UOL Notícias Internacional
 

03/02/2006

Exposição mostra como o presidente Roosevelt convenceu EUA a saírem da neutralidade

The New York Times
Edward Rothstein

em Hyde Park, Estado de NY
É reconfortante pensar na história como sendo um mapa de inevitabilidade; os eventos, tendo ocorrido, nunca poderiam ter sido diferentes. Foi desta forma que as coisas se passaram, e é desta forma que sempre serão. É esta também a sensação que se tem quando se está na propriedade de Roosevelt, em Hyde Park. Gerações de grandes personagens trilharam o caminho até este grande pedaço de natureza encravado aqui às margens do Hudson. O último e o maior destes indivíduos foi Franklin Delano Roosevelt, que construiu uma biblioteca presidencial aqui para manter os seus livros e documentos para os futuros pesquisadores, prometendo um outro tipo de permanência.

Suzy Allman/The New York Times - 31.jan.2006 
'Springwood', lar do presidente democrata Roosevelt, onde fica sua biblioteca, em exposição

Mas, basta deixar esta informativa, apesar de modesta, exposição, "Freedom From Fear: FDR, Commander in Chief" (Do Medo à Liberdade: Franklin Delano Roosevelt, Comandante em Chefe"), e essa sensação fica deliberadamente abalada.

A exibição na Biblioteca e Museu Presidencial Franklin Delano Roosevelt tem início com uma foto de uma coluna de fumaça saindo do navio de batalha Arizona, que está afundando, durante o ataque japonês a Pearl Harbor. Perto da foto há um rascunho datilografado do famoso discurso feito por Roosevelt no Congresso no dia seguinte: "Ontem, 7 de dezembro de 1941, uma data que viverá na história mundial".

Mas as palavras "história mundial" foram nitidamente riscadas, e acima delas, na caligrafia inconfundível de Roosevelt, está a expressão substituta: "infâmia".

Sem aquela pequena mudança, o ataque japonês poderia ter sido visto como algo saído de um livro acadêmico, um evento completado e inevitável na "história mundial" --e não como algo que exigia resposta no presente, e que conduziria, de forma aterradora, a um futuro desconhecido.

Ver aquele rascunho gera o mesmo efeito. A história começa a ser vista menos como um "encontro com o destino" --para usar uma das outras famosas frases de Roosevelt-- e mais como algo contingente, algo que foi objeto de luta, uma coisa caótica, que poderia ter tido um resultado muito diferente.

Nas salas de exibição permanente da biblioteca e do museu, um outro documento deixa claro que esta é uma das lições centrais: "o resultado da guerra não tinha nada de determinado". Cynthia Koch, diretora da biblioteca e do museu, também enfatiza como a liderança de Roosevelt foi importante para tal resultado. E é isso o que faz esta mostra particular, patrocinada por Herman Eberhardt, e inaugurada em 5 de novembro.

FDR Presidential Library/The New York Times - 14.jul.1938 
Roosevelt governou os EUA entre 1933 e 1945, período em que o país se recuperou da Grande Depressão e liderou os aliados rumo à vitória na Segunda Guerra Mundial
Assim, após o discurso do "Dia da Infâmia", a exposição retrocede para proporcionar um relato cronológico sóbrio da Segunda Guerra Mundial, com as decisões de Roosevelt enfatizadas, e alguns dos raros documentos da coleção de 17 milhões de páginas da biblioteca em exibição.

Existe uma "anotação feita na cama", rabiscada por Franklin Delano Roosevelt às 3h05, em 1º de setembro de 1939, após o embaixador na França ter ligado para ele a fim de lhe informar que Hitler havia invadido a Polônia. Há também telegramas fascinantes de Winston Churchill, nos quais é possível sentir o Império Britânico do Velho Mundo se desagregando, quando ele busca ajuda devido à agressão alemã.

