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27/01/2006

Encontrando a musa nas montanhas e castanhais

The New York Times
Roberta Smith

Em Washington
"Se eu não estivesse profundamente apaixonado pela paisagem do meu país, eu não estaria aqui." Quando Paul Cézanne escreveu estas palavras, em 1896, uma década antes de sua morte, ele declarava o óbvio.

Na época Cézanne, 57 anos, tinha passado grande parte de sua vida adulta se deslocando como um pintor itinerante pela região da Provença, no sul da França, o objeto de sua afeição. Ele tinha, é claro, estado em Paris e passado algum tempo no Louvre; ele trabalhou ao lado de Camille Pissarro em Pontoise e Auvers em meados dos anos 1870, absorvendo os princípios básicos da técnica do Impressionismo. Mas ele nunca se afastou por muito tempo da área ao redor de Aix-en-Provence, onde nasceu em 1839 e, apesar das objeções de seu pai, começou a ser pintor.

Paris, Musee d'Orsay via The New York Times 
"Jogadores de Cartas" (Les Joueurs de Cartes, 1893-1896), na mostra "Cezanne in Provence"

A arte de Cézanne feita na Provença, especialmente suas últimas imagens convulsivas do Monte Sainte-Victoire, acabou sacudindo a pintura em sua essência. Ela desestabilizou séculos de representação para atingir um tipo de realismo mais profundo, mais pleno, quase alucinatório. No início dos anos 1900, quando suas pinturas começaram a ser conhecidas por artistas jovens como Braque, Picasso, Matisse e Mondrian, estas obras forneceram a base para o cubismo e as múltiplas vertentes do Modernismo.

O papel de Cézanne como profeta do Velho Testamento do Modernismo, e sua exortação ao estilo Moisés, é palpável em "Cézanne na Provença", uma exposição revigorante que será aberta em 29 de janeiro no Galeria Nacional de Arte daqui. Apesar das obras variarem dos esforços iniciais aos últimos, incluindo retratos e naturezas mortas, esta exposição é dominada por paisagens. É uma retrospectiva enxuta, centrada na terra, que engloba o feito de Cézanne com uma força e lucidez que deverá ter apelo tanto junto a neófitos quanto devotos.

A exposição foi organizada por Philip Conisbee, o curador sênior de pinturas européias da Galeria Nacional, e Denis Coutagne, o conservador chefe do Museu Granet de Aix-en-Provence, onde será aberta em 9 de junho. As 87 pinturas e 30 aquarelas da exposição estão distribuídas em grande parte em ordem cronológica, agrupadas em breves blocos temáticos que conduzem o visitante ao hábitat natural do artista como um eficiente guia erudito.

"Cézanne na Provença" apresenta a natureza em uma espécie de hiperespaço onde tudo está vivo e em fluxo. A imagens sacodem; suas formas de encaixam e desencaixam. Pedras monumentais tremem dentro de sua solidez majestosa. A luz dá e tira, revela e distorce. O próprio ar salta.

Mas nunca deixamos de estar cientes do plano do quadro, da pincelada, da mão do artista e da artificialidade do edifício diante de nós. Ou de uma visão tão aguda que deixa de ser claro onde a Provença acaba e Cézanne começa: o terreno provençal elemental despojado era perfeito para suas necessidades e ambições artísticas, formando uma simbiose incomum de ambiente e sensibilidade, topografia e temperamento. Além de oferecer uma confirmação diária de que, como ele disse, as formas da natureza eram reduzíveis a cubos, cones e cilindros, a Provença também fornecia ao artista a paleta triangular de azul, verde e laranja.

Como uma geleira, as paisagens de Cézanne pulverizam a representação tradicional --cizalhando formas, aprumando expectativas espaciais e salpicando as composições com obstáculos que bloqueiam uma fácil entrada. O olhar deve subir e descer, ou se espremer por planos inclinados, projetando formas e volumes inesperados; ele deve reconciliar fatos geológicos monumentais com alguns pequenos pintados, e vastos espaços abertos com superfícies próximas, vibrantes, que parecem mosaicos bizantinos e um prenúncio da pixalização digital.

Na Provença, Cézanne era um caçador de vistas, um obcecado em trabalhar a céu aberto, ou "sur la motif" como ele colocava. Ele também era um caçador com uma pensão mensal, que lhe permitia lidar com suas percepções nas telas sem se preocupar com as vendas e que se mudasse e se estabelecesse onde quisesse.

Ele veraneava em L'Estaque, uma cidade mediterrânea, caminhando pelas colinas para descrever suas casas em blocos, cor amarelada e telhas vermelhas aninhadas contra o curvo Golfo de Marselha. Ele alugou um quarto no inacabado Château Noir, perto de Aix, para guardar obras em progresso retratando o corpo geométrico do prédio, a floresta ao seu redor e a abandonada pedreira de Bibemus perto dali.

Em 1901, ele começou a construir um pequeno estúdio ainda mais próximo de Aix, em Les Lauves, cujo terraço lhe dava uma vista ideal de seu amado Monte Sainte-Victoire, com seu cume como uma concha e picos desolados. Como já foi freqüentemente notado, Cézanne era tão dedicado às suas encostas e perfis quanto outros artistas eram para o rosto e corpo humanos (geralmente femininos).

