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31/01/2006

Substituto deve manter política monetária de Alan Greenspan no banco central dos EUA

The New York Times
Sheryl Gay Stolberg

Em Washington
O candidato importante indicado pelo presidente, cujo nome deverá ser votado no Senado nesta terça-feira (31/01) é tido por muita gente como brilhante, possui vínculos com a Universidade de Princeton e, caso seja confirmado, como se espera, influenciará as vidas dos cidadãos norte-americanos comuns durante muitos anos.

Seria o juiz Samuel A. Alito Jr. para a Suprema Corte? Não, este é o outro indicado importante --Ben S. Bernanke, para o cargo de presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos).

Doug Mills/The New York Times - nov.2005 
Ben Bernanke é sabatinado pelo Senado; nomeação na chefia do Fed é consenso de mercado, governo e oposição
Wall Street pode estar intensamente interessada em todas as palavras sequer sussurradas por Bernanke, o ex-economista de Princeton e diretor do Conselho de Assessores Econômicos da Casa Branca, que é a escolha do presidente Bush para suceder a Alan Greenspan.

Mas em Washington ele mal aparece nas telas dos radares políticos. De fato, eis o que o senador George Allen, de Virgínia, que está pensando em disputar a candidatura republicana para a corrida presidencial de 2008, disse quando lhe indagaram sobre a sua opinião a respeito da indicação de Bernanke: "Para que cargo?".

Quando lhe informaram que Bernanke fora indicado para o cargo de presidente do Fed, Allen titubeou um pouco, disse que não vinha se concentrando nessa questão, e perguntou quando seriam as sabatinas no Congresso. Ao ser informado que as audiências no Comitê do Senado para o Sistema Bancário haviam sido concluídas em novembro, o senador respondeu: "Você quer dizer que eu as perdi? Não prestei atenção nelas".

E ele não foi o único. O senador John McCain, republicano pelo Arizona, que poderá disputar a candidatura republicana em 2008, também não tinha a menor idéia de que as sabatinas de Bernanke já haviam sido feitas.

Enquanto os parlamentares e a população se concentravam na indicação de Alito, cujo nome também deverá ser votado na terça-feira, Bernanke se transformava em uma raridade na Washington moderna: o indicado que não gerou polêmicas.

É bem verdade que a política monetária não gera mais paixões políticas da forma que costumava fazer na época da inflação de dois dígitos. Mesmo assim, a função que Bernanke, 52, está pronto para assumir gera conseqüências. Como presidente do Federal Reserve, Bernanke, considerado um dos mais preeminentes economistas monetários do país, será sem dúvida a figura econômica mais poderosa do mundo, e toda declaração sua terá o poder de alterar os mercados.

Ao contrário de Alito, Bernanke não estará assumindo um cargo vitalício. O mandato de presidente do Fed é de apenas quatro anos. Mas Bernanke está também sendo indicado para um mandato de 14 anos como membro da comissão diretora do Fed, e segundo as regras do banco poderia ser reeleito presidente enquanto participasse da comissão. Greenspan, que cumpriu um mandato parcial e outro integral como diretor-executivo do Fed, foi presidente da instituição por 18 anos.

Esse é um período suficiente para causar um impacto extraordinário, e os presidentes do Fed geralmente causam impacto. As suas decisões afetam vários aspectos da vida financeira norte-americana, incluindo aumento dos pagamentos do Social Security, e os juros que os cidadãos pagam pelo financiamento de suas casas ou de um carro novo.

O senador Richard C. Shelby, republicano do Alabama, e diretor do comitê do sistema bancário, disse: "O presidente do Fed é bem mais importante, no contexto da economia diária, do que um membro da Suprema Corte".

Allan H. Meltzer, professor de economia política e de políticas públicas da Universidade Carnegie Mellon, e que está escrevendo uma história do Federal Reserve, tem uma sensação semelhante: "Bernanke é certamente mais importante do que Alito", afirma o professor.

Meltzer reclamou de que o comitê do sistema bancário facilitou as coisas para Bernanke durante a audiência de confirmação, que durou apenas um dia. Durante a sessão, Bernanke disse que a sua maior prioridade será garantir a continuidade da era Greenspan.

"Creio que eles poderiam ter pressionado Bernanke um pouquinho mais no que diz respeito a como ele encara a função e a quais objetivos tentará alcançar", disse Metzer. "Isso inclui a avaliação dos problemas resultantes da reconciliação do pleno emprego com a inflação baixa. A mim parece que os parlamentares realmente não exerceram pressão sobre Bernanke".

