UOL Notícias Internacional
 

07/02/2006

Figura no caso J.T. Leroy diz que parceira é culpada

The New York Times
Warren Saint John
Uma figura central no caso do misterioso escritor J.T. Leroy se apresentou para dizer que não existe ninguém chamado J.T. Leroy e que os livros publicados sob tal nome foram na verdade escritos por uma mulher de San Francisco chamada Laura Albert.

Geoffrey Knoop, o parceiro de Laura nos últimos 16 anos, disse em uma entrevista por telefone na noite de sábado que viu Laura escrever os livros de J.T. Leroy no apartamento deles em San Francisco. Ele acrescentou que por grande parte da última década ele esteve presente quando Laura se fazia passar por J.T. Leroy em conversavas ao telefone com editores, escritores e celebridades desavisados, usando uma voz de um homem jovem com sotaque da Virgínia Ocidental. Laura Albert, 40 anos, é natural do Brooklyn, Nova York.

"Já era", disse Geoffrey Knoop, 39 anos, um músico de rock. "Eu quero pedir desculpas para as pessoas que se sentiram prejudicadas", ele acrescentou. "A coisa chegou a um nível que eu não esperava."

Geoffrey disse que teve um papel importante na criação de J.T. Leroy, que desenvolveu um status literário cult. "No aspecto comercial, eu corria muito diariamente", disse Geoffrey. "Enviando coisas e contatando pessoas, tomando decisões sobre o que faríamos ou não."

Geoffrey, cuja meia-irmã de 25 anos, Savannah Knoop, foi desmascarada pelo "The New York Times" no mês passado como sendo o rosto público de J.T. Leroy, disse que decidiu se apresentar por temer que seu filho, parentes e outros fossem afetados pelo que chamou de teia de mentiras que consumia a tudo. Ele disse que ele e Laura se separaram em dezembro, em grande parte devido ao estresse causado pela farsa. Ele disse que eles estão disputando a custódia do filho. "Se você se sente cada vez mais sufocado pelas complicações e mentiras, então não vale a pena", ele disse.

Geoffrey contratou um advogado de entretenimento de Los Angeles e disse que espera vender um filme sobre sua experiência. (A revista "New York" citou na segunda-feira uma fonte anônima dizendo que Geoffrey está buscando vender um livro sobre a história de Leroy, o que Geoffrey negou.)

As declarações e relato de Geoffrey Knoop -o primeiro de alguém envolvido na trama- poderão ajudar a solucionar de uma vez por todas uma fraude literária realmente bizarra, uma que envolveu inúmeras pessoas, muitas delas celebridades e figuras literárias de renome, que contataram pessoalmente e por telefone alguém que achavam estar extraindo literatura de uma infância terrível.

"As pessoas foram generosas porque acharam estar ajudando um ex-prostituto, ex-viciado em drogas, portador de HIV, que estava usando as dificuldades de sua vida para produzir arte", disse Ira Silverberg, o ex-agente literário de J.T. Leroy e um de seus defensores iniciais.

Na entrevista, Geoffrey traçou a origem e execução do plano, que ele disse ter sido motivado pelo desejo comum dele e de Laura de terem seu trabalho artístico -a música dele e os textos delas- reconhecidos por um público maior. O advogado de Laura Albert, Peter Cane, de Manhattan, se recusou a comentar. Uma pessoa que atendeu o telefone na casa de Laura desligou o telefone na cara do repórter.

Geoffrey disse que a trama começou em 1996, quando Laura buscou entrar em contato com Dennis Cooper, um conhecido escritor gay de ficção cujo trabalho ela admirava. Preocupada com a possibilidade de Cooper poder não se interessar em se comunicar com uma mulher na faixa dos 30 anos, Laura teve a idéia de abordá-lo como um adolescente problemático apelidado de "Terminator" (Exterminador), com uma biografia de prostituição de rua.

Cooper disse que sua lembrança daquele primeiro telefonema era consistente com o relato de Geoffrey. Ele disse que a história da vida do Terminator parecia saída das páginas de um de seus romances.