Outros objetos fornecem um testemunho das conseqüências da guerra global. "Saiam e abram à sua frente um mapa-múndi", disse Roosevelt em uma das suas transmissões de rádio em 1942, revelando o seu talento quase sobrenatural para conversas envoltas em camaradagem. "Acompanhem as referências que farei quanto às linhas de batalha desta guerra, que cercam o mundo".

E aqui está um globo imenso, dado a Roosevelt em 1942 pelo general George C. Marshall, comandante do Exército (ele também deu um globo a Churchill), e uma série de mapas, feitos para o presidente pela National Geographic Society, com 12 nichos rotulados ("Teatro de Guerra", "Europa Central", "Terras Clássicas"). Roosevelt, após ter se reunido com Churchill em Casablanca em 1943, disse que "pela primeira vez na história, as discussões estratégicas precisavam envolver todo o quadro global".

Em tudo isso, a biblioteca presidencial não tem condições de igualar o efeito das Salas do Gabinete de Guerra em Londres, o centro subterrâneo secreto a partir do qual Churchill liderou o esforço de guerra sempre que os bombardeios alemães tornavam muito perigoso trabalhar em outro lugar. Esse museu faz com que o resultado da guerra pareça ser completamente previsível: os instrumentos de inteligência, ainda lá --alfinetes nos mapas e telefones com cabos--, mostram o quão precária era toda a iniciativa.

Embora Roosevelt utilizasse um escritório na sua biblioteca e fizesse algumas transmissões pelo rádio a partir dele, Hyde Park não só jamais esteve sob ataque físico, nada no local fala sequer remotamente sobre a situação de precariedade e risco --não se fala sequer sobre a cadeira de rodas de Roosevelt, fabricada de forma a se parecer com uma cadeira de madeira comum, de forma que mal se percebesse que contava com grandes rodas.

Assim, algo deve ser evocado daquela era. Uma sala de exibição faz lembrar uma sala de estar da década de 1940, na qual Roosevelt pode ser ouvido lendo partes dos seus discursos de rádio (as suas "Conversas ao Pé da Lareira"), auxiliado por uma anômala tela de projeção que mostrava as notícias da mídia.

Em uma outra sala, decorada como uma sala de cinema, trechos de filmes mostram a forma enérgica como a presença de Roosevelt estimulava a cultura popular: ele apareceu em histórias em quadrinhos, em uma música de Bing Crosby, e no filme de 1942 "Yankee Doodle Dandy", quando George M. Cohan (Jimy Cagney) conhece o presidente na Casa Branca.

Mas em nenhum momento as realizações de Roosevelt parecem ser simples. A exposição mostra como eram poderosos os sentimentos isolacionistas norte-americanos muito antes de Pearl Harbor. Um broche de 1939 apóia a "Campanha Nacional pela Paz". Um outro promete: "Aliste Roosevelt e ele alistará você".

Um telegrama de 1940 de Joseph P. Kennedy, o embaixador dos Estados Unidos no Reino Unido, revela a preocupação com a possibilidade de os Estados Unidos serem deixados "segurando a sacola" para a guerra perdida dos britânicos, e diz que o seu país faria muito melhor se "lutasse no seu próprio quintal".

Ele acabou renunciando ao cargo, à medida que Roosevelt conduzia o país para mais perto da guerra na Europa. "Esta nação permanecerá sendo uma nação neutra", declarou Roosevelt em um discurso no rádio após Hitler ter invadido a Polônia. "Mas eu não posso pedir que todo norte-americano também permaneça neutro. Não se pode pedir nem mesmo a um indivíduo neutro que cerre a sua mente e a sua consciência".

Houve acusações por parte dos seus críticos de que Roosevelt estaria impondo a guerra sobre o seu próprio país ao se empenhar tanto em ajudar o Reino Unido. Mas, para Churchill, a hesitação de Roosevelt era preocupante, já que aparentava ser extremamente cautelosa, como se o presidente norte-americano estivesse agindo de acordo com a opinião pública.

