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03/02/2006

Nova Orleans poderá eleger branco após 28 anos

The New York Times
Adam Nossiter

Em Nova Orleans
Em grande confusão e circunstâncias peculiares, esta cidade se viu repentinamente no meio de uma inesperada campanha eleitoral para prefeito. O resultado poderá devolver a esta cidade uma antiga ordem: um branco poderá ser eleito prefeito de uma cidade que, até poucos meses atrás, era de maioria negra.

Tal resultado seria inconcebível antes do furacão, mas a alta probabilidade de uma das famílias políticas mais poderosas da Louisiana entrar em uma disputa, que quase deixou de acontecer, poderá transformar ainda mais a composição política que predominou aqui por quase três décadas.

O democrata Mitch Landrieu, vice-governador do Estado e filho do último prefeito branco da cidade --Moon Landrieu, que deixou o cargo em 1978-- deverá anunciar a qualquer momento sua entrada na disputa que ajudará a definir uma cidade radicalmente remodelada.

Entre seus oponentes, ele enfrentará o prefeito C. Ray Nagin, também democrata, cuja popularidade aqui e em outras partes caiu diante das críticas à sua atuação durante o furacão Katrina e seus recentes comentários sobre a futura composição racial da cidade. Com o atraso na recuperação e milhares de moradores ainda deslocados, os líderes empresariais e cidadãos comuns daqui já estão acompanhando esta disputa em início com interesse incomum.

Nenhuma candidatura potencial gerou mais comentários do que a de Landrieu. Sua família é popular tanto entre os eleitores negros quanto entre os liderais brancos da cidade. Moon Landrieu inseriu os negros na política municipal pela primeira vez desde a Reconstrução [período posterior à Guerra de Secessão 1861-1865].

Sua filha Mary, uma senadora federal, uma rara democrata branca do Sul, foi reeleita com pequena margem em 2002 graças ao apoio dos eleitores negros. E o próprio Mitch Landrieu, nos anos que representou o distrito de Uptown de Nova Orleans na Assembléia Legislativa, foi um incomum político da Louisiana a conseguir superar a divisão racial.

No final dos anos 80, Landrieu foi um dos poucos deputados estaduais brancos a se distanciarem publicamente de David Duke, o ex-líder da Ku Klux Klan, quando Duke foi eleito para a Assembléia Legislativa pela suburbana Metairie. Landrieu condenou Duke enquanto outros deputados brancos, particularmente os republicanos, o apoiavam. Tal posição solidificou seu apoio entre os negros.

Mas se Landrieu, 45 anos, se tornar prefeito, ele será eleito por uma coalizão muito diferente daquela que elegeu seus parentes: os brancos, e não os negros, provavelmente lhe darão o empurrão principal. A tempestade acabou com a antiga demografia da cidade, enviando dezenas de milhares de moradores negros ao exílio e deixando uma cidade predominantemente branca.

Apesar do encorajamento para que os eleitores espalhados votem em trânsito, o processo certamente será caótico, particularmente considerando que muitos eleitores serão difíceis de encontrar. Haverá uma forte tentação para interpretar sua presença na disputa, e qualquer popularidade que obtiver, como um símbolo da mudança do eleitorado na cidade.

Mas em um dos paradoxos que ajudam a definir a natureza política incomum desta cidade, Landrieu é visto por alguns líderes negros influentes como uma figura menos divisória racialmente do que Nagin, um negro que obteve sua margem de vitória quatro anos atrás junto aos eleitores brancos prósperos.

O candidato derrotado por Nagin em 2002 obteve mais apoio dos eleitores negros trabalhadores do que o prefeito; estes mesmos eleitores estão entre aqueles que se sentem mais desconfortáveis com a forma como Nova Orleans está se reconfigurando.

Nagin sempre foi visto com suspeita por segmentos significativos da comunidade negra daqui, e isto nunca foi mais verdadeiro do que agora. A comissão de recuperação do prefeito, composta principalmente por empresários brancos, tem sido altamente criticada aqui por propostas que poderão encolher a cidade em detrimento dos moradores negros.

