UOL Notícias Internacional
 

07/02/2006

Cresce a fúria muçulmana pelas caricaturas ridicularizando Maomé em jornais europeus

The New York Times
Carlotta Gall, em Kandahar, Afeganistão e

Craig S. Smith, em Paris*
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    A fúria muçulmana diante das charges dinamarquesas satirizando o Profeta Maomé continuou a crescer pela Ásia e Oriente Médio nesta segunda-feira (6/2), se tornando violenta no Afeganistão, onde pelo menos quatro manifestantes morreram e mais de uma dúzia de policiais e manifestantes ficaram feridos. Enquanto a inquietação ganhava força, diplomatas europeus davam telefonemas e se espalhavam pelo mundo muçulmano, pedindo aos seus pares para que emitissem declarações que possam ajudar a acalmar a turbulência que já destruiu o consulado dinamarquês no Líbano e as embaixadas da Dinamarca e Noruega na Síria, no sábado.

    Lynsey Addario/The New York Times 
    Manifestantes tentam incendiar a embaixada dinamarquesa em Teerã, nesta segunda-feira

    Na segunda-feira, os manifestantes foram às ruas na Turquia, Indonésia, Índia, Tailândia e até mesmo na Nova Zelândia, onde os jornais republicaram recentemente as charges. Um adolescente morreu na Somália na segunda-feira, quando a polícia provocou correria ao atirar para o ar para dispersar os manifestantes.

    Uma multidão em Teerã, a capital do Irã, incendiou a embaixada dinamarquesa e quebrou as janelas da embaixada da Áustria, que agora ocupa a presidência da União Européia. Milhares de estudantes fizeram manifestação no Cairo. A diplomacia foi complicada por outras questões internacionais e políticas domésticas nos países onde ocorreram os protestos, com as manifestações mais significativas tendo ocorrido em locais "muito peculiares", incluindo Irã, Síria e Gaza, segundo Christina Gallach, uma porta-voz de Javier Solana, o chefe de política externa da União Européia.

    O Irã, por exemplo, está enfrentando pressão internacional para suspender seu programa nuclear e a Síria está isolada internacionalmente desde o assassinato do ex-primeiro-ministro libanês Rafiq Hariri, no ano passado.

    Gallach disse na segunda-feira: "O que pedimos aos líderes árabes, e aos próprios árabes, que vêem a importância de um bom relacionamento com a Europa e o mundo ocidental, é para que saiam e se manifestem claramente sobre a importância de não permitir que a situação se deteriore a ponto do único a sofrer ser o Islã moderado".

    Segundo Gallach, Solana falou com líderes da Organização da Conferência Islâmica e do Conselho de Cooperação do Golfo, assim como com representantes da Liga Árabe e diplomatas de vários países árabes. Representantes da União Européia também contataram ministros de governo de todo mundo árabe.

    Os governos árabes têm enfrentado a crescente onda de protestos com aceitação tácita, quando não apoio, ao mesmo tempo em que buscam impedir a violência.

    A Câmara de Comércio do Qatar disse que suspendeu os negócios com as delegações da Dinamarca e da Noruega, pedindo aos Estados muçulmanos que façam o mesmo. Em cidades onde pouco se ouve falar de protestos, como Dubai, manifestações contra a Dinamarca têm sido realizadas abertamente. Em algumas, os manifestantes são transportados por ônibus pagos pelo governo.

    Um funcionário de um ministério de assuntos religiosos nos Emirados Árabes Unidos, falando sob a condição de anonimato, disse: "Você não tem escolha a não ser participar do coro. Aquele que não se manifestar parecerá que aceita tacitamente que o Profeta seja insultado".

    Ihsan Bu-Huhleiga, um economista saudita e membro do conselho consultivo Shura, disse: "Parece que os dinamarqueses não levaram a questão a sério no início".

    O jornal "Jyllands-Posten" da Dinamarca publicou originalmente as 12 charges em setembro de 2005 e elas foram reproduzidas na imprensa européia na semana passada.

    Os diplomatas dinamarqueses vêem uma mão ainda mais pesada em alguns dos protestos e violência. "A Síria fracassou em proteger uma missão diplomática. Se você olhar para as imagens, você pode ver que os seguranças deram às costas", disse Thomas May, o cônsul-geral da Dinamarca em Dubai, após o ataque contra a embaixada na Síria. "Todos esperavam que quando o jornal publicasse o pedido de desculpas, quando nosso primeiro-ministro apresentasse um pedido de desculpas oficial, isto esfriaria as coisas. O que mais podemos fazer?"

    A pior violência na segunda-feira ocorreu no Afeganistão, do lado de fora da principal base militar americana em Bagram, ao norte da capital, Cabul, onde mil manifestantes entraram em choque com a polícia afegã que protege o portão externo da base. Kabir Ahmad, o chefe do distrito de Bagram, disse que cerca de 5 mil pessoas, reunidas por clérigos locais, se manifestavam pacificamente na vizinha Charikar antes de alguns deles se deslocarem para a base.

