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27/01/2006

Alunos de pós-graduação em economia cada vez mais se voltam para Freakonomics

The New York Times
Louis Uchitelle

em Nova York
  • Leia também: Coluna Freakonomics

    Usando como modelo as técnicas de pesquisa que Steven D. Levitt apresenta em seu livro campeão de vendas "Freakonomics - O Lado Oculto e Inesperado de Tudo que nos Afeta", alunos de pós-graduação em economia estão se concentrando em pequenos estudos de economia em vez de amplas teorias que explicam como todo o sistema funciona. Enquanto isso, estão se retirando do debate político.

    A abordagem ampla era uma característica definidora dos economistas formados na Depressão. A geração mais jovem tentou evitar as receitas que procuram curar os males da economia. Em vez disso, usa a teoria econômica como instrumento científico, empregando modelos matemáticos, por exemplo, para explorar a economia sem se tornarem defensores de uma ou outra solução.

    Para determinar coisas como o índice de crescimento, alimentam-se modelos de computador com premissas sobre inflação, contratação e fatores desse tipo. Este ainda é o centro dos estudos de pós-graduação, mas os próprios alunos estão pedindo maior treinamento em outra forma de exploração --pesquisas empíricas como a de Levitt, baseadas em evidências estatísticas.

    Levitt, professor de 38 anos da Universidade de Chicago, analisa dados que parecem explicar o comportamento --por que o índice de criminalidade caiu, por exemplo. É isso que um grande número de alunos de pós-graduação em economia quer fazer, de acordo com uma pesquisa que entrevistou 230 deles em sete universidades de prestígio.

    "Eles dizem não ter persuasões políticas. Eles querem fazer o melhor trabalho de análise estatística possível, melhor do que em sociologia ou outras ciências sociais. Assim, apresentam as opções, mas não dizem qual se deve escolher", diz David Colander, historiador de economia de Middlebury College, que conduziu a pesquisa recente e outra similar em 1987.

    Levitt diz que sua pesquisa, por exemplo, encontrou forte correlação entre o aborto legalizado e o declínio do crime. Ele argumenta que 35 anos depois de Roe contra Wade, a população de americanos indesejados, propensos ao crime, encolheu, assim como o índice de criminalidade. Mas isso significa que Levitt defende o aborto?

    Ele objeta: "Como economista, tenho maior capacidade do que a pessoa comum em identificar se o aborto reduz o crime, mas não sou melhor do que qualquer outro para avaliar se o aborto é crime ou se a mulher tem um direito intrínseco a controlar seu corpo."

    Os alunos, em suas respostas à pesquisa, elogiaram a formação que os ensina a serem pesquisadores e evitarem a política. A pesquisa e suas implicações foram debatidas em na reunião anual da Associação Econômica Americana em Boston, neste mês, e em entrevistas subseqüentes.

    O que a discussão e as entrevistas revelam é que há uma diferença clara na forma como a economia é ensinada na graduação e na pós.

    "Meus alunos de graduação são tremendamente interessados em política pública, que ensino no curso de princípios de economia", disse N. Gregory Mankiw, economista de Harvard. Mankiw participou do Conselho de Assessores de Economia do presidente Bush, mas entrou em choque com o governo ao declarar que a terceirização dos empregos para o exterior era uma forma de comércio livre que beneficiaria os EUA.

    De volta à sala de aula, Mankiw explica aos graduandos por que o comércio livre é boa política. "Estou ensinando a próxima geração de eleitores", disse ele. "Na pós, entretanto, estamos treinando os alunos a usarem os instrumentos de pesquisa econômica."

    Esses instrumentos raramente contam toda a história. A explicação de Levitt para a queda dos índices de criminalidade, por exemplo, considerou também o aumento da população carcerária, mas não o impacto da televisão ou da cultura ou a idade da geração do baby boom. Os modelos matemáticos usam comportamentos racionais em suas equações, mas somente algumas das distorções psicológicas que os economistas do comportamento cada vez mais catalogam.

