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03/02/2006

Cidade de Aspen cintila na Semana de Esqui Gay

The New York Times
Denny Lee

Em Aspen, Colorado
Serena Williams, ou pelo menos sua dublê drag queen, não tinha a menor chance. Com três perucas louras, um corpete de couro e diamantes falsos do tamanho de pastilhas para a garganta, a Srta. Elaine Lancaster deslizou pelas pistas de Aspen e fez esquiar parecer tão fácil quanto descer a passarela.

Michael Brands/The New York Times - 27.jan.2006 
Jim Patton, de Los Angeles esquia montado como a tenista Serena Williams
Quando o travesti esquiador subiu no palco a céu aberto, os espectadores baixaram suas taças de champanhe e aplaudiram. Se estavam saudando a técnica ou a graça da indumentária não ficou claro. Mas os juizes, um pouco altos, jogaram confete para cima e deram uma perfeita nota 10.

"Quanto maior o cabelo, mais próximo de Deus", declarou a Srta. Lancaster, performer de Miami cujo nome verdadeiro é James Davis. Ela tirou os óculos Chanel, mas os cílios postiços de um quilômetro permaneceram. "Sou a rainha de Aspen."

Srta. Lancaster não foi a única a se dar esse título. Park City talvez tenha o Festival de Cinema de Sundance, e Turin as Olimpíadas de Inverno deste ano, mas quando janeiro passa pelas rochosas no Colorado, Aspen torna-se rainha das performances mais excêntricas e estranhas, tanto dentro quanto fora das pistas.

Todo mês de janeiro, nas últimas três décadas, este resort de esqui, sinônimo de celebridades usando casacos de pele e pessoas buscando ascensão social, se torna uma parada gay sobre a neve. Na Semana de Esqui Gay, mais de mil homens bem vestidos (e um punhado de mulheres) convergem para Aspen para sete dias de coquetéis, compras, jantares japoneses, festas na piscina, dança e, se der tempo, esqui e snowboard.

O jamboree deste ano não foi diferente, exceto que a equipe gay finalmente venceu a heterossexual no jogo de hóquei Batalha anual de Preferências Sexuais.

"Tem esqui e tem gays --o que mais eu poderia querer? Sempre que viajo, procuro um ângulo gay. É a mesma razão que leva uma pessoa heterossexual procurar um ângulo hetero quando vai a um país estrangeiro" disse Yoav Arad, 33, aluno de ciências da computação de Tel Aviv, Israel, que estava colocando sua snowboard no topo das Highlands de Aspen.

A cidade também se beneficia. Os visitantes gays ajudam a preencher o vazio entre o final de ano e a alta estação do esqui, não só em termos de bilhetes de teleférico, mas na venda de itens como capas da Prada (US$ 1.300, cerca de R$ 3.000) e suítes no St. Regis (preço inicial em torno de US$ 1.125 por noite, em torno de R$ 2.600).

"Janeiro historicamente era nosso mês mais fraco", disse Paul Menter, diretor financeiro de Aspen. Hoje, "depois do fim de ano, a Semana de Esqui Gay é a época mais lucrativa para as lojas."

Isso talvez explique o surgimento de 16 eventos similares em torno do mundo, desde a itinerante Semana de Esqui Gay na Europa, em Pila, na Itália, em março, até a Semana de Esqui Gay de Whistler, recém reorganizada, que começará sexta-feira em Whistler, na Columbia Britânica.

Há também reuniões homossexuais de snowboard (Outboard, em Keystone, Colorado), cross-country (Seattle Ski Buddies, em Methow Valley, Washington) e negros gays (Denver Winter Meltdown).

Michael Brands/The New York Times - 25.jan.2006 
Da esquerda para a direita: "Elaine Lancaster," de Miami (não disse o nome real), "Coyote-licious" (Troy Alexander de Denver), e "Dame Edna" em concurso de drags
A semana "traz a magia de um hotel gay" para uma grande área de esqui, disse Ed Salvato, editor da PlanetOut, empresa de entretenimento proprietária de Out&About, revista de viagens gays. "É também um evento esportivo, que agrada aos homossexuais atléticos. Você fica dono do lugar por uma semana."

Em Aspen neste ano, os esquiadores gays passearam como passageiros de cruzeiros em terra. Eles foram de teleférico em teleférico, butique em butique, banheira em banheira. A pessoa pode passar a semana toda em uma redoma, conversando, rindo e fofocando com outros gays ostensivamente ricos.

"Parece uma reunião de turma com meus amigos da Semana de Esqui", disse Enrique McGregor, 42, consultor de Dallas que estava com seu namorado, Mark Niermann, 42, advogado. McGregor disse que era sua nona visita.

Em Aspen, as festividades começaram no dia 15 de janeiro, com um almoço no topo de Aspen Mountain.

Classe A

No entanto, a inauguração não oficial, ao menos para os conhecedores, foi três dias depois, em uma festa na casa de Tim Gill, filantropo e fundador da empresa de software Quark.

Com a neve caindo em Aspen, cerca de 300 gays de classe A dirigiram 8 km para fora da cidade, subindo um morro iluminado com velas em recipientes de gelo, para um chalé de 1.200 metros quadrados. Para criar ambiente, um urso polar esculpido na neve foi instalado na entrada, iluminado com luzes roxas.

"O tema deste ano é a festa branca", explicou Gill, 53, enquanto garçons fortes (modelos de Denver) passavam bandejas de prata com risoto de lagosta, ostras Kumamoto e margaritas. Todo mundo estava de branco, inclusive um casal de Amsterdã que apareceu com os roupões do hotel. "É uma referência às festas do circuito", disse Gill, referindo-se às raves gays hedonistas, "onde todo mundo cheira".

