UOL Notícias Internacional
 

26/01/2006

Previsão de vitória apertada do Fatah nas eleições palestinas

The New York Times
Steven Erlanger e Greg Myre

em Ramallah, Cisjordânia
O movimento Fatah dominante manteve uma pequena vantagem sobre a facção militante islâmica Hamas na primeira eleição parlamentar palestina em uma década, segundo pesquisas de boca-de-urna divulgadas na noite de quarta-feira.

A votação marcou a primeira participação do Hamas na política representativa palestina, uma mudança fundamental, e seu forte resultado colocou em dúvida o futuro próximo das negociações de paz com Israel, que o Hamas está comprometido a destruir.

O resultado dos distritos eleitorais individuais, que correspondem a metade das 132 cadeiras do Parlamento e onde há previsão de que o Hamas se sairá bem, só deverá ser completado na quinta-feira, tornando arriscadas as previsões sobre o resultado final. Vários candidatos do Fatah estão concorrendo uns contra os outros, o que poderá permitir a candidatos do Hamas a possibilidade de vitória em alguns distritos com poucos votos.

Mas a julgar pelas pesquisas de boca-de-urna, o Fatah, apesar de desgastado, poderá ser capaz de formar uma maioria em uma coalizão com outros partidos independentes ou seculares como o de Salam Fayyad, o ex-ministro das finanças que é considerado uma escolha provável para primeiro-ministro.

Apesar das pesquisas de boca-de-urna indicarem que o Fatah pode ter rechaçado o avanço do Hamas, disparos comemorativos ecoavam pelas ruas de Ramallah.

Uma pesquisa do Centro Palestino de Pesquisa e Estudos Políticos, chefiado por Khalil Shikaki, mostrou o Fatah conquistando 42% do voto nacional e o Hamas 35%, com uma margem de erro de 4 pontos percentuais.

Outra pesquisa, da Universidade Birzeit, indicou que nas listas nacionais e votos distritais, o Fatah ficará com 63 das 132 cadeiras, faltando quatro para a maioria, e o Hamas com 58. A esquerdista Frente Popular para a Libertação da Palestina ficará com três cadeiras e a lista de Fayyad ficará com duas cadeiras, assim como a lista de Mustafa Barghouti e a lista do esquerdista Badil, com dois independentes. Esta pesquisa mostra o Fatah com 46,4% dos votos e o Hamas com 39,5%. Mas o diretor, Nader Said, alertou que a pesquisa tinha uma margem de erro de uma cadeira e deve ser tratada como indicativa, não final.

Eleitores, candidatos e analistas palestinos disseram esperar que o Hamas assuma algumas posições de Gabinete em ministérios de bem-estar social e serviço, participando assim do governo, mas em cargos que não exijam contato com Israel. Mas o Hamas poderá optar por ficar de fora do governo e permanecer na oposição parlamentar, dizendo aos seus eleitores que seu trabalho é manter o Fatah honesto e proteger aqueles que lutam contra a ocupação israelense.

Ahmed Mubarak, um candidato do Hamas em Ramallah e um jurista islâmico,
disse: "Eu pessoalmente não vejo problema em estar no governo se estivermos confiantes de que será pelo bem da população".

Mas o primeiro-ministro em exercício de Israel, Ehud Olmert, disse que Israel não pode aceitar uma situação na qual um Hamas armado e inalterado seja parte da Autoridade Palestina. Em uma reunião com o senador Joseph Biden dos Estados Unidos, um democrata de Delaware, Olmert disse: "Eu não negociarei com um governo que não cumpre sua obrigação básica -combater o terrorismo. Nós estamos preparados para auxiliar bastante os palestinos e Abu Mazen, mas eles devem cumprir seus compromissos".

A Autoridade Palestina também está comprometida, segundo o plano roteiro para a paz, no desmonte das milícias armadas e das "capacidades e infra-estrutura terroristas".

Assim, dentro ou fora do governo, o Hamas provavelmente impedirá que o presidente palestino, Mahmoud Abbas (conhecido como Abu Mazen), e o novo governo conduzam negociações sérias com Israel em qualquer base que Israel possa aceitar.