"Ele parecia muito um de meus personagens, de forma que fiquei interessado", disse Cooper.

A conversa prosseguiu sem problemas, disse Geoffrey, e logo Cooper e o Terminator -Laura mudou posteriormente seu nome para J.T. ("Jeremy
Terminator") Leroy- se falavam com freqüência sobre os textos de Laura. No final Cooper estava defendendo J.T. Leroy junto a escritores como Bruce Benderson assim como entre vários editores proeminentes de Manhattan. Como J.T. Leroy, Laura também solicitou com sucesso conselhos editoriais de escritores como Michael Chabon e Dave Eggers.

À medida que os livros de J.T. Leroy ganhavam leitores -o primeiro, "Sarah", foi publicado em 2000, seguido de "The Heart Is Deceitful Above All Things" em 2001- disse Knoop, o interesse da mídia em J.T. Leroy e sua história improvável aumentou. Quando um canal de televisão alemão pediu uma entrevista na época em que "Sarah" foi publicado, disse Geoffrey, ele e Laura recrutaram sua meia-irmã, Savannah, para que fizesse o papel dele. Ela usou uma peruca e óculos escuros como disfarce, ele disse, o que acabou se tornando sua marca registrada.

Savannah Knoop não retornou as mensagens de voz que lhe pediam comentários.

"A princípio visava apenas validá-lo", disse Geoffrey. "Se falava muito nele, mas você não podia se encontrar com J.T."

"Nós precisamos fazer apenas uma aparição ou duas", ele disse, resumindo o pensamento na época. "Então J.T. voltaria a ser um escritor recluso."

Mas isso não aconteceu. Em vez disso, em 2002, Laura organizou uma turnê européia de promoção de livro de seis semanas com vários editores europeus de J.T. Leroy. Savannah Knoop continuou interpretando Leroy em público, com Laura no papel de sua acompanhante. A viagem culminou em um grande evento em Roma, no qual Savannah Knoop, como J.T. Leroy, realizou uma leitura enquanto estava escondida sob uma mesa.

Mas o ardil, disse Knoop, logo começou a pesar no relacionamento do casal. Ele disse que tentou convencer Laura a abandonar a fraude, assumindo o crédito pelas obras de J.T. Leroy ou simplesmente deixando o personagem desaparecer lentamente, mas ela se recusou.

Apesar de Geoffrey Knoop e Laura Albert terem vivido juntos por anos, eles não eram legalmente casados. Se Geoffrey quiser compartilhar do dinheiro gerado pelos livros e filmes de J.T. Leroy, ele terá que demonstrar que participou integralmente da fraude.

O relato de Geoffrey também esclarece um dos aspectos mais confusos da história de Leroy, o envolvimento do psicólogo da Bay Area (Califórnia), o dr. Terrence Owens, a quem J.T. Leroy freqüentemente creditava pelo início de sua carreira como escritor. Vários escritores, incluindo Benderson e Patti Sullivan, uma escritora que trabalhou no roteiro para cinema de "Sarah", disseram que participaram de teleconferências com Owens e J.T. Leroy quando o escritor estava supostamente sofrendo de problemas psicológicos. O envolvimento de um psicólogo legítimo deu credibilidade à farsa, eles disseram.

Geoffrey disse que o próprio Owens foi enganado. Ele realizava suas sessões com J.T. Leroy por telefone, disse Geoffrey, e que se encontrou com o dublê apenas uma vez, no final dos anos 90.

Em um telefonema, Owens disse não conhecer Geoffrey e que a confidencialidade médico- paciente o impedia de falar. "Eu sei que isto não atende a curiosidade do público, mas tenho uma obrigação diferente", disse Owens.

Geoffrey disse não acreditar que Laura algum dia admitirá seu papel na farsa de J.T. Leroy.

"Para ela é muito pessoal", ele disse. "Não é uma fraude, é uma parte dela." George El Khouri Andolfato

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