A grande massa de Sainte-Victoire, evocativa de uma esfinge sem cabeça, é o principal "leitmotif" da exposição. A intimidade de Cézanne com a montanha está resumida na primeira galeria, onde ele se ergue atrás de um bosque de castanheiros sem folhas em uma pintura de 1885-86, feita em Jas de Bouffan, a pequena propriedade rural que o pai de Cézanne comprou em 1859. (Aceitando o inevitável, ele acabou construindo um estúdio para seu filho lá.) Posteriormente, um desenho sólido e maravilhosamente simples, prenunciando Juan Gris, trata da mesma vista.

A galeria inicial realiza alguns saltos. Ela inclui uma serena vista enfática, datada de 1868-70, de castanheiros escuros ao redor da bacia de Jas de Bouffan, na qual verdes, pretos e laranjas são executados com a extravagância jovial de Manet. No trabalho seguinte, de uma década depois, Cézanne está de volta à bacia, trabalhando rápido e criando uma imagem dupla surpreendente de casas de fazenda e seus reflexos; é uma das pinturas dentro de pinturas mais espalhafatosas que seus planos partidos às vezes insinuam.

A segunda e terceira galerias continuam preparando o terreno. Uma é dominada por uma série de primeiros retratos feitos em Jas de Bouffan, incluindo imagens do pai de Cézanne, seu tio Dominique e amigos de sua juventude, assim como uma humilde natureza morta de uma tigela de açúcar e pêras. Todos com uma espátula vigorosa em deferência a Courbet. A galeria seguinte exibe obras de um período posterior em Jas de Bouffan, naturezas mortas e retratos de camponeses; a melhor é um ensaio compacto do grande "Jogadores de Baralho", atualmente pertencente à Fundação Barnes, e um retrato da esposa de Cézanne, Hortense.

Pelo menos segundo sua narrativa, quanto mais Cézanne se afasta de Jas de Bouffan, mais forte sua obra se torna. A próxima galeria o encontra em L'Estaque, pintando "Rochas em L'Estaque", uma vista do alto livre do mar e casas, na qual matacões cinzentos envolvem uma sombra como dedos gordos cinzentos -um gesto geológico de poder elemental.

Daqui em diante, as mudanças bem ritmadas da exposição em "motif" resumem como Cézanne percorreu o interior, especialmente ao redor do Monte Sainte-Victoire. Em uma série de quatro obras, a montanha se avulta à distância, emoldurada por galhos de pinheiros bailarinos, vista do outro lado da planície cuja vastidão é medida pelos arcos minúsculos de um viaduto distante. Virando você se deparará com a face oeste de Sainte-Victoire fornecendo um contraste para duas cenas um tanto bucólicas de casas de fazenda, entrando à direita do quadro como uma grande locomotiva ameaçadora que poderia ter inspirado de Chirico.

Na galeria seguinte Sainte-Victoire se ergue acima da massa alaranjada da pedreira de Bibemus, que encerra a porção inferior da pintura. A exposição culmina em uma parede de imagens em erupção, quase abstratas, da montanha de 1902 a 1906, que poderiam quase ser acompanhadas de uma placa: "Cubismo nesta direção, em Dois Anos". (Na primavera de 1908, Braque, tendo visto recentemente uma exposição memorial de Cézanne no Salon d'Automne, estava em L'Estaque, pintando suas casas e colinas com novos olhos.)

O catálogo substancial da exposição tem uma foto recém descoberta de Cézanne, tirada em abril de 1906 por Gertrude Osthaus, a esposa do diretor de museu alemão Kar Ernst Osthaus. Ela o mostra bancando o anfitrião gracioso enquanto deixa uma porta com uma cadeira para um de seus convidados. É uma imagem maravilhosa, uma que brevemente nos faz esquecer que ele era um homem solitário, irascível, que sofria de diabete e cuja devoção exclusiva à sua arte inspirou artistas quase tanto quanto suas inovações.

"Eu trabalho obstinadamente", ele escreveu amargamente em 1903. Ele continuou assim até cerca de uma semana antes de morrer. Ele desmaiou enquanto pintava ao ar livre e, após ficar caído na chuva por várias horas, foi encontrado e trazido para casa em um carro de lavanderia. Ele morreu em 23 de outubro de 1906, em Aix.

A obra de Cézanne nos lembra que o elo com o mundo natural é freqüentemente um aspecto essencial da grande arte, independente do estilo. Ainda mais valioso, seu feito confirma que os artistas devem pintar em uma forma básica, física, para serem realmente inovadores.

Foi a paisagem da Provença, mais do que qualquer outra coisa, que levou Cézanne a promover suas mudanças particulares. Ela o estimulou a desvencilhar a pintura da representação convencional, para criar um espaço para respirar entre suas pinceladas e o que descreviam. A prova está na obra. Ele trouxe um novo equilíbrio para o trio essencial da pintura -a arte de ver, o processo físico e psíquico da pintura e a obra acabada- que dá ao meio sua riqueza e, ainda hoje, o arrebatamento da imaginação.

Notas da exposição

"Cézanne na Provença" abre no domingo na Galeria Nacional de Arte, Fourth Street e Constitution Avenue NW, Washington; (202) 737-4215, www.nga.gov. A exposição vai até 7 de maio. Papel do pintor Paul Cézanne como profeta do Velho Testamento do Modernismo, e sua exortação ao estilo Moisés, é palpável em "Cézanne na Provença", uma exposição revigorante que será aberta em 29 de janeiro no Galeria Nacional de Arte de Washington George El Khouri Andolfato

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