UOL Notícias Internacional
 

02/02/2006

Frio ameaça sobreviventes do terremoto na Ásia

The New York Times
Carlotta Gall

Em Qaziabad, na Caxemira
Três meses após o devastador terremoto ter destruído todas as casas desta vila nas montanhas, na região da Caxemira controlada pelo Paquistão, os recém-casados Zaheer e Shazia se vêem mais uma vez dormindo a céu aberto, desta vez na neve. A sua barraca de algodão desabou sobre eles durante a noite devido a uma forte nevasca, de forma que faz quatro noites que eles estão ao relento, dormindo em uma cama de campanha à beira de uma fogueira.

Tyler Hicks/The New York Times - 19.jan.2006 
Sobrevivente aguarda descalço na neve a distribuição de comida trazida por helicóptero

"Faz muito frio, e a neve cai sobre os nossos rostos", conta Shazia, 19, com um sorriso tímido. "Precisamos de um abrigo, de alimentos e de uma cama".

Apesar das enormes iniciativas de ajuda humanitária nos três meses após o terremoto de 8 de outubro, os funcionários encarregados de busca e salvamento ainda estão encontrando novas vilas necessitadas da mais básica assistência para que tenham uma chance de sobreviverem ao inverno rigoroso.

Duas fortes nevascas no mês passado paralisaram as operações de ajuda, e se constituíram em um teste de sobrevivência para a população desta área montanhosa, ainda traumatizada pelo terremoto, que matou 73.338 pessoas, feriu gravemente 69 mil e deixou cerca de 2,5 milhões desabrigadas.

"Estamos bastante preocupados e temos sido muito vigilantes", diz Jan Vandemoortele, da missão da Organização das Nações Unidas (ONU) no Paquistão, que está coordenando as iniciativas de ajuda humanitária com o governo paquistanês. Segundo ele, esta onda de frio extremo poderá colocar muitas vidas em perigo.

"Estamos conscientes de que o clima pode acabar com o nosso trabalho em um dia", afirma ele. "Não podemos descansar até que chegue a primavera".

Somente uma pequena proporção dos desabrigados foi transferida para as cidades não afetadas pelo terremoto, para acomodações alugadas ou para as residências de parentes. De acordo com Vandemoortele, quase dois milhões de pessoas estão vivendo em barracas de lona nos vales, e terão pela frente pelo menos mais dois meses de temperaturas abaixo de zero, enquanto cerca de 400 mil indivíduos estão nas zonas mais elevada, isolados pela neve e pelos deslizamentos, e sobrevivendo apenas graças às remessas de alimentos e outros suprimentos feitas por aeronaves.

Das 860 mil barracas distribuídas durante a confusão que se seguiu ao terremoto, somente 30 mil eram adequadas para as condições de inverno, diz o general Farooq Ahmad Khan, o comissário federal de ajuda humanitária do Paquistão.

Tyler Hicks/The New York Times - 19.jan.2006 
Sobreviventes permanecem em cabanas improvisadas onde não se protegem do frio

Quando as primeiras neves começaram a cair no início do ano, surgiram relatos de desabamentos das barracas, e algumas delas pegaram fogo quando os seus ocupantes tentaram aquecê-las. Segundo o general, é necessária uma segunda remessa de suprimentos, com toldos de plástico, telhas metálicas e ferramentas, a fim de ajudar a população a construir abrigos melhores que possam ser aquecidos.

As baixas temperaturas causaram uma onda de infecções respiratórias agudas - pneumonia no pior grau -, que atualmente são a principal causa de mortes registradas pelos funcionários da saúde. As famílias têm lutado para sobreviver nas aldeias, após jornadas desesperadas pela neve a fim de conseguir assistência, depois que as suas tendas improvisadas desabaram na última nevasca intensa.

Mas, os trabalhos de auxílio, agora em pleno andamento, parecem estar vencendo os obstáculos formidáveis em uma das áreas atingidas por desastres mais inacessíveis que já se viu. Os helicópteros - Chinooks norte-americanos e aparelhos paquistaneses, pintados de brancos, e alugados pela ONU e outras organizações - cortam os céus incessantemente para levar mantimentos até as montanhas. Barracas coloridas pontilham o terreno inclinado e acampamentos se espalham em torno das principais cidades.

