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01/02/2006

Morre a ativista dos direitos civis Coretta Scott King, viúva de Martin Luther King Jr.

The New York Times
Peter Applebome

Em Nova York
Coretta Scott King, que ficou primeiramente conhecida como mulher do reverendo Martin Luther King Jr., depois como sua viúva, e, a seguir, como uma grande divulgadora da visão de paz social e de mudanças sociais não violentas defendida pelo marido, morreu no início da terça-feira (31/01) no Hospital de Santa Monica, na Baixa Califórnia, México, perto de San Diego.

Michael Evans/The New York Times - 27.abr.1968 
Coretta Scott King discursa durante manifestação em Nova York contra Guerra do Vietnã, no ano de 1968
Ela estava com 78 anos de idade. Segundo a sua irmã, Edythe Scott Bagley, Coretta deu entrada no hospital na última quinta-feira. Ela morreu aproximadamente a 1h, informou Lorena Blanco, porta-voz do consulado dos Estados Unidos em Tijuana.

Bagley disse que o corpo da irmã será transportado para sua cidade, Atlanta, a fim de ser sepultado junto ao do marido, cuja cripta está localizada no Centro Martin Luther King Jr.

Coretta padecia de problemas de saúde desde que sofreu um derrame e teve um ataque cardíaco em agosto do ano passado. Ela compareceu a um jantar no Dia de Martin Luther King Jr., em 14 de janeiro, mas manteve-se calada.

Andrew Young, o ex-embaixador da Organização das Nações Unidas (ONU) e amigo de longa data, disse em uma entrevista coletiva à imprensa nesta manhã que Coretta morreu enquanto dormia.

"Ela foi uma mulher que nasceu para lutar", disse Young. "E Coretta lutou e superou muitos obstáculos".

Trajetória

Coretta saiu da pobreza da zona rural de Heiberger, no estado do Alabama, para se transformar em um símbolo internacional da revolução dos direitos civis da década de 1960 e em uma defensora incansável das questões sociais e políticas, tendo militado em movimentos diversos como aquele pelos direitos das mulheres, e na luta contra o apartheid na África do Sul.

Ela estudava no Conservatório de Música da Nova Inglaterra, em Boston, em 1952, quando conheceu um jovem estudante de pós-graduação em filosofia, que no primeiro encontro disse a ela: "As quatro coisas que eu procuro em uma mulher são caráter, personalidade, inteligência e beleza. E você possui todas elas".

Um ano depois, ela e King, à época um jovem pastor oriundo de uma proeminente família de Atlanta, se casaram, dando início a uma notável parceira que terminou com o assassinato do ativista, em Memphis, no dia 4 de abril de 1968.

Coretta não hesitou em assumir a luta de King, tendo marchado, antes mesmo que o seu marido fosse enterrado, à frente dos lixeiros em greve. Martin Luther King Jr. fora a Memphis para apoiar aquela greve.

A seguir ela liderou a campanha pela criação de um feriado nacional em homenagem ao marido e fundou o Centro Martin Luther King Jr. para Mudanças Sociais Não Violentas, em Atlanta, dedicado tanto aos estudos quanto ao ativismo. Nesse local, Martin Luther King Jr. foi sepultado.

Além de lidar com a morte do marido, uma tragédia que a deixou sozinha com quatro filhos, Coretta enfrentou outros desafios e controvérsias com o passar dos anos. Por vezes ela foi acusada de ser fria e distante por outros membros do movimento. O Centro King foi criticado primeiramente por competir por verbas e drenar energia da Conferência de Lideranças Cristãs Sulistas, uma organização que fora liderada por King.

Nos últimos anos, o centro foi tido por muitos como estando à deriva, sendo marcado por brigas intrafamiliares e mostrando-se mais focalizado no legado de King no que na continuação do seu trabalho. E até vários aliados ficaram desconcertados e magoados com a campanha de Coretta pela absolvição de James Earl Ray, que em 1969 declarou-se culpado pelo assassinato do marido dela, e pela sua afirmação de que Ray não cometeu o crime.

Mas, com mais freqüência, Coretta foi vista como uma figura inspiradora em todo o mundo, uma incansável defensora das causas do seu marido, e uma mulher de enorme profundidade espiritual que veio a personificar os ideais pelos quais Martin Luther King Jr. lutou.

"Ela será lembrada como uma mulher forte, cuja graça e dignidade sustentaram a imagem do seu marido como um homem de paz, de justiça racial e de lealdade", afirma o reverendo Joseph Lowery, que ajudou a fundar a Conferência de Lideranças Cristãs Sulistas com King, tendo depois sido o presidente da instituição durante 20 anos.

