UOL Notícias Internacional
 

28/01/2006

Hamas enfrentará déficit semelhante a falência

The New York Times
Steven Erlanger*

Em Jerusalém
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    Um dia depois de o Hamas ter conquistado uma vitória esmagadora nas eleições palestinas, seus líderes enfrentaram uma série de ameaças nesta sexta-feira (27/01): um imenso déficit do governo, um provável corte de toda a ajuda, ostracismo internacional e a fúria dos derrotados e armados militantes do Fatah. Entre as muitas questões que a vitória do Hamas apresenta, a necessidade de pagamento das contas básicas e salários aos palestinos é talvez a mais urgente. A Autoridade Palestina está virtualmente falida, com um déficit de US$ 69 milhões apenas em janeiro.

    Shawn Baldwin/The New York Times 
    Bandeira do Hamas e arma automática são erguidas durante celebração da vitória, em Gaza

    Esta será uma questão urgente quando Estados Unidos, União Européia, Rússia e a Organização das Nações Unidas, conhecidos como o quarteto, se reunirem em Londres na segunda-feira para discutir a eleição palestina, especialmente se, como algumas autoridades americanas temem, o Hamas se voltar para o Irã para compensar a diferença.

    "Eles não têm o suficiente para chegar até o final do mês", disse um diplomata ocidental com conhecimento. "Os Estados Unidos e a União Européia consideram o Hamas uma organização terrorista, e não fornecemos dinheiro para organizações terroristas ou membros de organizações terroristas."

    Em Washington, o presidente Bush disse que "pacotes de ajuda não serão fornecidos" para a Autoridade Palestina se o Hamas não renunciar à violência ou seu compromisso de destruir Israel.

    "Esta decisão cabe a eles", ele disse na "CBS News". "Mas não forneceremos ajuda para um governo que deseja destruir nosso aliado e amigo."

    Enquanto isso, na cidade de Khan Yunis, no sul de Gaza, simpatizantes do Hamas entraram em choque com homens armados do Fatah e com as forças de segurança palestinas em dois incidentes separados, deixando seis pessoas feridas, segundo testemunhas e funcionários de saúde.

    Em Davos, Suíça, James D. Wolfensohn, o emissário do quarteto para o Oriente Médio, falou sobre os problemas financeiros dos palestinos, dizendo que não há dinheiro suficiente para pagar os salários dos 135 mil funcionários públicos palestinos, incluindo cerca de 58 mil membros das forças de segurança, o que ele disse que poderá levar a um maior caos.

    Como o Hamas ainda não formou um governo, o presidente palestino, Mahmoud Abbas, tem pedido por ajuda americana para persuadir os países do Golfo Pérsico a fornecerem mais ajuda imediata, assim como assegurar que Israel pague os US$ 40 milhões a US$ 50 milhões devidos à Autoridade Palestina em impostos e taxas alfandegárias, que Israel coleta em nome dos palestinos.

    Israel deixou claro que não lidará com uma Autoridade Palestina comandada pelo Hamas e tem dito que alguns dos que venceram a eleição são procurados por suspeita de envolvimento em violência anti-Israel. A maioria deles está em semi-reclusão, e temem ser presos se tentarem viajar para Ramallah, a sede do Parlamento palestino na Cisjordânia.

    Também em Davos, Joseph Bachar, diretor geral do Ministério das Finanças israelense, questionou se Israel continuará transferindo impostos e taxas alfandegárias para uma autoridade dirigida pelo Hamas, que não reconhece a existência de Israel.

    O ministro da Economia palestino de saída, Mazen Sinokrot, disse que os 135 mil funcionários públicos são o arrimo de 30% das famílias palestinas. "Se estes salários não forem pagos, esta será uma mensagem para violência", ele disse.

    As autoridades israelenses sugeriram que Ehud Olmert, o primeiro-ministro em exercício de Israel, concordará em liberar o dinheiro neste mês, já que o governo do Hamas ainda não foi formado, mas questionaram se Israel concordará em dar qualquer dinheiro ao Hamas no futuro. "Nós não queremos punir o povo palestino", disse uma autoridade. "Mas não temos nenhuma ilusão quanto ao Hamas."

    Mahmoud Zahar, um alto dirigente do Hamas, disse em uma entrevista em Gaza que não está preocupado com a falta de dinheiro do Ocidente.

    "Todo o dinheiro europeu e americano foi para os bolsos de homens corruptos", disse Zahar, citando os chefes de segurança palestinos como principal exemplo. "Os líderes destes serviços se tornaram multimilionários. Nós vamos reformar estes serviços. Esta é nossa missão."

    O atual aperto financeiro tem pouco a ver com o Hamas. A Autoridade Palestina não cumpriu no verão passado suas promessas ao Banco Mundial e aos países doadores, elevando significativamente os salários dos funcionários públicos, um número inchado pelo esforço de incorporar os jovens armados nas forças de segurança.