    O modelo de dinâmica comercial, em geral, assume que países trocam os bens e serviços que os outros produzem com maior eficácia --apesar de evidências crescentes de que o comércio no século 21 não é tão simples. Além disso, os modelos e a pesquisa empírica raramente admitem o altruísmo como incentivo, apesar de Adam Smith enfatizar sua importância, além do interesse próprio.

    Arjo Klamer também enfatiza o papel do altruísmo. Ele estudou economia em Duke, deu aulas em três universidades nos EUA e depois, desanimado com tendência da economia acadêmica nos EUA, voltou para seu país de nascença, Holanda, onde ensina sobre o impacto da cultura no comportamento econômico na Universidade de Erasmus.

    "O altruísmo é um incentivo para todo tipo de comportamento", disse Klamer, que participou da discussão em Boston, tendo trabalhado com Colander em pesquisa similar de alunos de pós em 1987. "Cientistas, por exemplo, colaboram com os outros em suas pesquisas", observou, "e soldados vão para o Iraque porque estão dispostos a sacrificar suas vidas pelo bem comum."

    A pesquisa recente foi desenvolvida nas universidades de Chicago, Columbia, Harvard, Princeton, Yale, Stanford e MIT e esses foram os resultados mais chamativos:

    Entre os alunos de primeiro ano, 10% se consideravam conservadores politicamente, mas essa percentagem aumentou para 23% no quinto ou sexto ano. Metade dos alunos, quase o dobro que em 1987, consideraram a economia a mais científica das ciências sociais. Metade também concordou com a premissa de que o comportamento é essencialmente racional, a mesma percentagem que antes. E 30% disseram que a economia empírica é muito importante, subindo de 16% em 1987.

    "Cada vez mais, 'freakonomics' está se tornando economia dominante", disse Colander. "Esse é o tipo de pesquisa que os jovens economistas querem desenvolver."

    Levitt e seu co-autor, Stephen J. Dubner, autor e não economista, correlacionaram textos de propagandas com os preços dos imóveis, por exemplo, para determinar quais textos são conectados com preços mais altos.

    Na mesma linha, dois economistas empíricos --Alan B. Krueger, de Princeton, e David Card, agora na Universidade da Califórnia, Berkeley-- determinaram que um aumento modesto no salário mínimo não desestimulava o emprego. Jonathan Gruber do MIT encontrou correlação entre ir à igreja regularmente e renda mais alta. Mas eles não deram o passo seguinte, da pesquisa à política.

    Explicando a relutância em militar, Colander disse que os alunos de pós-graduação são melhores em matemática que seus colegas há 19 anos, o que facilita a atual abordagem.

    As escolas de pós-graduação raramente oferecem cursos de história do pensamento econômico, mostrou a pesquisa, e menos alunos do que nos anos 80 leram os trabalhos dos grandes nomes da área --Adam Smith, por exemplo, ou David Ricardo, Alfred Marshall e John Maynard Keynes.

    Esses gigantes descreveram a economia em ampla escala e foram muito mais engajados na política do que os economistas modernos. "Keynes olhava para fora da janela e conversava com as pessoas, e isso alimentou suas descobertas", disse Klamer.

    A pesquisa, a teoria, a observação e a sugestão política eram interligadas. Também foi assim para os prêmios Nobel recentes, como Milton Friedman, Paul Samuelson, o falecido James Tobin e Robert Solow, todos jovens durante a Depressão --atraídos para a economia, como disse Solow, para consertar o mundo pela intervenção do governo em um setor privado que não podia se consertar.

    "Perdemos nossa esperança que os instrumentos da economia podem ser usados para gerenciar a economia", disse Levitt, "e passamos para uma visão muito mais micro do mundo. Podemos dizer a você se a atuação dos sindicatos aumenta a produtividade ou diminui a inovação ou aumenta os salários, mas relutamos em julgar se as compensações são boas ou ruins." Idéia é focar a pesquisa econômica no cotidiano sem fazer política Deborah Weinberg
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