O Hamas é considerado uma organização terrorista por Israel, pelos Estados Unidos e pela Europa, e apesar das autoridades americanas e européias dizerem que não se encontrarão ou negociarão com qualquer membro do Hamas, elas continuarão mantendo relações estreitas com Abbas e com o novo primeiro-ministro palestino, como fazem no Líbano, onde o grupo terrorista Hezbollah possui representação no Gabinete.

Abbas pressionou por estas eleições contra uma oposição considerável de dentro do Fatah, convencido de que a única forma de domar o Hamas e transformá-lo de uma milícia armada em partido político seria por meio de uma democracia representativa. Um homem normalmente rígido e tímido, Abbas parecia positivamente feliz na manhã de quarta-feira, enquanto votava com sua esposa e posava para as câmeras de televisão.

"Nós estamos felizes com esta festa eleitoral", disse ele. Os palestinos também estavam festivos, saindo em grande número para votar em uma eleição que entendiam ser um momento vital de sua própria história. As autoridades estimaram um comparecimento de 78% dos 1,3 milhão de eleitores aptos.

Abbas também tinha palavras para tranqüilizar Israel. "Os israelenses não devem ter motivo para temer, mas sim para ficarem satisfeitos, já que estamos construindo uma democracia que poderá servir como base para uma paz entre nós", ele disse. "Eu estou sempre pronto para negociações com os israelenses, apesar de que eles precisam querer o mesmo do lado deles."

Israel, envolvida em sua própria campanha eleitoral e com o primeiro-ministro Ariel Sharon ainda em coma após um forte derrame, provavelmente não estará pronta tão cedo para falar sobre qualquer governo contendo representantes do Hamas. O resultado do Hamas e o que deverá ser feito agora será um grande tema na campanha israelense, que terminará em 28 de março.

Apesar de Abbas ter prometido a Washington que agiria para desarmar o Hamas após estas eleições, há um ceticismo considerável de que ele será capaz de fazê-lo.

Votando na quarta-feira, o cabeça da lista de candidatos do Hamas, Ismail Haniya, disse: "Os americanos e os europeus dizem ao Hamas: ou vocês têm armas ou entram no conselho legislativo. Nós dizemos armas e o conselho legislativo. Não há contradição entre os dois".

Os comentários apontam para a inconveniência de uma coalizão Fatah-Hamas. O Fatah, um movimento nacionalista, secular, quer retomar as negociações com Israel baseadas no roteiro para a paz, o plano de paz dormente que foi apresentado em 2003, e Abbas tem sugerido freqüentemente conversações paralelas secretas com Israel sobre um acordo final.

O Hamas tem travado uma campanha de atentados suicidas e sempre rejeitou as negociações com Israel. Durante a campanha, alguns líderes do Hamas baixaram o tom de sua retórica e o grupo em grande parte acatou a trégua anunciada no início do ano passado, e deverá continuar a fazê-lo, se concentrando em uma agenda interna e mantendo a promessa aos eleitores de "mudar e reformar". Mesmo assim, os líderes do Hamas dizem que o grupo não baixará suas armas.

A eleição em si transcorreu de forma notavelmente tranqüila, com poucos problemas em qualquer um dos mais de 1.000 locais de votação ou em Jerusalém Oriental, onde Israel permitiu que cerca de 6 mil palestinos votassem nos correios, enquanto a maioria dos moradores de Jerusalém Oriental pôde viajar para aldeias palestinas próximas para votar.

Os locais de votação aqui em Ramallah estavam alegres com as bandeiras amarelas do Fatah e verdes do Hamas, com os cartazes coloridos dos candidatos individuais e outros das 11 listas de partidos que concorriam, com candidatos e trabalhadores dos partidos distribuindo material eleitoral e convencendo eleitores na entrada dos locais de votação.

Os eleitores estavam ansiosos mas faladores, satisfeitos com o processo democrático mas preocupados com os resultados.

Mai Alami, uma mãe de três meninas e um menino, disse que a eleição era vital e que traria alguns "rostos novos" necessários para uma política estagnada pós-Arafat. "Mas temos medo do partido islâmico", disse ela, "não por sermos contra ele, mas por causa de sua política e preconceito".

