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03/02/2006

Mulheres, a arma secreta do Hamas, conquistam votos nas urnas e um novo papel

The New York Times
Ian Fisher*

Na Cidade de Gaza, Faixa de Gaza
O Hamas é conhecido e temido por seus homens, armados com bombas suicidas. Mas em seu triunfo eleitoral aqui na semana passada, uma arma secreta foram suas mulheres. A um grau que os especialistas disseram ser novo na conservadora sociedade muçulmana da Faixa de Gaza, o Hamas usou suas mulheres para vencer, as enviando de porta em porta com listas de candidatos e aos locais de votação para campanha de boca-de-urna.

George Azar/Thew New York Times - 2.fev.2006 
Legisladoras do Hamas na Palestina ajudaram o grupo a obter grande vitória nas urnas

Agora, em um controle surpreendente da política palestina, o Hamas pode se gabar de suas mulheres ocuparem seis de suas 74 cadeiras no Parlamento --dando às mulheres do grupo radical, guiadas pelo seu entendimento do Islã, um novo e não acostumado papel público.

"Nós vamos liderar as fábricas, nós vamos liderar os agricultores", disse Jamila Al Shanty, 48 anos, uma professora na Universidade Islâmica daqui que conquistou uma cadeira no Parlamento. "Nós vamos nos espalhar pela sociedade. Nós vamos mostrar às pessoas do mundo que a prática do Islã em relação às mulheres não é bem conhecida."

Se a previsão de Shanty for verdadeira, o papel da mulher certamente não seguirá as linhas ocidentais seculares seguidas em grande parte, e com avanços reais para as mulheres, durante décadas de liderança da derrotada facção Fatah de Iasser Arafat. O modelo será o Islã: as mulheres do Hamas vestem lenços de cabeça e seguem regras rígidas de segregação social dos homens.

Uma destas mulheres que servem de modelo --uma das poucas mulheres no Hamas bem conhecidas antes da eleição- tem um histórico particularmente perturbador para muitos em Israel e no restante do mundo.

Ela é Mariam Farhat, a mãe de três seguidores do Hamas mortos por israelenses. Ela se despediu de um filho em um vídeo caseiro antes dele invadir um assentamento israelense, matando cinco pessoas e depois sendo morto a tiros. Ela disse depois, em uma citação bastante divulgada, que desejava ter 100 filhos para sacrificar daquela forma. Conhecida como a "mãe dos mártires", ela apareceu em um vídeo de campanha empunhando uma arma.

Agora ela é uma das seis mulheres que se transformaram em parlamentares do Hamas, eleitas na lista do partido. As leis eleitorais incluem cotas para mulheres para todos os partidos. Ela foi assediada nesta semana, em um comício de vitória do Hamas no campus feminino da Universidade Islâmica, por mulheres jovens, francas e instruídas, que não vêem contradição entre militância religiosa e modernidade.

"Ela é a mãe de cada casa, de cada pessoa", disse uma das estudantes, Reem El Nabris, 20 anos, que beijou e abraçou Farhat.

Farhat, 56 anos, que não era ativa na política, disse que espera ser merecedora dos elogios como exemplo. Mas ela disse que seu papel não deve ser o único para as mulheres do Hamas.

"Não se trata apenas de sacrificar os filhos", disse ela após o comício. "Há tipos diferentes de sacrifício, de dinheiro, de educação. Todos, de acordo com sua capacidade, devem se sacrificar."

A Universidade Islâmica, um oásis de ordem em meio ao caos de Gaza, mostra tão bem quanto qualquer lugar as imagens conflitantes do Hamas em relação às mulheres que fortemente o apóiam. Uma fortaleza para o Hamas, apesar de não exclusivamente para seus simpatizantes, a universidade é dividida em duas por gênero, e pode ser estranho passar de um corredor em meio a uma multidão sem um rosto feminino para outro apenas de mulheres, todas com suas cabeças cobertas, algumas usando véu pleno, o nikab. E em um dia de comício, algumas também usavam também um boné do Hamas.

Mas o Hamas encoraja, e em alguns casos até paga, o ensino destas mulheres. Sabrin Al Barawi, 21 anos, uma estudante de química, disse que foi criada dentro dos programas do Hamas para mulheres: grupos sociais, cursos de liderança, aulas sobre o Alcorão.

"Não é apenas religião", disse Ahlan Shameli, 21 anos, que está estudando computação. "É Internet, computadores."

"Antes do Hamas, as mulheres não estavam cientes da situação política", disse ela. "Mas o Hamas mostrou e esclareceu o que estava acontecendo. As mulheres se tornaram muito mais cientes."

