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07/02/2006

Holanda vai devolver arte apreendida por nazistas

The New York Times
Alan Riding

Em Paris
Em uma das maiores restituições de arte apreendida pelos nazistas, o governo holandês anunciou na segunda-feira (6/2) que ia devolver mais de 200 pinturas à herdeira de Jacques Goudstikker, um rico judeu marchand e colecionador holandês que fugiu de Amsterdã diante do avanço das tropas alemães, em maio de 1940.

Os trabalhos incluem pinturas a óleo de Jan Steen, Fillipo Lippi, Anthony van Dyck, Salomon van Ruysdael, Jan Mostaert e Jan van Goyen que estavam penduradas em 17 museus holandeses e outros prédios governamentais desde os anos 50. Nenhuma estimativa de seu valor de mercado foi divulgada.

Rijksmuseum, Amsterdam via The New York Times 
"O Sacrifício de Ifigênia", quadro feito em 1671 por Jan Steen, é uma das obras recuperadas

A restituição será o clímax de uma campanha de oito anos de Marei von Saher, de Greenwich, Connecticut, viúva do filho de Goudstikker, e obedece uma recomendação feita em dezembro pelo Comitê de Restituições nomeado pelo governo holandês. Tanto o governo quanto uma corte holandesa haviam se recusado a reabrir o caso.

"Estupefata, entusiasmada, exaltada", disse von Saher, descrevendo sua reação em uma entrevista telefônica de Haia, para onde tinha viajado para esperar a decisão do governo. "Não consigo acreditar que, depois dessa longa batalha, finalmente vencemos." Ela creditou o resultado a seus advogados e "à mudança dos tempos, porque as pessoas estão vendo as vítimas de Holocausto de forma diferente".

Von Saher, 61, disse que agora vai avaliar a arte recuperada e o que pode ser feito com ela: "Não é o tamanho ou o valor" que importa, mas o legado de Goudstikker. Sua filha, Charlene, disse: "Uma injustiça histórica está sendo corrigida."

Anunciando a decisão, Medy van der Laan, vice-ministra da cultura da Holanda, disse que o governo concluíra que devolver os trabalhos era a atitude moralmente correta. Ao mesmo tempo, anunciou que os museus holandeses não receberão compensação por suas perdas e concluiu: "Será uma sangria para alguns de nossos museus."

Desde meados dos anos 90, quando houve renovada atenção para a arte das famílias judias roubada pelos nazistas e nunca devolvida, a única restituição maior que esta envolveu cerca de 250 obras devolvidas ao ramo vienense da família Rothschild pelo governo austríaco, em 1999.

Goudstikker, que tinha 42 anos quando morreu em um acidente no barco que o levava para a segurança, era um dos mais proeminentes marchands e colecionadores de arte. No inventário que carregava quando fugiu, listou pinturas de van Gogh, Rembrandt, Velazquez, Goya, Rubens, Titian e Tintoretto entre as 1.113 obras que deixara para trás. Ele havia deixado outras tantas em suas várias propriedades.

A coleção foi comprada em julho de 1940 pelo líder nazista Hermann Goering e seu marchand, um empresário alemão chamado Alois Miedl. Goering, que montou uma importante coleção de arte durante a guerra, teria ficado com 779 quadros.

Governos holandeses argumentaram que as vendas de 1940 a Goering e Miedl foram voluntárias, porque foram aprovadas por dois funcionários de Goudstikker e sua mãe, Emily. Entretanto, de seu refúgio nos EUA, a viúva de Goudstikker, Desiree, foi contra a venda. Além disso, há evidências de que Emily Goudstikker deu sua aprovação em troca de proteção de represálias contra judeus.

Miedl também comprou a galeria de Goudstikker e usou seu prestígio para vender milhares de outras obras de arte, muitas de judeus, durante a Segunda Guerra Mundial.

A maior parte das melhores pinturas de Goudstikker nunca foi recuperada e é provável que muitas tenham entrado para coleções privadas e museus em torno do mundo. Das 335 obras que voltaram para a Holanda depois da guerra, o governo vendeu entre 65 e 70 durante os anos 50. Das 267 incorporadas na Coleção Nacional Holandesa, 202 agora estão sendo devolvidas.

A restituição deve deixar buracos nas coleções de vários importantes museus, inclusive o Rijksmuseum em Amsterdã e o Mauritshuis em Haia, o Frans Hals Museum em Haarlem, o Boijmans van Beuningen Museum em Roterdã e, o mais afetado, Bonnefantenmuseum, em Maastricht.