"Eu não sei se Coretta era uma líder dos direitos civis no sentido mais real, mas ela se transformou em uma figura ligada à luta dos direitos civis, e em um ícone destes direitos, devido aquilo que passou a representar".

Coretta Scott nasceu em 27 de abril de 1927, sendo a segunda filha dentre os três de Obadiah e Bernice Scott. Ela cresceu em uma casa de dois quartos que o pai construiu na terra que pertenceu à família durante três gerações.

Desde o início, nunca houve nada de previsível na sua vida. A família era pobre, e ela cresceu colhendo algodão nas quentes plantações do sul racialmente segregado, ou fazendo tarefas domésticas. Mas o seu pai transportava lenha, tinha uma mercearia e trabalhava como barbeiro. A mulher dele dirigia um ônibus escolar, e toda a família trabalhava criando porcos, vacas, galinhas e cultivando verduras e legumes.

Portanto, segundo os padrões dos negros do Alabama da época, a família contava com os recursos e as ambições que estavam fora do alcance da maioria dos seus vizinhos.

Algumas das primeiras percepções de Coretta Scott a respeito da injustiça da segregação surgiram quando ela caminhava até a sua escola de um único aposento todos os dias, vendo os ônibus cheios de crianças brancas levantarem poeira quando passavam.

Ela conheceu pela primeira vez o mundo além da zona rural do Alabama quando freqüentou a Escola Lincoln, uma instituição missionária privada em Marion, uma cidade vizinha, onde estudou piano e canto, e teve os seus primeiros contatos com professores educados em faculdades. Foi ali que ela resolveu partir para um mundo que ficasse bem além do segregacionista e rural Estado do Alabama.

Ela foi a primeira colocada na turma de segundo grau, de 17 alunos, que se formou em 1945, e depois disso freqüentou a Faculdade Antioch, em Yellow Springs, Ohio, onde dois anos antes, a sua irmã mais velha, Edythe, havia sido a primeira negra a se matricular na instituição.

Coretta estudou educação e música e, depois da graduação, ingressou no Conservatório de Música da Nova Inglaterra, esperando tornar-se cantora clássica, e trabalhando como funcionária de um departamento de encomendas postais e como faxineira de casas a fim de aumentar a sua renda, que mal dava para pagar as mensalidades da faculdade.

A parceria com Martin Luther King Jr.

Martin Luther King Jr. Center for Nonviolent Social Change via NYT - dez.1966 
Família Luther King: em pé, da esquerda, Dexter Scott, Yolanda e Martin Luther King 3º; Coretta segura Bernice Albertine
O primeiro encontro com o homem que se tornaria o seu marido não teve um início auspicioso, conforme é narrado no livro "Parting the Waters", de Taylor Branch. King, que estava procurando uma esposa, a chamou depois de ter obtido o seu nome com um amigo, e anunciou: "Você sabe que todo Napoleão tem a sua Waterloo", disse ele. "Sou como Napoleão. Estou na minha Waterloo, e estou de joelhos".

Coretta, que era dois anos mais velha que ele, respondeu: "Isso é absurdo. Você sequer me conhece".

Mesmo assim, ela concordou em almoçar com King no dia seguinte, somente para ter uma decepção inicial com o fato de ele não ser mais alto. Mas ela ficou impressionada com a sua erudição e confiança, e ele enxergou naquela mulher refinada e inteligente aquilo que vinha procurando para ser a mulher de um pastor de uma das famílias de clérigos mais proeminentes de Atlanta.

Quando ele a pediu em casamento, Coretta avaliou a proposta durante seis meses antes de aceitar, e eles se casaram no jardim da casa dos pais dela em 18 de junho de 1953. Os 350 convidados, indivíduos urbanos elegantes de Atlanta e de regiões rurais do Alabama, fizeram daquele o maior casamento, negro ou branco, que jamais houvera na região.

Antes mesmo do casamento, ela deixou claro que pretendia manter a sua independência. Ela desnorteou o pai de King, o reverendo Martin Luther King Sr., que celebrou a união, ao exigir que a promessa de obedecer ao marido fosse retirada dos votos de casamento. Relutantemente, o velho pastor cedeu. Terminada a cerimônia, o noivo adormeceu no carro na viagem de volta a Atlanta, enquanto a nova senhora King dirigia.

