UOL Notícias Internacional
 

28/01/2006

Depois da derrota para o Hamas, militantes da Fatah protestam na Faixa de Gaza

The New York Times
Steven Erlanger*, em Ramallah, e

Greg Myre, na Faixa de Gaza
Depois de uma esmagadora derrota eleitoral do partido do governo, Al Fatah, jovens militantes do grupo fizeram demonstrações enfurecidas na sexta-feira (27/01) à tarde e dispararam armas para o ar diante da residência do líder palestino, Mahmoud Abbas, que no momento não estava presente.

Em contraste, a facção islâmica Hamas, que obteve uma vitória retumbante na eleição parlamentar de quarta-feira, realizou manifestações de comemoração, enquanto líderes do grupo disseram estar prontos para se reunir com Abbas para conversar sobre a formação do novo governo.

Nos dois dias depois da eleição as tensões políticas na Palestina ficaram evidentes, mas não saíram de controle. Várias centenas de manifestantes do partido Al Fatah de Abbas marcharam na rua diante de sua casa na cidade de Gaza. Atiradores dispararam rifles automáticos para o ar e a multidão cantou "Vá embora, Abu Mazen! Vá embora, Abu Mazen!", referindo-se a Abbas pelo nome como ele é conhecido.

Abbas estava na Cisjordânia no momento do incidente de sexta-feira. Mas a situação demonstrou a fricção interna na Al Fatah, entre a velha guarda e os jovens militantes, que poderão ser ainda menos tolerantes com a liderança de Abbas depois da derrota do partido na eleição. Os atiradores também invadiram o pátio do edifício do Parlamento, na proximidade, e incendiaram vários carros.

Muhammad Dahlan, um dos mais conhecidos líderes da jovem geração da Al Fatah, e um ex-chefe da segurança, chegou ao local e pediu que os homens se dispersassem.

Na cidade de Khan Yunis, no sul da Faixa de Gaza, seguidores da Al Fatah e do Hamas entraram em choque com pedras e armas, deixando três feridos, segundo testemunhas e pessoal de assistência médica.
Por toda Gaza, milhares de defensores do Hamas usando bonés de beisebol e agitando bandeiras verdes fizeram manifestações ruidosas mas pacíficas depois das orações do meio-dia.

Abbas foi eleito presidente da Autoridade Palestina um ano atrás, e seu cargo não é afetado pela eleição. No entanto, ele ficará muito enfraquecido politicamente com o Hamas conduzindo o governo.

Ismail Haniya, um veterano líder do Hamas na Faixa de Gaza, disse que seu grupo pretende se reunir com Abbas ainda no domingo para iniciar negociações para o novo governo.

Com 76 dos 132 lugares do Parlamento, o Hamas tem uma sólida maioria e não precisa de parceiros. Mas o grupo disse que quer trabalhar com outras facções, incluindo a Al Fatah.

"Não será apenas nosso governo", disse Mahmoud Zahar, outro importante líder do Hamas, na sexta-feira, quando saiu das orações do meio-dia na mesquita em frente à sua casa em Gaza. "Vamos trabalhar com a Al Fatah, os independentes e outras facções para formar um governo nacional."

O Hamas deverá formar o governo em duas ou três semanas, segundo Zahar. Mas vários líderes da Al Fatah, que domina a vida política palestina há quatro décadas, disseram que preferem ficar na oposição e reconstruir o partido, em vez de se unir ao Hamas.

O Hamas participou das eleições parlamentares pela primeira vez na quarta-feira, e não tem experiência com a Autoridade Palestina. Até agora o Hamas se recusou a participar do governo palestino que surgiu de um acordo de paz provisório em 1993 entre Israel e os palestinos, que o Hamas rejeitou.

O Hamas ainda não reconhece Israel, e diz que não mudará sua promessa institucional de destruir Israel. "Por que vamos reconhecer Israel?", disse Zahar. "Israel vai reconhecer os direitos dos refugiados palestinos a retornar? Israel vai reconhecer a Palestina com Jerusalém como sua capital?"

Mas Zahar e outros líderes dizem que o Hamas não descarta contatos limitados com Israel sob certas circunstâncias. "Se Israel tiver alguma coisa para trazer ao povo palestino, vamos considerar", ele disse. "Mas não vamos dar nada de graça."

O primeiro-ministro em exercício de Israel, Ehud Olmert, e outras autoridades do país dizem que Israel não negociará com o Hamas. Juntamente com os EUA e a União Européia, Israel considera o Hamas uma organização terrorista.

A Autoridade Palestina, que enfrenta necessidades financeiras, recebe grande parte de seu dinheiro dos EUA e da Europa, assim como dinheiro de impostos coletado por Israel e transferido aos palestinos. A ascensão do Hamas ao poder levantou questões sobre se o fluxo de fundos poderá ser reduzido ou cortado, mas o Hamas afirma não estar preocupado.

O partido diz que vai buscar mais ajuda e desenvolver os laços comerciais com o mundo árabe e muçulmano. O grupo também diz que grande parte da ajuda anterior foi desperdiçada devido à corrupção endêmica na Autoridade Palestina.

"Todo o dinheiro da Europa e dos americanos foi para os bolsos de homens corruptos", disse Zahar, que citou chefes da segurança palestina como principal exemplo. "Os líderes desses serviços ficaram milionários. Vamos reformar esses serviços. Essa é nossa missão."

Enquanto o Hamas se prepara para formar um governo, o novo gabinete e a nova legislatura enfrentarão grandes desafios simplesmente para colocar seus membros juntos no mesmo lugar.

Na eleição de quarta-feira, 31 candidatos palestinos estavam na prisão, segundo a Comissão Eleitoral Central. Quinze deles representam mais de 10% dos novos assentos conquistados no Parlamento, relatou na sexta-feira o jornal "Jerusalem Post". E Israel disse que a eleição não causará qualquer mudança em sua situação ou redução de suas sentenças.

Além disso, outros vencedores das eleições são procurados por Israel por suspeita de envolvimento em atos violentos. A maioria está em semi-reclusão e teme a prisão caso tente viajar para Ramallah, na Cisjordânia, onde se situa o Parlamento palestino.

Os palestinos também têm um edifício parlamentar na Cidade de Gaza, mas desde que as tropas israelenses deixaram Gaza no verão passado os palestinos locais não enfrentam restrições para se movimentar dentro do território.

Nos últimos anos o Parlamento palestino realizou diversas sessões com conexão por videoconferência, com deputados da Cisjordânia em Ramallah e de Gaza na Cidade de Gaza.

O novo gabinete palestino poderá enfrentar um problema semelhante. A maioria dos principais líderes do Hamas está em Gaza, mas o gabinete também deverá ter ministros da Cisjordânia.

Israel de modo geral permitiu que os ministros palestinos viajassem entre Gaza e a Cisjordânia, mas parece improvável que faça o mesmo com os ministros do governo do Hamas.

*Colaborou John O'Neill, de Nova York. Dois dias após eleição, tensão política na Palestina fica evidente Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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