UOL Notícias Internacional
 

28/01/2006

O clube da mentira da Oprah

The New York Times
Maureen Dowd

Em Nova York
NYT Image

Maureen Dowd é colunista
Nós devíamos saber que o sujeito não era realmente um bad boy, um brigão tatuado "É hora de jogar no chão", quando teve que levar sua mãe ao programa de Larry King para protegê-lo.

Na quinta-feira (26/01), a mãe orgulhosa do memorialista desmascarado foi substituída por uma matriarca nacional punidora. Assistir a Oprah descompondo Frey foi fascinante. Aqui em The New York Times e na editora Doubleday, os funcionários ficaram colados na televisão.

Foi um grande alívio, após nosso longo mergulho nacional na mentira e inconseqüência, nas lanchas de patrulha e dinheiro fácil, na ilusão e negação de Bush, ver a Imperatriz da Empatia responsabilizar gelidamente alguém de mentir e trapacear --e embaraçá-la. (Mesmo que ela e seus produtores deveriam saber que o livro já tinha sido questionado.)

Em uma sociedade obcecada por pecado e redenção, esta foi um vitória completa: Oprah reconhecendo seu julgamento errado e salvando sua reputação, enquanto despedaçava James Frey por pecar em seu livro sobre pecado e redenção.

Oprah entrevistou e mostrou clipes gravados de seus críticos na mídia (inclusive eu) e dando crédito à sua mudança de posição ao ensaio da principal critica literária do NYT, Michiko Kakutani, que escreveu: "É um caso sobre quanto valor a cultura contemporânea deposita na própria idéia de verdade".

Quando o presidente Bush interrompeu o programa da Oprah com uma coletiva de imprensa, talvez fosse um esforço dele para afastar a atenção da verdade. Foi realmente estranho ver aqueles dois momentos de TV ao vivo: um autor desgraçado, e um comandante-em-chefe que continua escrevendo um capítulo após o outro de propaganda fictícia.

Após Nan Talese ter sido repreendida por Oprah, a Doubleday disse que acrescentaria duas notas --uma do editor e uma do autor-- em futuras edições do livro. Mas não é o bastante se apoiar em pequenos disclaimers (avisos legais). O livro deveria ser mudado de categoria, assim como "Meia-Noite no Jardim do Bem e do Mal" deveria ser reclassificado como ficção, depois que John Berendt reconheceu todas as liberdades que tomou.

"Um Milhão de Pedacinhos" e "My Friend Leonard" --o best seller de não-ficção de Frey que começa com uma pena de prisão já desmascarada-- deveriam ser vendidos como romances ou memórias fictícias, o termo que Frederick Exley usou para o grande livro "A Fan's Notes".

Será que "Um Milhão de Pedacinhos" passará para a lista de best sellers de ficção do NYT? Os editores me disseram que a lista visa simplesmente contar os livros vendidos, não checar se as memórias --de roqueiros chapados ou políticos mentirosos-- são verdadeiras. Mas a lista do NYT indicará que Frey reconheceu ter forjado partes do livro.

O efeito Frey arrepiou editores e agentes, já que alguns deles têm encorajado autores a transformarem romances em memórias de grande vendagem.

"A decisão de publicar memórias sempre se baseou em quão bom é o texto e a história", disse Christy Fletcher, um agente literário de Nova York. "Mas isto não é mais o bastante."

Frey disse em uma entrevista transmitida na sexta-feira pela "Oxygen" que ele e seu agente deram o livro a alguns editores como um romance e para outros como memórias. No insular mundo editorial, isto não serviu de advertência para ninguém --porque ninguém realmente queria ser advertido.

Havia um pouco de pânico nas editoras nesta semana. A St. Martin's Press colocou às pressas um alerta no mais recente livro de memórias de Augusten Burroughs, "Possible Side Effects", que será lançado em breve: "Nota do autor: alguns dos eventos descritos aconteceram como relatados, outros foram expandidos e alterados. Alguns dos indivíduos retratados são composições de mais de uma pessoa e muitos nomes e características identificadoras também foram mudados".

A Ballantine anunciou que não mais enviará para as lojas duas memórias de Nasdijj, supostamente um escritor nativo-americano inspirador do Sudoeste que disse que, na infância, passou "fome, foi estuprado, surrado, chicoteado e forçado em todas as oportunidades a trabalhar no campo". A "L.A. Weekly" descobriu que Nasdijj era na verdade Timothy Barrus, um homem branco de classe média de Michigan que escrevia pornografia gay.

As livrarias também não sabem como proceder.

"Eu acho que definitivamente não deve estar na lista de best sellers de não-ficção", disse Mitchell Kaplan, proprietário da Books & Books, em Coral Gables, Flórida.

Roxanne Coady, proprietária da RJ Julia Booksellers, em Madison, Connecticut, disse que "provavelmente o mudarei para ficção", e ela acha que a Doubleday deveria fazer o mesmo: "Ou é um livro de memórias, onde alguém está fazendo seu esforço mais honesto para lembrar das coisas e é desta forma que se lembra, ou não é verdade e não é um livro de memórias".

E quanto a uma terceira categoria? Não-não-ficção? Auto-ajuda e autodramatização? Mentira pura? Em uma sociedade obcecada por pecado e redenção, esta foi um vitória completa: a apresentadora Oprah Winfrey reconhecendo seu julgamento errado e salvando sua reputação George El Khouri Andolfato

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