"Graças a Deus, durante os dois episódios de tempo inclemente, não houve pânico entre as 3,5 milhões de pessoas afetadas", conta Farooq, acrescentando que muitos aldeões que sobreviveram ao terremoto ficaram isolados pelos deslizamentos. Os transportes aéreos de alimentos e material para a construção de abrigos deu à população a confiança de que ela será capaz de sobreviver, e não existe nenhum movimento em grande escala de pessoas descendo as montanhas.

A região até o momento não foi atingida por nenhuma grande epidemia. Um surto de cólera foi rapidamente contido em um acampamento em Muzaffarabad, em novembro, segundo Sacha Bootsma, porta-voz da Organização Mundial de Saúde em Islamabad, a capital paquistanesa.

O aumento do número de infecções respiratórias agudas, que representam 30% de todas as consultas médicas, foi descrito por ela como "nitidamente um motivo de preocupação", mas até o momento não houve nenhuma catástrofe em termos de saúde da população. Equipes de médicos cubanos e paquistaneses estão subindo as montanhas e voando até as vilas mais remotas.

A principal prioridade na iniciativa de ajuda humanitária é fornecer mantimentos aos desabrigados que estão nas áreas mais elevadas, antes que o inverno os isole completamente, mas funcionários das agências de auxílio ainda estão descobrindo famílias e vilas inteiras que ainda não receberam qualquer ajuda.

Shawn Pomeroy, um alpinista canadense que trabalha para a Organização Internacional pela Migração, que é responsável pelo programa de abrigos, fez uma caminhada de seis horas a partir da cidade de Muzaffarabad, na semana passada, e descobriu os sobreviventes de Qaziabad, a 2,000 metros acima do nível do mar, acampados ao relento.

"Eles não haviam recebido nenhuma ajuda até aquela data", conta Pomeroy. "Ainda estamos preenchendo lacunas que ficaram na operação de distribuição".

Ele encontrou mais de 400 famílias em Qaziabad, sobrevivendo em barracas de lona que obtiveram na vila abaixo. Alguns contavam com toldos de plástico para colocar sobre as barracas, mas a vila não recebeu uma única remessa aérea de alimentos e outros materiais. A estrada está bloqueada desde o terremoto, e a trilha de acesso a pé é bastante traiçoeira, devido aos deslizamentos de terra.

Mesmo assim, ele diz que os trabalhos de auxílio estão fazendo progresso. "No início, a tarefa parecia impossível, devido à dimensão do desastre, mas agora estamos vencendo", afirma Pomeroy.

Mas para muitos moradores da área atingida pelo terremoto, o pesadelo não terminou. Nas suas faces não há mais aquela expressão de choque que era evidente nos dias que se seguiram ao terremoto, mas o medo e a incerteza persistem.

Tyler Hicks/The New York Times - 19.jan.2006 
Crianças têm aulas ao relento; o terremoto destruiu casas e escolas no Paquistão

Os moradores de Qaziabad dizem que 250 pessoas morreram no local e nas áreas adjacentes durante o terremoto. "As crianças acordam à noite --elas têm medo de serem soterradas", diz Rashida, mão de oito filhos, enquanto reaviva as chamas de uma fogueira no pequeno casebre de barro que o marido construiu a partir dos destroços da casa original. A sua filha de 12 anos de idade, Maria, que foi soterrada na sua escola pelo terremoto, mas que foi retirada dos escombros sem nenhum ferimento, senta-se em silêncio ao lado da mãe. O seu filho Talbir, que também tem 12 anos, diz: "Tenho medo de dormir em uma barraca, mas também de dormir dentro de casa".

Mas ao oeste, na cidade de Balakot, que ficou bastante destruída devido ao terremoto, várias famílias estão chegando diariamente, após terem descido as montanhas, vindas da região remota e coberta de neve no Vale Kaghan.

"Passamos por diversas dificuldades, e depois tivemos esta nevasca", diz Muhammad Asif, 21, que chegou há uma semana com a mulher, os pais e os irmãos. Eles se revezaram carregando os dois filhos, de dois e quatro anos, durante dois dias, por caminhos onde a neve chega ao joelho. "Não tínhamos barraca, apenas uma lona", conta Asif. "Eu planejava ficar lá, mas a quantidade de neve era muito grande".