Em quase duas décadas, a alta liderança do Hamas parecia reservada aos homens. Mas os simpatizantes do Hamas, assim como os do Fatah e de outros grupos, concordam com Shameli de que o Hamas conquistou um forte apoio entre as mulheres. De fato, estudos e os resultados das eleições municipais mostraram que as mulheres apóiam o grupo em um número maior do que os homens.

Se o papel mais visível dos homens tem sido o combate a Israel, os programas sociais do Hamas têm atraído a lealdade das mulheres. O Hamas oferece programas de assistência para viúvas de homens-bomba suicidas e aos pobres, clínicas de saúde, creches, jardins de infância e pré-escola, além de salões de beleza e academias de ginástica apenas para mulheres.

As mulheres "são aquelas que levam as crianças às clínicas", disse Mkhaimar Abusada, professor de ciência política da Universidade Al Azhar daqui. "São elas que levam as crianças às escolas."

E durante as eleições, ele disse, o Hamas mobilizou estas mesmas mulheres como se "estivesse se preparando para esta ocasião há 30 anos", as usando como cabos eleitorais para campanha nas bases.

"É algo perceptível na Faixa de Gaza", ele disse. "Na sociedade palestina, nossos valores não aceitam que as mulheres saíam para fazer campanha na rua. É realmente um novo fenômeno, especialmente para o Hamas."

Reem Abu Athra, que dirige as questões das mulheres na ala jovem do Fatah, disse que seu partido pareceu não compreender quão mobilizadas eram as mulheres do Hamas -e que não igualou o trabalho de base feito pelas mulheres do Hamas durante as eleições. Ela disse que o Fatah pareceu pensar que conquistaria naturalmente o voto das mulheres, por ser o partido mais secular e que, de muitas formas, tem sido um líder no mundo árabe no que se refere a direitos das mulheres.

"O Fatah considerou certo o voto das mulheres e por este motivo perdeu", ela disse.

As perguntas agora parecem ser qual papel exercerão as mulheres do Hamas e como exatamente isto será expressado segundo as leis do Islã.

Naima Sheikh Ali, uma legisladora do Fatah que dirige um grupo para as mulheres daqui, disse que a interpretação rígida do Islã pelo Hamas continuará sendo um obstáculo para a verdadeira participação das mulheres. Elas não podem, por exemplo, ser juizes segundo o Islã, ela disse, e no geral permanecerão segregadas e colocadas de lado.

"Sim, eles respeitam as mulheres, mas como eles concebem tal respeito", ela disse. "É segundo um ponto de vista religioso fundamentalista. Para o movimento das mulheres, isto será um retrocesso de vários passos."

Shanty, uma das novas parlamentares do Hamas, discorda. Ela disse que as mulheres, e especialmente as esposas dos altos líderes do Hamas, há muito têm tido um papel central na liderança do Hamas, apesar de ter dito que isto não tem sido divulgado para protegê-las.

"Toda decisão tomada pelo Hamas passa por nós, não após a decisão ter sido tomada, mas antes", ela disse.

Uma medida da participação das mulheres pode ser o grau com que participam no tratamento dos principais problemas que enfrentam os palestinos, não apenas em questões sociais que afetam as mulheres, famílias ou crianças.

Em uma entrevista antes de conquistar a cadeira no Parlamento, Mouna Mansour, 44 anos, uma professora de física e viúva de Jamal Mansour, um líder do Hamas assassinado, parecia bastante engajada nos temas centrais. O processo de paz com Israel, ela disse, está morto. Deve haver um Estado palestino, mas não às custas de Jerusalém ou das reivindicações dos refugiados palestinos, que segundo as negociações anteriores não seriam autorizados a se mudarem para o que hoje é Israel.

O Hamas, ela disse, precisa reconstruir a economia, se livrar da pobreza e do desemprego e, por ora, manter o cessar-fogo com Israel.

Mas ela também defendeu a decisão de um jovem de Nablus de se tornar um homem-bomba suicida. "Por que não fazer a pergunta por outro ângulo?" ela disse. "Por que ele explodiria a si mesmo se não fosse alvo de tantas pressões? O que leva você a fazer tal coisa amarga? As pessoas fazem isto por raiva e injustiça, para devolver a vida ao seu povo sacrificando a sua própria."

Mas também há um desconforto diante do que o Hamas poderá representar para as mulheres. Pelo menos uma estudante na Universidade Islâmica disse que o Hamas representa algo desconhecido para mulheres como ela. A estudante, Rula Zaanin, 19 anos, disse que o Hamas, pelo menos, conquistou sua confiança.

"Muitos palestinos amam o Hamas e o queria", disse ela. "Mas nós não sabemos o que acontecerá."

*Steven Erlanger contribuiu com reportagem em Nablus, Cisjordânia. Mas não se devem esperar avanços na condição feminina no Islã George El Khouri Andolfato

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