UOL Notícias Internacional
 

27/01/2006

Hamas obtém grande vitória na eleição palestina

The New York Times
Steven Erlanger*

Em Ramallah, Cisjordânia
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    Com disciplina e uma campanha bem financiada para incentivar seus seguidores, o grupo islâmico Hamas obteve uma vitória arrasadora nas eleições legislativas, obtendo 76 dos 132 lugares, enquanto a antiga facção governante, Fatah, conquistou apenas 43. Os palestinos compararam os resultados preliminares, anunciados na noite desta quinta-feira (pelo Comitê Eleitoral Central, a um terremoto ou tsunami, pondo fim a mais de 40 anos de domínio político da Fatah, a principal facção política criada por Iasser Arafat, que morreu há 14 meses.

    Rina Castelnuovo/The New York Times 
    Simpatizantes do Hamas em Nablus, na Cisjordânia, comemoram a grande vitória na eleição

    Os resultados da eleição de quarta-feira colocam uma facção armada --considerada um grupo terrorista por Israel, pelos EUA e pela União Européia-- na direção do futuro político palestino. Eles também representam uma interrupção dos esforços para reiniciar as negociações de paz. As pesquisas com eleitores divulgadas na quarta-feira à noite indicavam que a Fatah teria o maior número de votos e manteria o controle do Parlamento e do gabinete de governo.

    Mesmo antes de os resultados serem anunciados, o primeiro-ministro da Fatah, Ahmed Qurei, que havia advertido o presidente Mahmoud Abbas contra a realização dessas eleições, renunciou. Numa série de choques, seguidores do Hamas içaram sua bandeira verde sobre o edifício do Parlamento. Eles comemoraram a vitória por toda a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, realizando marchas nas principais cidades e pendurando enormes bandeiras verdes nos edifícios públicos.

    A vitória do Hamas representa um grande teste para os palestinos, para os países ocidentais --que pressionaram por essa eleição e que dão milhões de dólares em ajuda aos palestinos-- e para o mundo árabe, que será abalado pela vitória de um partido islâmico militante no coração simbólico do mundo muçulmano: Jerusalém e os territórios palestinos.

    Mas os resultados também serão um teste para o Hamas, que parecia desejar uma entrada mais gradativa na política. O líder do Hamas, Mahmoud Zahar, disse orgulhosamente em Gaza: "Vamos mudar todos os aspectos, em relação à economia, indústria, agricultura, ajuda social, saúde, administração, educação".

    Mas não será uma transformação fácil, e provocará a resistência política de uma sociedade majoritariamente secular.

    Enquanto os políticos do Hamas disseram que convidariam outros partidos, incluindo a Fatah, para participar de um governo de união nacional, importantes membros da Fatah, como Jibril Rajoub e Mahmoud Dahlan, deixaram claro que a organização não se envolverá em qualquer área de um governo dominado pelo Hamas nem o ajudará a enfrentar os problemas reais de governança.

    Eles sugeriram que a Fatah deverá ficar na oposição e deixar o Hamas cometer seus próprios erros, enfrentando como puder os fatos da vida palestina e a ocupação israelense.

    Mas também é possível que alguns membros da Fatah que têm boas relações com o Hamas, como o legislador de Gaza Ziad Abu Amr, que concorreu como independente com apoio do Hamas, concorde em unir-se ao partido num gabinete que provavelmente será liderado por um primeiro-ministro de outra afiliação.

    "Meu conselho a Abu Mazen e ao Hamas é que pensem seriamente em dividir o poder", disse Amr, referindo-se a Abbas, cujo cargo de presidente não é afetado por essa eleição. "Há necessidade de uma parceria entre a Fatah e o Hamas. O Hamas será colocado à prova como governante, e não simplesmente oposição -- a política terá de ser levada em conta além da ideologia."

    Os israelenses advertiram o mundo para não ceder ao otimismo e supor que o Hamas vá modificar subitamente seus objetivos. Israel e o mundo só negociaram com Arafat e a Organização pela Libertação da Palestina depois que esta concordou em reconhecer o Estado de Israel, no final dos anos 80, e condenar o terrorismo. Políticos israelenses sugeriram que o processo teria de começar novamente com o Hamas.

    "Para os israelenses, esse é o fim definitivo da ilusão de uma paz abrangente", disse Yossi Klein Halevi, professor no Centro Shalem de Jerusalém. "Não há mais esperança verossímil de moderação palestina. Para os israelenses, só vai confirmar o que os últimos cinco anos de terror ensinaram: que a guerra não tem a ver com os assentamentos, mas com o direito de Israel existir."

    A Autoridade Palestina como um parceiro sério de negociação deixou de existir para Israel, disse Halevi.