Talvez isto se deva ao fato de um número relativamente pequeno de pessoas fora do mundo das finanças parecer saber quem é Bernanke. Não há grupos com interesses externos fazendo propagandas na televisão contra ou a favor do futuro presidente, nenhum protesto, e tampouco pesquisas. A sua indicação foi alvo de tão pouca atenção por parte do Centro Pew de Pesquisas sobre Pessoas e a Imprensa, que monitora como a população acompanha novos fatos, que a instituição não se preocupou em monitorar o fato.

"Creio que ele conta com um reconhecimento negativo quanto ao seu nome", disse Andrew Kohut, o diretor do centro. "Não cobri o fato, e creio que ninguém o fez".

Os economistas estão um pouco perplexos, mas não inteiramente surpresos. As audiências relativas a Alito foram cercadas de controvérsias, como aquela referente à participação do juiz em um grupo de alunos da Universidade de Princeton que lutou contra propostas pelos direitos das minorias e das mulheres, ou a um memorando de 20 anos atrás, no qual ele disse que a Constituição não permite o direito ao aborto.

Já as audiências de Bernanke, de forma contrastante, se focalizaram no mundo da política monetária, um setor no qual a maior parte das grandes batalhas ideológicas foi resolvida há muito tempo.

"A política monetária se tornou muito menos política do que costumava ser há anos ou há séculos", disse Alan S. Blinder, professor de economia em Princeton, onde ele foi colega de Bernanke.

"Existe um consenso quanto àquilo que a política monetária deveria estar fazendo, que é manter a inflação em um patamar reduzido e o nível de emprego elevado. Assim, os políticos acreditam que isso é coisa para tecnocratas, e não importa se o sujeito é republicano ou democrata".

Bernanke é republicano, embora vários dos seus colegas próximos do circuito acadêmico afirmem que não sabiam qual era a sua orientação política até ele ter passado a trabalhar para Bush. A sua indicação foi anunciada no outono passado, dias antes de Harriet E. Miers, a conselheira da Casa Branca, desistir da sua indicação para a Suprema Corte, em meio a acusações de favorecimento político. A escolha de Bernanke ajudou Bush a repelir essas acusações.

Mesmo assim, o seu relacionamento com o presidente foi discutido nas audiências de confirmação, quando os democratas o pressionaram a dizer se ele seria independente da Casa Branca.

Mas foi um republicano, o senador Jim Bunning, do Kentucky, um crítico antigo do Fed, o autor do único voto no comitê contra ele, alegando que não via Bernanke como suficientemente independente de Greenspan. O senador Charles E. Schumer, democrata por Nova York, que atuou tanto nos comitês do Judiciário e do Sistema Bancário, e que liderou a acusação contra Alito, fez uma defesa vigorosa de Bernanke.

"Eles evitaram o equivalente de Samuel Alito no sentido monetário", afirmou Schumer. "Eles não escolheram um monetarista no sentido estrito da palavra. Escolheram alguém que é favorável à redução de impostos. Alguém que faz parte da corrente econômica dominante. E se há uma prova de que os democratas são capazes de apoiar um indicado por Bush, esta prova é Bernanke".

Assim, ao contrário de Alito, que deverá ser confirmado em uma votação que seguirá as linhas partidárias, Bernanke deve contar com o apoio esmagador do Senado, ainda que alguns membros proeminentes daquela casa não sejam muito afeitos às suas idéias.

McCain --que brincou durante um debate presidencial em 2000, dizendo que se Greenspan morresse, ira colocá-lo na posição ereta e fazer o defunto usar óculos escuros, em uma analogia à comédia "Weekend at Bernie's" ("Um Morto Muito Louco", EUA, 1989")-- disse não saber muita coisa sobre Bernanke, mas que ficou satisfeito ao ser informado de que ele é respeitado por Greenspan.

"Bernanke não foi alvo de muita atenção", disse McCain. "Mas creio que ele será cuidadosamente escrutinado nas audiências, e a opinião que outras pessoas têm a seu respeito terão muito peso no mundo financeiro, especialmente a opinião de Greenspan".

Quando informaram a McCain que as audiências já haviam acontecido, ele ficou calado por um instante, com os olhos arregalados, antes de bater com o punho na testa, admitindo a sua trapalhada: "Você está certo, certo, certo. Duuuuuu". Economista Ben Bernanke tem apoio de democratas e republicanos Danilo Fonseca

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