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29/01/2006

Na guerra contra a gripe aviária, ONU quer recrutar exército de matadores

The New York Times
Donald G. McNeil Jr.
A Organização das Nações Unidas (ONU) está à procura de alguns assassinos profissionais. Há um mundo de galinhas que precisam ser mortas, e isto deve ser feito de forma limpa --e humana.

Com as aves migratórias espalhando a gripe aviária, a doença se disseminou da Ásia para a Turquia e da Sibéria para o equador, freqüentemente em locais isolados, rurais e despreparados.

Muitos governos, disseram especialistas em veterinária, não sabem como matar milhões de animais --especialmente quando a meta é espirrar o mínimo de sangue possível e como descartar as carcaças para que não disseminem o vírus altamente contagioso para aves ou seres humanos.

Problemas estão surgindo em toda parte. No Vietnã, por exemplo, as aves domésticas circulam livremente pelas plantações de arroz, onde persegui-las é quase impossível. Os lençóis de água elevados significam que elas não podem ser enterradas, e os agricultores pobres locais não podem abrir mão da gasolina ou da lenha para incinerá-las.

Em aldeias da China até a Turquia, abatedores trajando roupas de proteção contra risco biológico recrutam crianças de pés descalços para pegar as galinhas para eles. Crianças mais velhas chutam perus mortos como se fossem bolas de futebol ou brincam com as cabeças decepadas. Os agricultores escondem galos premiados ou subornam os abatedores para pouparem suas criações.

As galinhas são enterradas vivas ou queimadas vivas.

"Nós precisamos de uma força-tarefa internacional de abatedores, um serviço público confiável, robusto, incorruptível para matar galinhas", disse dr. David Nabarro, representante especial para gripe aviária do secretário-geral da ONU.

O dr. Juan Lubroth, o alto oficial de saúde animal da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, disse que gostaria de dispor de pelo menos 20 veterinários adicionais imediatamente para enviar para a Indonésia e Turquia apenas para treinar "brigadas de abatedores", e precisará de mais para cada país que a doença atingir.

O custo total, ele disse, dependeria de poder pegar emprestado veterinários de governos de países ricos ou de ter de contratá-los particularmente, e do envio de uns poucos para liderar treinamentos na capital ou dezenas para pequenas vilas para supervisionar o abate. Ele também está negociando com uma empresa holandesa para o uso de suas máquinas portáteis de abate de frangos no Sudeste Asiático, ele disse.

Até recentemente, disse Lubroth, ele não tinha dinheiro para nada disto. Mas desde 18 de janeiro, quando 33 países e instituições internacionais, em uma reunião em Pequim, prometeram US$ 1,9 bilhão (cerca de R$ 4,2 bilhões) para o combate à gripe aviária, "repentinamente passei a ser capaz de tomar algumas decisões".

Sua agência já conta com consultores em campo, mas eles estão sobrecarregados.

O dr. Peter Roeder, um veterinário da agência de agricultura da ONU que normalmente trabalha a partir de Roma combatendo a peste bovina, se viu recentemente combatendo a gripe aviária em Banda Aceh, Indonésia, que ainda está se recuperando do maremoto de 2004.

A doença atingiu a Indonésia, o quarto país mais populoso do mundo, de surpresa, ele disse. O país não tinha nenhum plano de resposta ou cadeia de comando clara para os veterinários, e possui um mal de Newcastle endêmico, que imita a gripe em aves. Grandes produtores protegem suas criações rapidamente, ele disse, mas a gripe se tornou entrincheirada nos "frangos kampong", as milhões de aves caseiras que perambulam livremente e que se empoleiram em árvores.

"O vírus escapou antes dos primeiros casos serem detectados", ele disse em uma entrevista por telefone.

Quando mesmo uma única ave com o vírus A (H5N1) é encontrada em uma fazenda, toda a criação dela e de um grande círculo ao redor deve ser exterminada.

Há muitas formas de abater um frango. As aprovadas pela Organização Internacional de Epizootias, com sede em Paris, que rastreia doenças que são transmissíveis de animais para seres humanos, incluem disparo com pistola pneumática, choque com eletrodos, banho em água eletrificada, asfixia com dióxido de carbono ou nitrogênio, injeção letal ou ração com barbitúricos. Para pequenos números, estrangulamento ou decapitação são aprovados desde que os animais já estejam inconscientes.

Mas países pobres nem sempre podem arcar com tais gentilezas, apesar de alguns empregarem variantes. No Vietnã, disse o dr. Tony Forman, um veterinário da ONU que presta consultoria lá, abatedores começaram a reunir os frangos em grandes sacos plásticos e os asfixiam com dióxido de carbono, que está disponível em qualquer indústria de engarrafamento de refrigerante.