Coretta achou que estava ingressando no campo da pregação religiosa, sem poder imaginar que seria parte do ponto de partida do abalo sísmico cultural que em breve sacudiria o sul dos Estados Unidos.

O seu marido se tornou pastor da Igreja Batista de Dexter Avenue em Montgomery, no Alabama, em 1954. Porém, pouco mais de um ano depois, o Boicote à Segregação dos Ônibus de Montgomery fez com que King se tornasse alvo das atenções nacionais, e, a seguir, como passageiros de um trem de carga em fuga, o pastor e a sua jovem mulher se viram no meio de um movimento que transformaria o sul e sacudiria a nação. Em 1960, a família se mudou de volta para Atlanta, onde ele dividiu com o pai o púlpito da histórica Igreja Batista Ebenezer.

Com quatro filhos novos para criar, Yolanda, nascida em 1955; Martin III, em 1957; Dexter, em 1961; e Bernice, em 1963, e deparando-se com um movimento cultural dominado pelos homens, Coretta, durante a maior parte do tempo, permaneceu distanciada das linhas de frente da militância. Mas a percepção do perigo estava sempre presente, incluindo um episódio quase fatal, quando ela foi esfaqueada enquanto autografava livros no Harlem, em Nova York, em 1958.

O papel que ela desempenharia era uma fonte de alguma tensão entre os dois. Embora quisesse cuidar dos filhos, ela também desejava participar ativamente do movimento. Segundo ela, King era tradicionalista na sua visão quanto às mulheres, e repelia a idéia de que ela devesse ser mais participativa.

"Martin era uma personalidade muito forte, e, de várias maneiras, tinha idéias muito tradicionalistas sobre as mulheres", disse ela em uma entrevista a The New York Times Magazine, em 1982. E Coretta continuou: "Ele dizia: 'Não tenho escolha. Tenho que fazer isso, mas você não foi chamada'. E eu lhe respondia: 'Será que você não entende? Você sabe que eu tenho uma necessidade de servir exatamente como a sua'".

Mesmo assim, ele sempre a descreveu como uma parceira na sua missão, e não apenas como uma esposa que o apoiava. "Eu gostaria de poder dizer, a fim de satisfazer o meu ego masculino, que eu a conduzi por esta rota", disse King em uma entrevista em 1967. "Mas tenho que dizer que nós atuamos juntos, porque ela estava tão ativamente envolvida e preocupada quando nos conhecemos quanto está agora".

Ela, na maior parte das vezes, criou o seu próprio nicho, especialmente por meio de mais de 30 "Concertos pela Liberdade", nos quais discursava, lia poesias e cantava para aumentar a consciência e arrecadar verbas para o movimento de direitos civis.

A militância após a morte de King

A divisão desapareceu com o assassinato de King. De repente, ela não era apenas um símbolo do luto da nação, mas uma mulher bastante devotada, levando à frente o trabalho do marido. Exatamente como ela faria isso foi algo que evoluiu com o passar do tempo. Participar de uma passeata em Memphis foi uma declaração dramática, mas Ralph Abernathy, um dos assessores de King, foi escolhido para assumir o seu movimento.

Ao assumir a luta do marido após a sua morte, Coretta no início usou ao máximo as palavras dele, como se a sua meta fosse simplesmente manter a sua presença, mesmo na morte.

Mas em breve ela desenvolveu a suas próprias causas e linguagem. Assim, quando defendeu a luta do marido na Campanha pelas Pessoas Pobres no Lincoln Memorial, em 19 de junho de 1968, ela falou não apenas da visão de King, mas da sua própria, que dizia respeito tanto à luta das mulheres quanto à questão racial, tendo pedido às mulheres norte-americanas:

"Unam-se e formem um bloco sólido de poder feminino para combater os três grandes males, que são o racismo, a pobreza e a guerra."

Ela ingressou no comitê de direção da Organização Nacional das Mulheres, assim como na da Conferência das Lideranças Cristãs Sulistas, e passou a ser vista como vinculada a uma ampla gama de questões internacionais de direitos humanos que se focavam prioritariamente na luta pela igualdade racial.

Ela argumentaria que esta visão ampla se coadunava totalmente com a visão de King. E para levar à frente tal legado, Coretta se dedicou a duas tarefas ambiciosas e ousadas. A primeira foi a criação de um feriado nacional em homenagem ao marido, e a segunda a construção de um centro nacionalmente reconhecido em Atlanta para honrar a sua memória, dar continuidade ao seu trabalho e fornecer um centro de pesquisas para que os acadêmicos estudassem o trabalho de Martin Luther King e a era dos direitos civis.