Ao mesmo tempo, a reação dos brancos ao discurso de Nagin do Dia de Martin Luther King, no qual pediu pela volta de Nova Orleans como uma "cidade chocolate", foi intensamente rejeitada, com editoriais e empresários se queixando dele. E o prefeito pode também não ter agradado aos eleitores negros.

"Os negros não apoiaram o discurso porque não acham que tenha sido genuíno", disse Cedric Richmond, um deputado estadual do leste de Nova Orleans e que é chefe da bancada negra na Assembléia Legislativa. Richmond previu que em um segundo turno entre Landrieu e Nagin, Landrieu venceria com facilidade, com um apoio negro significativo.

Richmond acrescentou: "Mitch é visto como alguém que pode unir as raças". Outra importante figura política negra daqui, o presidente da Câmara dos Vereadores, Oliver Thomas, expressou um sentimento semelhante: "Dado o relacionamento dos últimos quatro anos entre o atual prefeito e todos", ele disse, "eu acho que todos os votos estão em aberto".

Alguns analistas políticos disseram que o poder do nome Landrieu será suficiente para formar uma coalizão birracial semelhante à que os Landrieus formaram por anos. Seu retrospecto em 16 anos no Legislativo é considerado modesto, com seu feito mais notável sendo um esforço para reformar o sistema de justiça para menores infratores do Estado tomado por escândalos.

Mas o compromisso da família com os direitos civis, remontando a posição solitária de seu pai contra as leis segregacionistas na Assembléia Legislativa nos anos 60, é visto como um trunfo capaz de superar tudo.

"O fator Landrieu é imenso", disse o cientista político Wayne Parente, da Universidade Estadual da Louisiana. "Mitch Landrieu, devido ao peso de seu nome e apoio anterior, será o favorito, um claro favorito." Politicamente, disse Parent, "ela é provavelmente a família mais importante do Estado".

O cargo em si provavelmente faria qualquer candidato hesitar. Com Nova Orleans quebrada, ainda semi-arruinada pelo furacão Katrina e desesperada por mais ajuda federal, a disputa poderia importar menos do que a disposição do candidato de pressionar o governo federal a acelerar a ajuda à área.

Ao mesmo tempo, questões sobre a própria legitimidade de realizar uma eleição em um momento em que tantos moradores estão fora da cidade --o próprio Nagin as levantou novamente na quarta-feira no Capitólio-- têm pairado há meses. A princípio, a governadora Kathleen Babineaux Blanco [democrata] adiou por tempo indeterminado a eleição, originalmente prevista para este mês.

Tal decisão impopular provocou ume enxurrada de processos, e no mês passado o Estado, sob pressão de um juiz federal, concordou em realizar o primeiro turno em 22 de abril, com um possível segundo turno em 20 de maio. O Estado prometeu uma campanha para divulgá-la em cidades por todo o país, juntamente com o envio em massa de cédulas para voto em trânsito. Mas isto não minimizou as dúvidas de alguns grupos.

"Eu sou favorável às eleições, mas quero ter certeza de que serão eleições justas", disse o prefeito na quarta-feira. "O fato é que, como prefeito da cidade de Nova Orleans, eu ainda não disponho da lista da FEMA que permitirá que eu me comunique com meus cidadãos, que estão espalhados por 44 Estados diferentes, para ao menos informá-los que eles podem voltar, o que me faz parar e pensar se realmente teremos uma eleição justa."

Richmond, o deputado estadual, reconheceu as preocupações, mas disse que a redefinição da liderança da cidade no momento é de grande importância. Com uma farpa contra Nagin, ele disse: "Eu acho que precisamos de uma eleição, porque precisamos de uma liderança que não temos no momento. A cidade está racialmente dividida. Nós precisamos unir as raças". Inundação muda quadro político da cidade; político branco popular entre negros é apontado como favorito; ação de Nagin é criticada George El Khouri Andolfato

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