"Estou com medo da montanha", acrescenta ele. "Quando a neve começou a cair, as avalanches também voltaram, de forma que viemos para cá", diz a sua mãe, Bibi Sarwar Jan. "Os helicópteros também pararam de voar devido às nevascas, e ficamos sem comida".

Várias das áreas de montanha ainda estão instáveis, e os deslizamentos de terra se agravaram com as recentes chuvas e nevascas, segundo os moradores e as autoridades. As estradas que foram desobstruídas pelo exército paquistanês nos últimos dois meses ficaram novamente bloqueadas, e os caminhões de abastecimento só conseguiram chegar no máximo a alguns quilômetros das principais cidades.

Sajjad, 27, caminhou cinco horas após deixar a sua vila de Nuri, no Vale Kaghan, com os seus quatro filhos, sendo que a mulher carregou o mais novo, de apenas dois meses e meio de idade. Após o terremoto ele construiu um barraco de madeira coberto com um toldo de plástico, mas a habitação desmoronou sobre a família na manhã que se seguiu a uma forte nevasca.

Segundo Sajjad, a comida também está acabando.

"Nenhum helicóptero veio até a nossa vila", disse ele. "Estávamos sobrevivendo com as nossas próprias reservas de alimentos. Os helicópteros aterrissaram em uma vila próxima, mas os moradores de lá não deixavam que nos aproximássemos".

Segundo ele, o pior de tudo é o fato de a terra estar instável. "Agora existe a ameaça de um outro deslizamento, e a nossa terra está ameaçada", disse le. "Muitas pedras enormes deslizam, especialmente quando chove ou neva".

Em um dia quente e ensolarado em Balakot, a vida parece ser minimamente suportável. Os sobreviventes do terremoto vasculham os escombros das suas casas, quebrando concreto e recuperando madeira e restos de metal. Mas quando o tempo piora, conforme aconteceu em uma noite recente, e o vento e a chuva passam a açoitar as barracas e os terrenos cobertos de escombros, fica evidente o quanto é penosa a vida nesta zona atingida pelo desastre.

Ignorando a chuva, Muhammad Owais Khan, 19, que perdeu a mãe, o pai, o irmão mais novo, a avó, a tia e o primo de dez anos quando a sua casa desabou naquela manhã de outubro, fica parado, fitando um álbum de família que ele acabou de encontrar nos destroços da casa.

"Este é o meu pai no dia do seu casamento", diz ele, apontando para um homem com um terno branco, e enfeites em volta do pescoço. "E esta é a minha mãe", diz ele, virando a página para mostrar uma mulher usando um vestido de seda e um véu, em tonalidades de dourado e vermelho.

Ele também acabou de encontrar o Alcorão da família nos destroços, e o embrulhou cuidadosamente, armazenando-o com outros pertences em uma barraca que montou. Depois, ele trouxe os pedaços de uma máquina de lavar destroçada.

"Me sinto muito mal", diz ele em inglês, olhando para a área devastada. O governo deu a cada família US$ 438, mas, segundo Khan, esta quantia está longe de ser suficiente para remover a primeira camada de concreto que está sobre os destroços da sua casa.

"Cinco mil pessoas moravam nesta montanha, e 70% delas estão mortas", diz ele. Eles retiraram o seu primo de seis meses de idade dos braços da sua mãe morta, após ouvirem o bebê chorar durante dois dias, conta Khan.

As suas três irmãs e o tio sobreviveram e estão morando juntos em uma residência alugada na cidade próxima de Mansehra . Eles jamais voltarão a morar no alto da montanha, mas, segundo Khan, reconstruirão as suas vidas no terreno que fica abaixo.

"Voltaremos depois deste golpe devastador", afirma Khan. "Nós voltaremos. Os meus pais estão enterrados aqui". O tremor matou 73.338 pessoas, feriu gravemente 69 mil e deixou 2,5 milhões sem casa, que agora sofrem com inverno no Paquistão Danilo Fonseca

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