sozinhos. Na verdade, a refeição francesa média, que há 25 anos durava 88 minutos, atualmente tem a duração de apenas 38 minutos.

Com toda a preocupação quanto à obesidade, existe também uma tendência oposta. Os franceses podem ter começado a adotar a figura da mulher gorda. Há seis anos, o governo francês declarou que a modelo e atriz Laetitia Casta (1,70 m e 54,5 quilos) seria a nova "Marianne", o símbolo da república em estátuas e prédios públicos.

Mas no seu desfile de moda em outubro do ano passado, o estilista John Galliano chocou a platéia ao colocar na pista mulheres gordas ao lado de modelos magérrimas.

E, no mês passado, milhões de telespectadores votaram e escolheram Magalie Bonneau, uma estudante de 19 anos, que tem 1,54 m de altura e que pesa 75 quilos, como a vencedora do reality show "Star Academy", um sucesso nacional. O "Libération" a chamou de "o ícone da mulher real". Uma matéria de capa na revista "Tele Cable Satellite" se referiu a ela como a nova "peso-pesado" do canal TF1.

Ela conseguiu perder 13 quilos durante os rigores da competição, e atribui a vitória a sua grande voz, e não ao seu corpo grande. E Magalie acha que o seu tamanho não incomoda. "A platéia está acostumada a ver mulheres rechonchudas", disse ela. "Uma barreira foi rompida".

*Colaborou Ariane Bernard, de Paris. Entre os adultos, o mal aumenta 6% ao ano; já nas crianças, cresce anualmente 17%. Nesta dinâmica, os franceses poderiam se tornar
--quelle horreur!-- tão gordos quanto os norte-americanos até 2020 Danilo Fonseca

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