Na Tailândia, disse a dra. Wantanee Kalpravidh, a chefe regional de vigilância de gripe para a agência de agricultura da ONU, os abatedores reúnem os frangos na traseira de caminhões e inserem um tubo ligado ao escapamento.

Mas na Indonésia, disse Roeder, "os abatedores matam do modo tradicional --degolando as aves".

Isto é arriscado --mãos cortadas podem ser infectadas pelo sangue das aves, apesar de não haver nenhum caso confirmado de gripe aviária entre os abatedores.

Tratar os pequenos agricultores educadamente também é crucial, disseram os especialistas veterinários.

Ann M. Veneman, uma ex-secretária de agricultura dos Estados Unidos que é a nova chefe do Unicef, é outra defensora da criação de uma força-tarefa para abate de aves. Ela supervisionou uma luta de um ano contra um surto de mal de Newcastle quando foi secretária de agricultura e alimentação da Califórnia, nos anos 90.

Três milhões de frangos em 22 granjas e avícolas tiveram que ser abatidos, ela disse, mas o mais difícil foi matar as 150 mil aves em 18 mil lares em quarentena.

"Nós não tínhamos idéia de quantas aves de quintal existiam, mesmo no condado de Los Angeles", disse ela.

As "aves de quintal" em todo mundo podem fugir mais rapidamente do que as aves comerciais de peito maior, e seus donos geralmente são muito ligados a elas.

"As pessoas amam seus animais", disse o dr. Richard Breitmeyer, um veterinário estadual que supervisionou o abate na Califórnia. "Em muitos casos, são seus animais de estimação."

Apesar de terem o direito legal de entrarem nas propriedades sem a permissão dos proprietários e matarem cada ave, "nós precisamos tratar os proprietários e aves com respeito", ele disse. "Caso contrário, será difícil ter certeza se todas as aves foram avistadas no quintal."

Mas agricultores persuadidos a cooperar podem reunir as aves à noite, ou atraí-las com milho.

Em comparação, disse Roeder, as equipes do governo indonésio freqüentemente chegavam nas aldeias ao meio-dia, "quando as aves estão correndo por toda parte".

Então, ele disse, "elas dão ordens às pessoas com a postura de que as autoridades sabem mais".

Além disso, os agricultores não cooperarão sem compensação, e a maioria dos países está pagando relativamente pouco.

Na Turquia, os agricultores recebem até US$ 3,50 (cerca de R$ 7,7) por frango, o que Lubroth disse representar cerca de 60% do valor de mercado. "Mas os donos só recebem vales", ele disse em uma entrevista por telefone em Ancara. "Eu não vi dinheiro sendo pago."

O Vietnã paga US$ 1 (cerca de R$ 2,21), cerca da metade do valor de mercado lá. A Indonésia, que é mais rica, paga cerca de 80 centavos de dólar (cerca de R$ 1,8), menos de um terço do valor de mercado.

Na China, o governo paga oficialmente 60 centavos de dólar (cerca de R$ 1,3), e os agricultores se queixam de que os vales não são pagos.

No Camboja e Laos, que são pobres, é oferecido aos agricultores apenas entre 10% a 20% do valor de mercado, e apenas por bandos, disse Kalpravidh, a fiscal de gripe na Tailândia, de forma que "não temos muita cooperação".

E no caso de galos de briga --entrincheirados na cultura do Sudeste Asiático e que chegam a valer até US$ 5 mil (cerca de R$ 11 mil), ela disse-- os criadores "escondem sua aves", não dispostos a sacrificar o dinheiro e o reprodutor.

No surto de mal de Newcastle na Califórnia, disse Breitmeyer, galos de briga valiosos eram freqüentemente encontrados nos bairros latinos e avaliadores federais pagavam o valor de mercado.

Lubroth defende um pagamento próximo ao valor de mercado para as aves de bandos infectados, um pouco mais para os de bandos saudáveis vizinhos e nada por aves mortas --um plano que encoraja os agricultores a cooperarem prontamente.

O descarte das carcaças para que não sejam desenterradas e comidas por pessoas, animais selvagens ou outras aves também é importante. Covas rasas e a transformação em adubo também são desencorajadas, já que Forman disse ter visto agricultores "extraindo metano de adubo e fervendo chá com ele". A incineração em fornalha é boa, mas é cara. Queima a céu aberto não é, e não é bom transportar as aves dos locais de abate porque a gripe é contagiosa, de forma que pode viajar em escamação da pele e penas sopradas das carcaças. Segundo especialistas em veterinária, muitos governos não sabem como matar milhões de animais George El Khouri Andolfato

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