UOL Notícias Internacional
 

01/02/2006

Viciados em petróleo

The New York Times
Thomas L. Friedman

Em Nova York
NYT Image

Colunista Thomas Friedman
Até agora, a onda de democracia que a equipe Bush ajudou a derramar sobre o mundo árabe-muçulmano desde 11 de setembro de 2001 promoveu a ascensão ao poder de fundamentalistas islâmicos de linha dura no Iraque, na Palestina e no Irã, e pavimentou o caminho para um crescimento recorde da organização dos Irmãos Muçulmanos no Egito. Se essa situação for mantida desta forma, dentro de poucos anos os clérigos muçulmanos estarão no poder do Marrocos até a fronteira da Índia. Que Deus abençoe a América.

Mas será que isso tudo é mesmo conseqüência das ações da América? Na verdade, não. De fato, é o produto de 50 anos de políticas baseadas no "petrolismo" --ou no petróleo mesmo-- no mundo árabe-muçulmano.

O erro da equipe Bush foi ter acreditado que ela poderia mudar isso --que ela poderia quebrar a dependência que o Oriente Médio alimenta pelo autoritarismo, sem também acabar com a dependência que a América tem em relação ao petróleo. Mas a ilusão se dá exatamente neste ponto. No mundo árabe, o petróleo e o autoritarismo são vinculados de maneira inextricável.

Como assim? Vamos começar com a regra de ouro nº 1 da vida política árabe-muçulmana hoje: Você não pode ir de Saddam até Jefferson (Thomas Jefferson, 1743-1826, 3º presidente dos Estados Unidos, redigiu a declaração de Independência em 1776) sem antes passar por Khomeini --sem antes passar por uma fase de políticas conduzidas pelas mesquitas.

Por que razão? Porque uma vez que você varre para longe um ditador ou um rei que está à frente de qualquer Estado no Oriente Médio, você parte para uma queda livre até bater na mesquita --conforme os Estados Unidos descobriram no Iraque.

Não existe nada entre o palácio do governo e a mesquita. Os regimes autocráticos seculares, tais como os do Egito, da Líbia, da Síria e do Iraque, nunca deixaram qualquer coisa crescer sob os seus pés. Eles nunca permitiram o desenvolvimento de um sistema judiciário ou de meios de comunicação realmente independentes, nem partidos leigos progressistas, nem grupos representativos da sociedade civil --desde as organizações em prol da mulher até associações comerciais.

A mesquita tornou-se um centro alternativo de poder porque era o único lugar onde a mão de ferro do governo não conseguia penetrar a valer. Como tal, ela tornou-se um lugar onde as pessoas conseguiam se associar livremente, incubar líderes locais e gerar uma ideologia de oposição compartilhada.

É por isso que no mesmo instante em que qualquer um desses países árabes organiza eleições livres e justas, os islâmicos explodem o que estiver por perto. No Egito, os Irmãos Muçulmanos conquistaram 20% dos assentos nas últimas eleições; o Hamas surgiu do nada para se tornar uma maioria de governo. Em ambas as sociedades, os partidos leigos no poder --o NDP no caso do Egito e o Fatah no caso da Palestina-- foram rejeitados como apêndices corruptos do Estado autoritário, o que eles eram de fato.

Por que não existem partidos de oposição mais independentes, seculares ou progressistas em atividade nesses lugares?

Porque os líderes árabes não lhes permitem se desenvolver. Eles preferem que a única escolha do seu povo seja entre os partidos de Estado e os extremistas religiosos, de modo a fazer sempre parecer que o autoritarismo de Estado é indispensável.

Quando Ayman Nour, um independente liberal no Egito, se apresentou como candidato contra o presidente Hosni Mubarak, ele foi jogado na prisão tão logo a eleição acabou. Obrigado por brincar de "democracia" --agora, vá para a cela.

As coisas não acontecem desta forma em todo lugar. Na Ásia do Leste, quando os regimes militares em países tais como Taiwan e a Coréia do Sul desmoronaram, estes países mudaram rapidamente para se tornar democracias civis. Isso aconteceu porque eles tinham mercados livres dinâmicos, com centros econômicos independentes do poder, e nenhum petróleo.

Aqueles que dirigiram esses países não tiveram outra saída senão desenvolver uma sociedade que permitiria aos seus homens e às suas mulheres acederem à educação e a uma formação que os torne capazes de fundar companhias para competir globalmente, porque aquela era a única maneira para eles de prosperar.

No mundo árabe-muçulmano, entretanto, os mulás (sacerdotes) ditadores no Irã e os ditadores seculares em outros lugares têm sido capazes de se manter no poder por muito mais tempo, sem nunca permitirem o desenvolvimento do seu povo, sem nunca permitirem o surgimento de partidos progressistas, porque eles tinham petróleo ou o seu equivalente --uma ajuda estrangeira maciça.

Daí, a Regra de Ouro nº 2: Remover os líderes autoritários no mundo árabe-muçulmano, quer por meio da revolução, de uma invasão ou de eleições, é necessário para permitir a emergência de democracias estáveis na região --mas não é suficiente.

A única maneira de fazer com que os novos líderes permitam o advento de instituições e partidos políticos verdadeiros, de uma imprensa livre, de mercados livres e competitivos e de uma educação apropriada --uma sociedade civil-- será reduzir drasticamente os preços do petróleo e promover reformas internas, o único modo para essas sociedades de se sustentarem sozinhas. As pessoas mudam quando elas realmente precisam, e não quando lhes dizemos que elas devem mudar.

Se você apenas derrubar os ditadores, e não reduzir efetivamente os preços do petróleo, você acabará lidando com um país como o Irã --com mulás ditadores substituindo militares ditadores e utilizando a mesma riqueza petroleira para manter seu povo tranqüilo e eles mesmos no poder. É somente quando o petróleo estiver de volta para a casa dos US$ 20 o barril que a transição de Saddam a Jefferson não ficará atolada na "Terra de Khomeini".

No Oriente Médio, o petróleo e a democracia não se misturam. E não é por acaso se a primeira e única democracia do mundo árabe --o Líbano-- nunca teve uma gota de petróleo sequer. Primeira e única democracia árabe --Líbano-- nunca teve uma gota Jean-Yves de Neufville

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