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01/02/2006

'Estado da União' é viciado em petróleo, diz Bush

The New York Times
Elisabeth Bumiller e Adam Nagourney

Em Washington
O presidente Bush ofereceu à nação um cardápio modesto de propostas de energia, saúde e educação e alertou contra o "falso conforto do isolacionismo" no discurso do Estado da União, na noite desta terça-feira (31/01), que buscou reafirmar seu controle sobre a agenda do país no início de uma campanha eleitoral chave.

Stephen Crowley/The New York Times 
Presidente (abaixo, à esq.) profere discurso anual do Estado da União no plenário da Câmara dos EUA
Em uma de suas declarações mais marcantes, Bush disse que "a América está viciada em petróleo" e estabeleceu como meta substituir 75% das importações de petróleo oriundas do Oriente Médio por etanol e outras fontes de energia até 2025.

Mas mesmo tal meta é mais modesta do que parece --os Estados Unidos obtêm menos de 20% de seu petróleo do Golfo Pérsico-- e o discurso foi notável mais pela falta de novas grandes propostas por um presidente que, por cinco anos, não se esquivou de iniciativas politicamente arriscadas e provocativas.

Ao seu pedido familiar sobre o fim da "tirania em nosso mundo", Bush acrescentou uma nova moldura que busca tratar das ansiedades causadas por uma economia em rápida mudança e uma sociedade que está envelhecendo. A resposta, para Bush, não é se fechar.

"Em tempos complexos e desafiadores, a estrada para o isolacionismo e protecionismo pode parecer ampla e convidativa, mas ela termina em risco e declínio", disse Bush, com voz firme e forte após dias praticando seu discurso e edição e reedição das palavras. "A única forma de proteger nosso povo, a única forma de garantir a paz, a única forma de controlar nosso destino é com a nossa liderança, de forma que os Estados Unidos da América continuarão liderando."

A única alternativa para a liderança americana, ele disse, "é um mundo drasticamente mais perigoso e ansioso".

Em algo que lembrava a resposta do presidente Dwight D. Eisenhower após os Estados Unidos ficarem atônitos diante do lançamento do Sputnik, nos anos 50, Bush pediu por um aumento do financiamento para a ciência básica e por um melhor ensino de ciências e matemática nas escolas do país.

Ele alertou que os dois partidos devem encontrar uma forma de trabalhar juntos para lidar com o crescente custo de sustentar uma sociedade em envelhecimento. Ele promoveu suas propostas de dar aos indivíduos maior controle e responsabilidade sobre seus próprios custos de saúde. E em uma época em que os altos preços globais de energia estão desacelerando a economia e pressionando os consumidores, ele pediu por uma maior independência em energia.

"Os americanos não devem temer nosso futuro econômico, porque nós temos a intenção de moldá-lo", disse o presidente.

O discurso também foi notável pelo que Bush não mencionou. Ele não ofereceu novas idéias para a reconstrução de Nova Orleans após a passagem do furacão Katrina, assim como não fez nenhuma proposta para impedir os abusos de lobby no Congresso que levaram à investigação de Jack Abramoff, um ex-lobista poderoso e um grande arrecadador de fundos de campanha para Bush. Em 3 de janeiro, Abramoff se declarou culpado de conspiração, fraude e evasão fiscal, com os promotores dizendo que ele usou contribuições de campanha, viagens luxuosas e jantares para influenciar os legisladores e seus assessores.

Bush fez seu discurso após um dos anos mais difíceis de sua presidência, mas em um dia de triunfo político, poucas horas após seu indicado, o juiz Samuel A. Alito Jr., ter sido confirmado pelo Senado como o 110º ministro na história da Suprema Corte. O ministro Alito, trajando a toga preta de seu novo tribunal, sentou-se ao lado dos demais ministros na primeira fila do plenário da Câmara dos Deputados.

O presidente entrou no plenário lotado logo após as 21 horas [0h de Brasília], para os tradicionais tapinhas nas costas, apertos de mão e beijos enquanto caminhava para a tribuna. O desfile sob as fortes luzes da televisão lançou a mais recente campanha de Bush para conquistar o apoio do Congresso para sua agenda, desta vez perante uma audiência de democratas obstinados e republicanos nervosos, que se encontram atolados em uma disputa contenciosa pela liderança e em investigações de tráfico de influência envolvendo suas mais altas fileiras no Capitólio.

Bush se apresentou perante o Congresso como um presidente bem menos popular do que durante seus discursos do Estado da União do ano passado, quando estava fortalecido pela sua vitória sobre o senador John Kerry, de Massachusetts, na eleição presidencial de 2004. Na época ele falou de forma otimista sobre a guerra no Iraque e sobre a reforma do sistema do Seguro Social do país, uma iniciativa que fracassou.

Quando tratou de política externa, Bush não apresentou nada novo e usou a mesma linguagem de discursos anteriores. Ele apresentou a possibilidade de redução dos 140 mil soldados americanos no Iraque ao longo do próximo ano, mas não fez promessas. Ele alertou seriamente o Irã a não tentar concretizar suas ambições de armas nucleares, o chamando de "um país que atualmente é refém de uma pequena elite clerical que está isolando e reprimindo seu povo". E pediu ao grupo militante islâmico Hamas, o grande vencedor nas eleições palestinas da semana passada, a "reconhecer Israel, desarmar, rejeitar o terrorismo e trabalhar por uma paz duradoura".

Bush prosseguiu em sua defesa vigorosa do programa secreto de vigilância sem mandados de seu governo, sugerindo que poderia ter pegado alguns dos seqüestradores de aviões de 11 de setembro, apesar de ter fornecido poucos detalhes.