Entre os tesouros apontados pelos especialistas está o "Sacrifício de Iphigenia", de Steen em 1671, "Barca em um Rio", de van Ruysdael, 1649, "Cena de Inverno com um Albergue perto de um Riacho Congelado", de Isaac van Ostade, e "Vista de Dordrecht", de van Goyen, 1651. Ronald de Leeuw, diretor do Rijksmuseum, que vai entregar 15 quadros, identificou dois trabalhos ícones: "Vista de Delft", de Daniel Vosmaer, 1663, e "Episódio da Conquista da América", de Mostaert, 1540.

Lawrence M. Kaye da firma nova-iorquina que representa von Saher -Herrick, Feinstein- acrescentou que cerca de 1.000 obras da coleção de Goudstikker ainda estão espalhadas. Ele disse que uma equipe de especialistas estava procurando por elas e que, até agora, 32 tinham sido recuperadas de museus na Europa e Israel, assim como de algumas coleções privadas. "Identificamos uma série de obras e vamos fazer os pedidos", acrescentou.

A restituição das obras de Goudstikker na Holanda foi enormemente complicada pelo fato de Goering e Miedl terem pagado pelas pinturas, e Desiree Goudstikker, viúva do marchand, ter assinado um acordo com o governo holandês em 1952 renunciando a qualquer pretensão sobre as obras adquiridas por Miedl.

No final dos anos 40, Desiree Goudstikker comprou de volta 165 pinturas encontradas na galeria Goudstikker no final da guerra assim como imóveis, inclusive o Castelo de Nijenrode, que fora de seu marido. Quando assinou o acordo sobre as chamadas pinturas de Miedl, em 1952, entretanto, ela anexou uma declaração expressando seu "profundo desapontamento" com o resultado e observando que estava fazendo sacrifícios "extremamente injustos".

Depois disso, aparentemente, deu as costas para a arte. Em 1959 ela se casou com A.E.D., e Edward, seu filho com Goudstikker, adotou o nome de von Saher. Desiree von Saher morreu em fevereiro de 1996, e Edward cinco meses depois. A viúva de Edward disse que não sabia nada sobre o legado de Goudstikker até que um jornalista holandês, Pieter den Hollander, procurou-a com as informações sobre a coleção, em 1997.

Em janeiro de 1998, von Saher pediu formalmente a devolução das pinturas, mas dois meses depois seu pedido foi negado pelo governo holandês, que disse que Desiree Goudstikker tinha renunciado às pinturas de Miedl e tinha "deliberadamente e conscientemente evitado" solicitar as pinturas de Goering.

Von Saher apelou da decisão, mas em dezembro de 1999 uma corte holandesa disse que não tinha competência para derrubar uma determinação do governo e que o pedido para reabertura do caso era "inadmissível" porque tinha sido feito depois de uma lei de limitações que entrou em vigor em 1951.

Enquanto isso, consciente da controvérsia em torno do caso de Goudstikker, o governo holandês formou uma comissão para investigar a origem de todas as obras de arte em seus museus. Isso, por sua vez, levou à criação do Comitê de Restituições, de sete membros, com o mandato de estudar pedidos específicos. Até agora, estudou 19 pedidos e recomendou a restituição em 14 casos.

Em abril de 2004, von Saher pediu ao comitê a restituição de 267 obras. Em sua recomendação, divulgada na segunda-feira, o comitê concluiu que as vendas de arte e propriedade para Goering e Miedl foram "involuntárias". E mais: apesar de reconhecer que Desiree Goudstikker abdicara de seus direitos às pinturas de Miedl, decidiu que isso não se aplicava às obras entregues a Goering.

O comitê ainda recomendou que os herdeiros de Goudstikker não fossem obrigados a pagar pelas obras. Observou que ao menos 63 das pinturas da lista foram vendidas pelo governo holandes, que ficou com a renda; que o governo tinha usado as pinturas por quase 60 anos sem pagamento; e que quatro estavam faltando.

Em conclusão, o comitê recomendou a devolução de 202 dos 267 quadros pedidos por von Saher; observou que 40 não eram comprovadamente relacionados a Goudstikker; 21 faziam parte da coleção de Miedl, coberta pelo acordo de 1952; e quatro estavam perdidas. Uma das obras perdidas é "São João quando Criança", de Parmigianino, uma pequena pintura a óleo que foi recuperada do acervo de Hitler em 1945 e desapareceu inexplicavelmente da coleção holandesa em 1959.

De acordo com noticiários holandeses, o anúncio de segunda-feira foi adiado vários dias pelo ministro da justiça, Piet Hein Donner, que objetou à idéia de que o Comitê de Restituições poderia derrubar um veredicto da justiça de 1999. Mas a imprensa disse que, eventualmente, ele aceitou a restituição com base moral e ética. A decisão final de devolver as pinturas foi aprovada pelos ministros da Holanda na sexta-feira. Rico acervo de marchand judeu foi confiscado por alemães em 1940 Deborah Weinberg

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