O Fatah foi punido pelos eleitores pela falta de governo e corrupção dos últimos 12 anos, disse Alami do lado de fora do local de votação movimentado, na elegante escola de pedra Amigos.

O marido dela, Ali Khashen, um advogado constitucional, disse que a eleição também deu legitimidade a candidatos independentes como Fayyad e Mustafa Barghouti. "Mas agora com o Hamas poderemos ter mais obstáculos para o processo de paz no momento em que Israel está se tornando mais receptiva", disse ele. "Nós todos formamos nossa agenda em torno do Fatah, mas agora precisamos de uma nova estratégia."

Em Jerusalém Oriental, Fida Abdel Latif, uma arquiteta, disse: "Esta eleição é diferente porque há um espectro pleno de partidos, o que não era o caso antes. Nós esperamos que isto possa fornecer uma forte liderança que todos possam apoiar".

É o que Abbas também espera. Ele se encontrou na quarta-feira como o senador Biden, o líder democrata no Comitê de Relações Exteriores do Senado, e sugeriu estar considerando formas de pressionar o Hamas a se desarmar, disse o senador. "Ele disse que no final eles terão que escolher, que não poderão fazer parte do governo e ter uma milícia", disse o senador Biden. Abbas também pediu aos Estados Unidos para que não reajam apressadamente ao resultado eleitoral do Hamas e para que continuem o ajudando a melhorar, reformar e equipar as forças de segurança palestinas.

Mas a eleição também marcou uma mudança fundamental na política palestina e um raro terremoto político nos países árabes.

"O Fatah decidiu compartilhar o poder, isto é o que importa", disse Nader Said, da Universidade Birzeit. "Não é fácil para ele, mas não consigo pensar em nenhum país árabe que tenha um partido dominante disposto a compartilhar o poder em um processo democrático."

Said disse que a transição será difícil e que as próprias divisões do Fatah ressurgirão. "Mas as coisas nunca mais serão as mesmas", ele disse. "O Hamas aceitou participar do jogo político e nunca mais poderá ser tão militante ou linha-dura quanto costumava ser, independente de qual seja sua retórica."

O Fatah, apesar de sua campanha ter finalmente ganhado vida no últimos 10 dias, sofreu com a "tremenda decepção com o Fatah, com a Autoridade Palestina e com Abu Mazen", disse o Khalil Shikaki. "Há revolta com a corrupção, caos, falta de lei e ordem e muita desilusão." Apesar da participação e apoio ao Hamas, ele disse, a eleição "não foi realmente sobre o processo de paz e as negociações -de fato, três quartos dos palestinos apóiam o processo de paz e as negociações" e são mais moderados nas questões de status final como Jerusalém e refugiados do que nunca.

"O Fatah obterá mais votos que o Hamas hoje", disse Shikaki. "Mas esta é a última oportunidade que o Fatah terá para acertar seu rumo." E se Abbas não escolher um candidato a primeiro-ministro capaz de obter o apoio da geração mais jovem do Fatah, disse Shikaki, "nós poderemos ver uma separação do Fatah".

Shikaki disse acreditar que o Hamas deseja se juntar ao Gabinete em algum papel, e que Abbas deseja o mesmo, mas não prevê sua participação em seu desarmamento. "Abu Mazen quer desarmar o Hamas, mas por consenso, não com confrontação", ele disse. "O Hamas não aceitará se desarmar como uma pré-condição, mas poderá concordar em entregar as armas voluntariamente."

Cerca de 900 observadores estrangeiros, incluindo o ex-presidente Jimmy Carter e o ex-primeiro-ministro da Suécia, Carl Bildt, assim como uma grande delegação da União Européia, monitoraram a votação. Em uma avaliação preliminar, um funcionário de uma delegação americana co-patrocinada pelo Centro Carter e pelo Instituto Nacional Democrata, caracterizou a votação como "no geral tranqüila, com violência esporádica e um comparecimento robusto".

Com reportagem de Steve Erlanger, em Ramallah, e Greg Myre, em Jerusalém. George El Khouri Andolfato

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