O feriado e o centro de King

O primeiro objetivo foi alcançado, apesar de muita oposição, em 1983, quando o Congresso aprovou uma medida designando a terceira segunda-feira de janeiro como um feriado nacional em homenagem a Martin Luther King Jr., que nasceu em Atlanta, em 15 de janeiro de 1929.

O presidente Ronald Reagan, que por muito tempo se opôs ao feriado de Martin Luther King Jr, por considerá-lo muito caro e inapropriado, assinou o decreto, mas se recusou a criticar certos colegas republicanos como o senador Jesse Helms, da Carolina do Norte, que continuava a depreciar a imagem de King, afirmando que ele conspirava com os comunistas. O feriado vigorou pela primeira vez em 20 de janeiro de 1986.

O segundo objetivo, bem mais caro, demorado e difícil de ser compreendido, ainda é um trabalho em andamento --e um trabalho que enfrenta problemas. Quando Coretta anunciou pela primeira vez os seus planos para um memorial em 1969, ela visualizou uma tumba no estilo lincolniano, uma sala de exibições, a restauração da casa de infância do seu marido, dois prédios separados para institutos de mudanças sociais não violentas e estudos afro-americanos, um prédio para uma biblioteca, outro para um arquivo e um museu sobre a vida e a cultura afro-americana. E ela visualizou ainda um centro que seria tanto um paraíso para os acadêmicos quanto um centro de treinamento para os defensores das mudanças sociais não violentas.

Até mesmo os seus amigos dizem que essa meta pode ter sido muito ambiciosa. A construção do centro, por si só, já seria uma realização enorme. Mas vários dos aliados de King, especialmente os líderes da Conferência de Lideranças Cristãs Sulistas, acusaram o centro de drenar recursos escassos do movimento.

Com o passar dos anos, o centro lutou para identificar a sua missão. Os críticos temiam que ele tivesse se transformado em grande parte em uma empresa familiar, com os dois filhos de Coretta, Dexter e Martin III, brigando pela liderança.

Esses problemas se tornaram especialmente graves depois que ela sofreu um derrame e um ataque cardíaco em agosto de 2005, e os seus dois filhos lutaram pelo controle do centro enquanto ela se recuperava. Como resultado, muita gente acha que ele não se transformou no centro acadêmico que deveria ser, e tampouco se tornou um centro de ativismo pelos direitos civis.

Várias pessoas que a apoiavam ficaram entristecidas e chocadas com a campanha feita pela família em defesa de James Earl Ray, que confessou ser o assassino, e que depois desmentiu a confissão, tendo morrido em 1998, enquanto procurava ser submetido a um novo julgamento.

Após a morte do marido, Coretta divulgou um comunicado dizendo que o fato foi uma tragédia para a sua família e para a nação, e afirmando: "Um julgamento teria trazido à luz novas revelações sobre o assassinato de Martin Luther King Jr., e também consolidado fatos relativos à inocência do senhor Ray".

Ela deixou quatro filhos, Yolanda Denise, Martin Luther III, Dexter Scott e Bernice Albertine, a a irmã, Edythe Scott Bagley, de Cheney, Pensilvânia, bem como o irmão, Obie Leonard Scott, de Greensboro, Alabama.

Até o fim, Coretta continuou sendo uma figura amada, muitas vezes comparada a Jacqueline Kennedy Onassis, como uma mulher que foi avassalada pela tragédia, manteve a família unida, e se transformou em uma presença inspiradora em todo o mundo.

Os admiradores dizem que ela carregou o seu próprio fardo particular --já que todos esperavam que ela de alguma forma desse seguimento ao trabalho e aos ensinamentos do seu marido-- com um senso de energia e objetivo que fez de Coretta mais do que um simples símbolo.

Se, ao final, vestir o manto de King mostrou ser uma tarefa algo impossível, ambos descreveram um relacionamento que foi uma verdadeira parceria. "Creio que de muitas maneiras ela me educou", disse King certa vez. E ela nunca abandonou essa convicção, expressa no decorrer da sua vida, de que o sonho de King era também o seu sonho.

"Não aprendi com Martin o meu compromisso", disse ela certa vez em uma entrevista. "Nós simplesmente convergimos em um determinado momento". Coretta era vista como uma figura inspiradora em todo o mundo, uma incansável defensora das causas do seu marido, e uma mulher de enorme profundidade espiritual que veio a personificar os ideais pelos quais o ícone dos direitos civis lutou Danilo Fonseca

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