Depois, tão logo ingressou na guerra, tendo o Japão como causa imediata (um pôster proclama diretamente: "Vinguem o 7 de dezembro"), Roosevelt acreditou que a estratégia militar teria que ser "a Alemanha primeiro", com a focalização das energias iniciais na Europa.

Outras decisões tiveram conseqüências mais ambíguas. Algumas --a de não bombardear Auschwitz, por exemplo, ou a de colocar os norte-americanos descendentes de japoneses em campos de concentração-- são abordadas com comunicados breves e reproduções de documentos, ressaltando a evidência e as controvérsias.

Mas a avaliação de que um Roosevelt enfermo estava muito doente para negociar com Stalin nas discussões sobre a Europa do pós-guerra em Yalta, em fevereiro de 1945 (Roosevelt morreria em abril) são descartadas bem rapidamente, e os debates sobre a Alemanha do pós-guerra e Yalta poderiam ter sido mais detalhadas.

Um enigma sobre Franklin Delano Roosevelt, na verdade, é que embora ele parecesse liderar o país com uma mão firme, como fez Churchill, ele oscilava, inescrutavelmente, nas suas idéias, enquanto os membros do seu gabinete e assessores se desentendiam.

Há, talvez, uma sombra de hagiografia aqui, mas como isto poderia deixar de ocorrer, ao se levar em conta a visão de Roosevelt, os seus sacrifícios e realizações? Como presidente, ele também tocou em um nervo popular, aquele enfatizado por entrevistas de guerra gravadas com cidadãos de todo o país, que podem ser ouvidas em um quiosque de áudio.

A afeição também pode ser sentida nas notas de condolência enviadas a Eleanor Roosevelt depois da morte do seu marido, apenas meses antes do fim da guerra, e dias antes do seu discurso que abriria a conferência para a criação da Organização das Nações Unidas.

Na véspera de sua morte, Roosevelt trabalhou em um discurso sobre o mundo do pós-guerra, lembrando ao país: "Um grande poder implica uma grande responsabilidade". Gosto do fato de a exposição também mostrar o folhetim de mistério encontrado na sua mesa de cabeceira: "The Punch and Judy Murders", de Carter Dickson.

Seres humanos, e não ícones, estão em jogo --algo que sempre tem o efeito de ressaltar a humildade. Como Churchill afirma de forma sombria: "Questões estupendas estão se desenrolando em frente aos nossos olhos, e somos apenas grãos de pó que se alojaram durante uma noite no mapa do mundo".

AO PÉ DA LAREIRA

A exposição "Freedom From Fear: FDR, Commander in Chief" estará funcionando até 5 de novembro no Museu e Biblioteca Presidencial Franklin Delano Roosevelt, no endereço 4079 Albany Post Road (Rota 9), Hyde Park, Estado de Nova York, telefone (800)337-8474, site na Internet www.fdrlibray.marist.edu.

O museu está aberto diariamente, de 9h às 17h, até abril, e de 9h até 18h, de maio a outubro, fechando no Dia de Ação de Graças, no Natal e no Ano Novo. O ingresso conjunto para o Sitio Histórico Nacional da Casa de Franklin Delano Roosevelt e o Museu e Biblioteca Presidencial custa US$ 14 [cerca de R$ 32]. Para indivíduos de menos de 16 anos a entrada é gratuita. A entrada apenas para o museu custa US$ 7. A Biblioteca de Pesquisa abre de segunda a sexta-feira, das 8h45 às 17h, exceto nos feriados nacionais; a entrada é gratuita. Informações podem ser obtidas no site: www.fdrlibrary.marist.edu/research.html.

O museu fica 6,5 quilômetros a norte de Poughkeepsie, Estado de Nova York. Para chegar lá de carro, a partir de Manhattan, pegue a Henry Hudson Parkway até o Taconic Parkway, e prossiga até a Rota 84 Oeste. Siga a Rota 84 Oeste até a Rota 9 Norte, e continue na Rota 9 Norte até se distanciar um pouco de Poughkeepsie. Sua biblioteca presidencial traz documentos que contam a história Danilo Fonseca

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