    Três manifestantes foram mortos na violência que se seguiu e um morreu posteriormente. Cinco outros ficaram feridos enquanto a polícia lutava para impedir que os manifestantes atravessassem o portão. Oito policiais ficaram feridos.

    Outro manifestante foi morto em Mehtarlam, a leste de Cabul, enquanto centenas de pessoas protestavam. O Ministério do Interior atribuiu a morte a disparos feitos pela própria multidão. Dois policiais ficaram feridos lá. A agência de notícias "The Associated Press" informou que dois manifestantes morreram em Mehtarlam.

    Em Cabul, jovens furiosos atiraram pedras contras as embaixadas da Dinamarca, Grã-Bretanha e França e contra o escritório da ONU, além de quebrarem as janelas das guaritas diante de organizações estrangeiras. O presidente Hamid Karzai pediu ao povo afegão para que perdoasse os responsáveis pelas charges.

    "Nós temos como muçulmanos a coragem para perdoar e não transformar a questão em uma disputa entre culturas e religiões", disse ele na sexta-feira.

    Membros do Parlamento afegão também condenaram a publicação das charges, uma deles exibindo o Profeta Maomé com chifres de diabo, e pediram para que a Dinamarca processe os responsáveis.

    No Irã, que já retirou seu embaixador da Dinamarca e está revendo seus laços comerciais com os países onde as charges foram publicadas, o presidente Mahmoud Ahmadinejad criticou na segunda-feira o argumento dos jornais europeus de liberdade de expressão para justificar a publicação das charges.

    "Se seus jornais são livres por que eles não publicam nada sobre a inocência dos palestinos e nem protestam contra os crimes cometidos pelos sionistas?" a agência semi-oficial de notícias Mehr o citou como tendo dito.

    Enquanto isso, várias centenas de iranianos atacavam a embaixada dinamarquesa em Teerã, atirando coquetéis Molotov e cantando "Deus é Grande", "Morte a Israel" enquanto a polícia assistia.

    Enquanto a fachada do prédio queimava e jovens conseguiam escalar e evitar o arame farpado que protegia a instalação diplomática, uma voz nos alto-falantes dizia à multidão que as charges faziam parte da conspiração sionista, orquestrada por aqueles que "temem nosso fundamentalismo".

    "O sangue em nossas veias é um presente a nosso líder", gritava o orador no microfone.

    No final a polícia disparou gás lacrimogêneo contra a multidão, mas os manifestantes logo começaram a lançar novamente bombas de gasolina.

    Enquanto as chamas recomeçavam, um editor de jornal afiliado à milícia Basiji, que organizou o protesto, chegou para acalmar a multidão. Ele pediu aos manifestantes que ficassem diante da embaixada por uma semana para mostrar sua revolta, mas pediu para que parassem de atirar bombas incendiárias porque "elas serão usadas contra nós".

    Um dia após manifestações violentas terem levado à destruição da missão dinamarquesa no Líbano e à renúncia do ministro do Interior libanês, Hassan Al Sabaa, os políticos libaneses pediam paciência.

    Muitos expressaram o temor de que os protestos poderiam se tornar um catalisador de novas tensões sectárias, culpando forasteiros pela violência do domingo, especialmente os sírios, um sentimento repetido pelo primeiro-ministro Fouad Siniora, que chamou os protestos de "um ataque contra o Islã e contra os princípios do Sagrado Alcorão".

    Os moradores de Achrafieh, um bairro predominantemente cristão que viu o pior da violência, varreram os cacos de vidro de seus carros e foram trabalhar com os pára-brisas quebrados. Os transeuntes paravam para espiar o que restou do consulado dinamarquês e as janelas de uma igreja maronita que foram alvos de pedras. Cerca de 400 manifestantes saíram às ruas ao anoitecer para uma contramanifestação, pedindo a união entre cristãos e muçulmanos libaneses.

    Toufic Abdou, 20 anos, um estudante de direito e membro das Forças Libanesas que participou da contramanifestação, disse: "Ontem os manifestantes destruíram uma igreja em uma área cristã", disse Abdou. "Eles se diziam muçulmanos libaneses mas não eram. Eram na verdade sírios e iranianos. Nós estamos aqui para dizer que os cristãos do Líbano estão aqui para ficar."

    Protestos pacíficos ocorreram na segunda-feira na Turquia, apesar de um padre católico ter sido morto à bala no domingo, no porto de Trebizond no Mar Negro, por um jovem gritando "Deus é Grande".

    O ministro das Relações Exteriores, Abdullah Gul, falando na televisão na segunda-feira, criticou a violência ao redor do mundo. Ele acrescentou que a liberdade de imprensa era necessária, "mas, isto não significa que todos tenham o direito de dizer ou escrever qualquer coisa, sem quaisquer limites, ou que façam o que vier em suas mentes sem considerarem as conseqüências".

    *Abdul Waheed Wafa, em Cabul; Hassan Fattah, em Beirute; Sebnem Arsu, em Istambul; e Somini Sengupta, em Nova Déli, contribuíram com reportagem. Manifestantes atacam embaixadas no Irã; garoto morre na Somália George El Khouri Andolfato
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