"Mas aqui não", acrescentou Gill. "Em Aspen, o pó é a neve."

Não exatamente, a julgar pelos grupos de dois ou três que se alternaram trancando-se no banheiro, bem debaixo do nariz de Gill. Dizem os conhecedores que os meninos baladeiros vão para Whistler enquanto os comportados preferem Aspen. Certamente, às 23h a maior parte dos convidados já tinha ido embora.

Como disse um neozelandês: "Você pode festejar em qualquer noite, mas os dias de neve são limitados."

Os céus plúmbeos e as ressacas em alta altitude não diminuíram o entusiasmo. Às 10h da manhã do dia seguinte, os participantes marejados se arrastaram até a base de Aspen Highlands para a primeira das sete atividades oficiais daquele dia.

Com toda aquela aparelhagem de esqui de designer, era fácil identificar o grupo. Darrell Daniel, executivo de telecomunicações de 49 anos de Los Angeles, colou bandeiras de arco-íris em seus bastões de esqui, pregou alto-falantes em sua jaqueta e ligou seu tocador de MP3. "Coloco música de aeróbica e discoteca", disse ele. "Quero celebrar minha homossexualidade."

Os que dormiram até tarde encontraram outras formas de celebrar. "Comi e fiz compras o dia todo. Comprei um casaco de esqui na Gorsuch por US$ 300 (em torno de R$ 700)", disse George Harding, 46, vendedor de Denver que voltou ao hotel com aparência estranhamente descansada. Questionado se planejava levá-lo para esquiar, respondeu: "Talvez. Vamos fazer uma festa na nossa banheira ao ar livre mais tarde. Vou ver se você pode vir."

Tradição

Michael Brands/The New York Times - 26.jan.2006 
Gary Palochko de Nova York e Elisard Serra, de Barcelona, (acima), abraçam-se na Festa Pravda Vodka Pool & Ice
Quem tinha tempo? Além das bebidas após o esqui ("Só tem homem", disse um transeunte heterossexual), havia jantar no Barclay's ("Os gays dão as melhores gorjetas", comentou um garçom), noite humorística na Wheeler Opera House ("Será que os autores de pornografia gay jamais têm bloqueio de escritor?" perguntou o comediante Bob Smith) e o baile de dança de caubói "Brokeback Mountain" no Sky Hotel ("Talvez você encontre o seu Heath Ledger", dizia o convite).

E era só quinta-feira. Os melhores eventos ainda estavam por vir, como a festa na piscina de sábado à noite com Vodka Pravda à vontade e um monte de homens de sunga.

A Semana de Esqui Gay nem sempre foi tão animada. Como se lembram os mais antigos, começou inocentemente em meados dos anos 70, quando membros de vários clubes gays de esqui da Califórnia flertaram com os locais. (Aspen, como muitos resorts antigos, sempre teve fama de liberal). "Eles nos convidaram para uma festa em seu apartamento", lembra-se Jon Busch, 64, que ainda mora na cidade. "Tinha apenas cerveja e uns homens conversando."

Em poucos anos, as cervejas no apartamento se tornaram festas em salões e, com a o crescimento das multidões, também aumentou o número de eventos. Em 1996, o Fundo de Comunidade Gay e Lésbica de Aspen, grupo sem fins lucrativos, assumiu o planejamento da festa, em parte para angariar fundos para obras de caridade contra a Aids. Mas as ricas produções no final davam pouco dinheiro. Noites de gala com passeios de gôndola, afinal, não são baratas.

Para piorar as coisas, Liza Minelli e ativistas menos conhecidos boicotaram Aspen depois que eleitores de Colorado aprovaram uma emenda constitucional em 1992 que anulava proteções legais para homossexuais. (A emenda foi derrubada pela Suprema Corte federal em 1996). Outras cidades de esqui rapidamente aproveitaram a oportunidade para criar suas próprias semanas de esqui gay.

A freqüência em Aspen caiu de 5.000 para menos de 2.000 hoje, de acordo com os organizadores. Igualmente significativa, em uma subcultura que se apega à juventude, foi a mudança demográfica.

"O pessoal é muito mais velho do que eu imaginava", disse Marcel Hermes, 36, economista de Nova York, que não sabia se retornaria, mesmo depois de ver sua "amiga" Hillary Rodham Clinton parodiada nas pistas. "Não tem muitos jovens."

Aspen como a mais antiga das semanas de esqui gay pode ter perdido terreno para outros resorts, mas isso não ficou aparente na festa de fechamento de sábado à noite. Certo, não havia fogos de artifício de arco-íris. Em vez de passeios mágicos de gôndola, a festa foi feita em um restaurante com cheiro de naftalina no limite da cidade, que não tinha água corrente e custou US$ 1 (em torno de R$ 2,30) para alugar.

Mesmo assim, à meia-noite, o lugar estava tão lotado de corpos suando que ninguém percebeu que o aquecedor também estava quebrado. As bebidas voavam pelo bar. Os participantes receberam apelidos. E é claro, os homens ocuparam a pista quando o último sucesso de Madonna "Hung Up" tocou pela enésima vez naquela semana.

No meio da diversão, alguém gritou: "Olha, os meninos estão tirando a camisa." Resort de luxo nas montanhas do Colorado fatura alto durante a festividade, que ocorre há cerca de 30 anos em janeiro, reunindo público de renda alta, ávido por por baladas dentro e fora da neve Deborah Weinberg

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