    "Hoje a era do suposto processo de paz também terminou", ele disse, e Israel continuará agindo unilateralmente para definir suas próprias fronteiras, construir a barreira de separação dos palestinos e com o tempo continuar o processo de retirada unilateral de outros assentamentos da Cisjordânia -- desde que tenha garantias de que a Autoridade Palestina dominada pelo Hamas não usará esse território para lançar foguetes e outros ataques a Israel.

    "Agora existe um amplo consenso de que Israel seguirá em frente e construirá nossas fronteiras para preservar Israel como um Estado judeu democrático", disse Ami Ayalon, um ex-diretor do Shin Bet que é candidato a deputado pelo Partido Trabalhista. A Autoridade Palestina construída pela Fatah "não existe mais", ele disse.

    "A sociedade palestina está muito confusa", disse Ayalon. "Escolheu o Hamas mais por causa da corrupção e do fracasso da Autoridade Palestina e da Fatah do que por causa de religião ou terrorismo. Mas ela terá de pagar o preço por sua decisão."

    A vitória do Hamas também coloca em primeiro plano seu apoio aos ataques armados contra Israel. O Hamas disse que entrou na política "para proteger a resistência" à ocupação israelense de terras muçulmanas, de modo que é improvável que ceda aos apelos ocidentais para se desarmar e reconhecer Israel, que em seu estatuto o Hamas prometeu destruir.

    O máximo que os candidatos de sucesso do Hamas como Ahmad Mubarak diriam hoje é que se Israel recuar para seus limites de 1967 o Hamas consideraria "uma trégua prolongada". Mubarak, um ex-jurista islâmico, e outros vencedores do Hamas foram recebidos com beijos e doces árabes no quartel-general da organização em um edifício de escritórios em Ramallah, enquanto homens barbados usando faixas e chapéus verdes se moviam agitadamente falando em seus telefones celulares.

    Fadel Saleh disse que o Hamas vai se concentrar "em restaurar nosso lar palestino e reconstruir a sociedade palestina", deixando as relações internacionais para Abbas e a OLP, que não inclui o Hamas. "Também queremos recriar a OLP com base nessa votação. O Hamas quer cooperar com todos os partidos palestinos e um acordo nacional sobre políticas", ele disse.

    O Hamas não se surpreendeu com a votação, insistiu Saleh. "Mas é um terremoto para Israel e para o mundo estrangeiro, porque eles não sabem o que os palestinos querem", ele disse. "Queremos um governo honesto e o fim da ocupação, e vamos trabalhar para que cada arma na mão de um palestino seja uma arma nacional, voltada contra a ocupação, e não usada para segurança."

    A morte de Arafat revelou ressentimentos da Fatah e dos homens que ele trouxe do exílio para os territórios palestinos depois dos acordos de Oslo com Israel, em 1993. Esses acordos criaram a Autoridade Palestina, e nos dez anos desde as últimas eleições legislativas, das quais o Hamas se recusou a participar, o regime de partido único mostrou-se tão corruptor entre os palestinos quanto em qualquer lugar.

    "As autoridades corruptas que estão no poder há muito tempo geralmente são derrubadas em eleições livres", disse Daoud Kuttab, um analista palestino que é professor na Universidade Al Quds em Jerusalém. "Depois de 40 anos, é quase natural. Eu esperava que a Fatah ganhasse, mas não ganhou. É pena que a oposição venha de um grupo islâmico radical, mas não havia outra oposição séria."

    Kuttab disse que os que pregaram a democracia, desde o governo Bush até a direita israelense, terão de decidir se seus valores superam seus interesses. "Se o Hamas respeitar as regras do jogo democrático, teremos de deixar os ganhadores ganharem", ele disse. "Mas agora o Hamas estará no poder e descobrirá o que é viver no mundo real. O Hamas terá de enfrentar a realidade, e parte dessa realidade é lidar com Israel." Mas mesmo esse processo poderá levar vários meses ou anos, ele disse.

    O Hamas agora terá poder para agir contra a corrupção, como prometeu, e poderá abrir investigações sobre altas autoridades da Fatah. Como a Fatah vai reagir à realidade da perda do poder, só ficará claro nos próximos dias.

    Segundo os resultados, a lista do Hamas havia conquistado 30 dos 66 assentos legislativos em nível nacional e 46 dos 66 assentos em circunscrições. A Fatah ganhou 27 assentos em nível nacional e somente 16 nas circunscrições. A Frente Popular para Libertação da Palestina (FPLP), de esquerda, ganhou três assentos, enquanto outra coalizão de esquerda, Al-Badil, ganhou dois.

    A chapa da Palestina Independente, liderada pelo segundo lugar na eleição presidencial, Mustapha Barghuti, ganhou dois lugares, assim como a lista da Terceira Via, do atual ministro das Finanças, Salam Fayad, e Hanan Ashrawi. Quatro outros independentes ganharam em circunscrições.

    *Colaborou Greg Myre, de Jerusalém. O grupo radical terá 76 cadeiras no parlamento, contra 43 da Fatah Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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