    Todo seu US$ 1 bilhão em receita atualmente é gasto em salários, segundo o Banco Mundial, deixando um déficit orçamentário esperado para 2006 entre US$ 600 milhões a US$ 700 milhões; apenas cerca de US$ 320 milhões disto serão cobertos por contribuições estrangeiras dos Estados Unidos, Europa e países árabes.

    O plano presumia uma vitória do Fatah nas eleições e a formação de um novo governo mais tecnocrático. Os países doadores e o Banco Mundial estavam trabalhando em um programa de reestruturação para a Autoridade Palestina, que cobriria seu grande débito financeiro pelos próximos anos em troca de reformas sérias e programas de criação de empregos.

    Mas a vitória do Hamas explodiu todas as suposições.

    Pagamentos diretos pelos Estados Unidos estão proibidos pela lei americana, e muitos países europeus disseram que não continuarão ajudando a Autoridade Palestina até que o Hamas concorde em reconhecer Israel e repudiar a violência, o que o Hamas disse que nunca fará.

    As autoridades americanas e européias também estão proibidas de falar com dirigentes do Hamas, eleitos ou não. Assim que um grupo passa a figurar na lista terrorista americana, como é o caso do Hamas, é difícil sair; é necessário mais do que promessas ou declarações, disse um diplomata ocidental.

    O ministro do Desenvolvimento do novo governo alemão, Heidemarie Wieczorek-Zeul, disse na sexta-feira que a ajuda alemã aos palestinos dependerá da renúncia à violência e ao reconhecimento de Israel pelo Hamas.

    A chanceler Angela Merkel tem agendada sua primeira visita oficial à região na próxima semana, e seu porta-voz, Ulrich Wilhelm, disse na sexta-feira: "O reconhecimento do direito de Israel à segurança e existência continua sendo um elemento irrevogável da política externa alemã". Merkel se encontrará com Abbas, mas com nenhum dirigente do Hamas.

    Os candidatos e dirigentes do Hamas atenuaram o problema, dizendo que apelarão ao mundo árabe e muçulmano, que já dá grandes somas em ajuda ao Hamas e suas organizações educativas e de caridade -e parte delas, segundo Israel, financiam suas operações militares.

    O Hamas já recebe ajuda do Irã, disseram autoridades americanas e israelenses, e é possível que o Irã possa estar disposto a fornecer somas maiores à Autoridade Palestina. Mas diplomatas israelenses e ocidentais disseram que o Hamas, como uma divisão palestina da Irmandade Muçulmana Sunita, pode não querer ficar excessivamente dependente do Irã xiita.

    O ex-presidente Jimmy Carter, que liderou uma equipe de observadores eleitorais na eleição palestina, disse em uma entrevista na sexta-feira que os Estados Unidos e a Europa devem redirecionar sua ajuda para órgãos da ONU e organizações não-governamentais para contornar as restrições legais.

    "A comunidade doadora pode lidar com isto com sucesso", disse Carter. "Eu espero que a comunidade mundial possa coletivamente sustentar temporariamente os palestinos." Ele pediu apoio ao que Wolfensohn lhe descreveu como um apelo de US$ 500 milhões.

    "Pode ser que o Hamas possa mudar", disse Carter, lembrando sua presidência, quando a Organização para a Libertação da Palestina, sob Iasser Arafat, finalmente concordou em reconhecer a existência de Israel e a abdicar do terrorismo. "É um erro abandonar totalmente o otimismo."

    Ele pediu a Israel e ao mundo: "Não afastem os palestinos da racionalidade. Não os forcem a empunharem armas como a única forma de atingirem suas metas legítimas. Lhes dêem algum encorajamento e o benefício da dúvida".

    Mas será politicamente difícil fazer isto. O senador Joseph R. Biden Jr., democrata de Delaware, disse que conversou com os europeus e Wolfensohn sobre o aperto fiscal. "A verdade é que não é possível destinar milhões e centenas de milhões de dólares a um grupo que pede pela destruição de um aliado, ou de qualquer país", disse Biden.

    O diplomata ocidental disse: "Nós estamos discutindo muitas questões complicadas. Mas mesmo antes da eleição, a casa fiscal da Autoridade Palestina estava em desordem, com um imenso déficit mensal".

    Será ainda pior, ele disse, se os israelenses deixarem de transferir dinheiro e se houver uma suspensão da ajuda direta do Ocidente e do Banco Mundial.

    *Greg Myre contribuiu com reportagem em Gaza, e Steven R. Weisman, em Washington. A Autoridade Palestina está virtualmente falida, com um déficit de US$ 69 milhões apenas em janeiro; Ocidente pode negar ajuda George El Khouri Andolfato
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