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27/01/2006

Provável reação de Israel: ação unilateral, e ruptura das conversações com o Hamas

The New York Times
Greg Myre

Em Jerusalém
A vitória do Hamas nas eleições palestinas chocou os israelenses, mas o episódio pode ter também proporcionado a eles um raro momento de clareza de objetivos: com as negociações de paz colocadas à mesa, Israel provavelmente buscará implementar ações unilaterais, desenhando as suas próprias fronteiras e separando-se dos palestinos.

Ehud Olmert, o primeiro-ministro em exercício, deixou claro após uma reunião emergencial do Gabinete que as negociações com o Hamas, um partido palestino que prega a destruição de Israel, estão fora de questão, enquanto que os especialistas disseram que Israel estaria agora mais livre para criar um futuro próprio.

Eles disseram que Israel --cujas próprias eleições daqui a dois meses podem ser altamente influenciadas pelos resultados palestinos-- provavelmente se concentrará na construção acelerada da barreira separadora, que passa por várias partes da Cisjordânia. Após mais de três anos de construção, menos da metade do muro está construída, mas as autoridades israelenses dizem que a obra contribuiu enormemente para a redução dos ataques, tanto os suicidas quanto os convencionais. Já os palestinos dizem que a barreira lhes subtrai as terras que eles desejam para o seu futuro Estado.

"As diferenças entre as partes é agora mais profunda, e as chances de negociações são muito mais remotas", disse Shlomo Avineri, um cientista político liberal da Universidade Hebraica. "Os únicos passos realistas podem ser os passos unilaterais israelenses".

O unilateralismo foi a abordagem adotada por Ariel Sharon, o primeiro-ministro no decorrer dos últimos cinco anos, que agora está em estado de coma. Ele retirou os colonos e os soldados israelenses da Faixa de Gaza no verão passado sem negociar a medida com os palestinos, e deixou em aberto a possibilidade para mais iniciativas do gênero na Cisjordânia.

Desde que as conversações intermitentes de paz tiveram início há mais de uma década, os israelenses têm estado profundamente divididos quanto aos tipos de concessões que farão e ao tamanho do território que preservarão, além de duvidarem de que as negociações resultem em um fim a um conflito que se arrasta por décadas. Na quinta-feira (26/01), parecia haver ainda menos dúvidas quanto a isso.

Das lideranças israelenses de linha dura que se opõe às concessões, aos elementos mais moderados que fazem pressões para que se reiniciem as negociações de paz, todos os israelenses são unânimes em afirmar que não poderá haver negociações com o Hamas.

Ami Ayalon, o ex-diretor do serviço de segurança israelense Shin Bet, e atualmente um candidato a parlamentar pelo esquerdista Partido Trabalhista, afirmou que a falta de um parceiro para negociações não deveria deter as ações de Israel que têm como objetivo a separação entre israelenses e palestinos.

"Israel deveria procurar criar uma situação na qual o país se desligasse dos palestinos e preservasse o caráter do país enquanto uma democracia judaica", afirmou ele. "Israel deve continuar a se mover rápida e independentemente rumo à nossa meta".

Olmert espera se tornar primeiro-ministro nas eleições de 28 de março, como chefe do centrista partido Kadima, criado por Sharon.

Mas Benjamin Netanyahu, líder do direitista partido Likud, deixou claro que os resultados palestinos ofereceram uma oportunidade para que a sua mensagem mais dura fosse ouvida. Segundo ele, a vitória do Hamas foi um resultado da retirada unilateral da Faixa de Gaza, e provou que nenhuma outra retirada deve ocorrer.

Yuval Steinitz, membro do Parlamento pelo Likud, afirmou que Israel deveria ter impedido ou cancelado as eleições palestinas. Ele citou os acordos de Oslo, de 1993, um acordo interino de paz que impede a participação de grupos armados e daqueles que não reconhecem Israel.

Steinitz chamou atenção para o fato de os ataques terroristas palestinos contra Israel terem diminuído nos últimos anos, enquanto a popularidade do Hamas aumentou. "Esta é uma grande perda na nossa guerra contra o terrorismo, apesar do todos os nossos sucessos táticos", disse ele.

Desde os acordos de Oslo, as lideranças israelenses e palestinas mantiveram um diálogo em algum nível. Mas Israel e o Hamas jamais tiveram contato, além das trocas de tiros, disparos de bombas e ataques aéreos. O relacionamento entre as duas partes é similar àquele que existia na década de 1980, e anteriormente, entre Israel e a Organização de Liberação da Palestina, quando ambos os lados se recusavam a reconhecer um ao outro.

O triunfo eleitoral do Hamas ocorre em um período no qual Israel passa por um difícil momento político, quando o governo dificilmente fará qualquer movimento mais expressivo até as eleições israelenses.

"O período eleitoral significa um intervalo", disse Avineri. "Existe um forte argumento favorável a não se tomar atitudes drásticas neste momento".

A campanha também pode significar que Olmert e o seu partido terão que assumir um tom mais duro a fim de garantir que não serão superados pelo Likud no que diz respeito às questões de segurança.

Os israelenses estão dando início a um debate para decidir se a realidade de estar no poder domará ou moderará o Hamas. Avineri sugeriu que um governo liderado pelo Hamas pode não ser tão ameaçador como temem os israelenses. E citou o grupo guerrilheiro libanês Hezbollah, que combateu as tropas israelenses durante vários anos no sul do Líbano, e que agora participa da política libanesa.

"O Hamas poderá se comportar como o Hezbollah", disse Avineri. "A retórica será dura, e eles ainda estarão armados, mas serão parte de um sistema político, e as suas ações serão mais contidas".

Outros, como Steinitz, argumentam que o Hamas quer empurrar os judeus para o mar, e que o grupo não entrou na política com a intenção de modificar os seus objetivos, mas sim de atingi-los.

Mesmo assim, a vitória do Hamas injeta incerteza na eleição palestina. Em campanhas israelenses anteriores, o Hamas e outras facções palestinas conduziram ataques mortíferos que empurraram o eleitorado israelense para a direita.

Em 1996, o Partido Trabalhista, liderado pelo mais pacifista Shimon Peres, pareceu estar rumando para uma vitória, após o assassinato de Yitzhak Rabin por um ultranacionalista israelense. Mas, depois de uma série de ataques suicidas a bomba palestinos durante a campanha israelense, o Likud de Netanyahu venceu por uma margem estreita.

Os palestinos deram início a um levante em setembro de 2000, e, em uma eleição em fevereiro de 2001 para primeiro-ministro, Sharon derrotou Ehud Barak, o líder do Partido Trabalhista, que tentou, mas não conseguiu, chegar a um acordo amplo com os palestinos. Vitória do grupo radical palestino deve influenciar eleição em Israel Danilo Fonseca

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