"Nós agora sabemos que dois dos seqüestradores que estavam nos Estados Unidos telefonaram para membros da Al Qaeda no exterior", disse Bush. "Mas não soubemos de seus planos até ser tarde demais."

O presidente expandiu o tema de seu segundo discurso de posse, e mesmo diante da vitória do Hamas fez um forte pedido pela democracia e eleições no Oriente Médio. "Em 1945, havia cerca de duas dúzias de democracias no planeta", disse Bush. "Hoje há 122."

Bush também reiterou que a guerra de seu governo contra o terrorismo não está criando mais terroristas, como acreditam os críticos de suas políticas.

"Em um tempo de teste, nós não podemos encontrar segurança abandonando nossos compromissos e recuando para dentro de nossas fronteiras", disse Bush. "Se deixássemos estes agressores vis em paz, eles não nos deixariam em paz. Eles simplesmente transfeririam o campo de batalha para nossas costas."

Na política doméstica, Bush ofereceu várias propostas em saúde, energia e educação que refletem as restrições impostas a ele pelo crescente déficit orçamentário e um Congresso que relutará em discutir nova legislação em uma ano eleitoral.

Bush pediu para que o governo federal pague os custos de treinamento de 70 mil novos professores colegiais em cursos de conhecimento avançado e de recrutamento de 30 mil profissionais de matemática e ciências para as salas de aula. Ele disse que a proposta é essencial para manter a competitividade dos Estados Unidos em uma economia mundial que inclui novas potências como Índia e China.

"Nós temos que continuar a liderar o mundo em talento humano e criatividade", disse Bush. "Nossa maior vantagem no mundo sempre foi nossa população instruída, trabalhadora e ambiciosa e manteremos tal vantagem."

Em saúde, Bush propôs mudanças na legislação para facilitar aos empregadores a oferta, e a compra pelos indivíduos, de contas de poupança para saúde, que oferecerão incentivos fiscais para as pessoas economizarem dinheiro para despesas médicas.

"Nosso governo tem a responsabilidade de ajudar a fornecer atendimento de saúde para os pobres e idosos, e estamos cumprindo tal responsabilidade", disse Bush. "Para todos os americanos, nós temos que enfrentar os crescentes custos de atendimento, fortalecer o relacionamento médico-paciente e ajudar as pessoas a pagarem o seguro que precisam."

Em política de energia, uma parte importante de seu discurso, Bush prometeu a construção de usinas nucleares e renovou o pedido para o desenvolvimento de combustíveis alternativos para os automóveis, incluindo o etanol, que é obtido do milho, assim como o desenvolvimento de combustível obtido a partir do refugo das plantações. Bush disse estar otimista com o combustível feito a partir de refugo, como folhas e caule de milho, mas a pesquisa ainda está em estágios iniciais e analistas de energia dizem que levará anos para seu uso comercial.

Os analistas de energia também disseram que a meta de Bush de substituir 75% das importações de petróleo do Oriente Médio até 2025 não é tão significativa quanto parece, porque os grandes fornecedores para os Estados Unidos são o México, Canadá e Venezuela. Os Estados Unidos importam atualmente cerca de 12 milhões de barris de petróleo dos 20,6 milhões de barris que consomem por dia.

Mas para Bush, a ênfase na redução da dependência estrangeira em petróleo, particularmente do freqüentemente volátil Golfo Pérsico, reflete uma dinâmica política crítica neste ano: os republicanos estão ficando cada vez mais alarmados que a escalada dos preços da gasolina e do aquecimento doméstico poderá se transformar em um grande tema eleitoral neste ano, particularmente no momento em que as companhias de petróleo informam lucros recordes.

Em uma amostra clara da postura cada vez mais assertiva dos democratas contra o presidente, o lado democrata do plenário se levantou para aplaudir quando Bush fez o que visava ser uma referência conciliatória à derrota de sua proposta para o Seguro Social no ano passado. Bush pareceu desconcertado antes de finalmente balançar seu dedo para os democratas e dizer: "O crescente custo dos benefícios é um problema que não desaparecerá".

Quando foi pedido aos americanos que citassem uma ou duas despesas do dia a dia que deveriam receber uma atenção prioritária do governo federal, na pesquisa NBC/Wall Street Journal divulgada na terça-feira, 34% citaram a gasolina e 20% citaram o aquecimento doméstico.

Há muito os democratas acusam o presidente Bush e o vice-presidente Dick Cheney de serem amigos da indústria do petróleo às custas dos consumidores, e renovaram tal linha de ataque em resposta ao pedido do presidente de que mais precisa ser feito para obtenção de independência em energia. O deputado Rahm Emanuel, o democrata de Illinois que é líder do comitê de seu partido para campanha ao Congresso, notou que os republicanos têm pressionado por redução de impostos para as companhias de petróleo enquanto seus lucros têm crescido imensamente.

Bush argumentou que a nação está próspera, mas que os americanos estão ansiosos diante das mudanças estruturais na economia. Ele disse que o desconforto tem contribuído para a oposição ao comércio, aos pedidos de controles federais na economia e à forte oposição à imigração vista em muitos Estados.

"Todas estas são formas de recuo econômico e levam na mesma direção, rumo a uma economia estagnada e de segunda categoria", ele disse.

Bush pediu novamente para que as reduções temporárias de impostos, que foram aprovadas nos primeiros anos de seu governo e que devem expirar, se tornem permanentes

Sob críticas de conservadores de seu próprio partido por permitir que os déficits crescessem em seu primeiro ano de governo, Bush não especificou que programas tinha em mente, apesar de que provavelmente os apresentará na proposta de orçamento que enviará ao Congresso na segunda-feira. Discurso omite situação de Nova Orleans e escândalos de corrupção George El Khouri Andolfato

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