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08/02/2006

Democratas temem não faturar politicamente com problemas dos republicanos no poder

The New York Times
Adam Nagourney e Sheryl Gay Stolberg

Em Washington
Os democratas estão começando este ano eleitoral em uma posição mais frágil do que esperavam, dizem os líderes do partido, gerando temores de que eles possam estar deixando passar uma oportunidade de explorar aquilo que vêem como vulnerabilidades generalizadas dos republicanos.

Ting-Li Wang/The New York Times - 29.jul.2004 
Militante usa chapéu com o "burrinho", mascote do partido, durante a Convenção Nacional Democrata, em 2004
Em entrevistas, democratas graduados disseram estar otimistas com a possibilidade de obterem ganhos notáveis nas eleições parlamentares do próximo outono, tendo descrito este como o melhor clima político que já tiveram desde que Bush assumiu a presidência.

Mas os democratas descreveram uma sensação crescente de que não conseguiram capitalizar integralmente os problemas que atormentam Bush e o seu partido desde meados do ano passado, e que fizeram com que a popularidade do presidente caísse, criaram divisões entre os parlamentares republicanos quanto às políticas do governo, e abriram espaço para uma alteração do controle da Câmara e do Senado em novembro próximo.

Quando lhe pediram para descrever a saúde do Partido Democrata, o senador Chris Dodd, de Connecticut, ex-presidente do Comitê Nacional Democrata, afirmou: "Está bem pior do que deveria. Estes dois últimos meses não foram muito bons para nós. Parece que estamos perdendo a força do nosso discurso ao falarmos sobre as questões básicas com as quais a população se preocupa", disse ele.

Os democratas afirmam que ainda não determinaram como vão conter o ataque desfechado durante anos pela Casa Branca contra a competência do seu partido no que se refere a questões de segurança nacional. E eles dizem que as suas oportunidades de atingirem os eleitores com uma mensagem coerente sobre a política doméstica e externa --caso definam tal política-- ficaram restritas pela ausência de um líder consolidado e de expressão nacional que fosse capaz de veicular tal mensagem durante a campanha.

Como resultado, dizem certos democratas, o seu partido poderia perder a sua chance de fazer com os republicanos neste ano o que os republicanos fizeram com eles em 1994 --vender a eleição de metade de mandato presidencial, normalmente dominada por questões regionais e locais, e que costuma ser um referendo sobre o partido que está no poder.

"Creio que dois terços dos norte-americanos acreditam que o país está indo na direção errada --eles ainda não sabem ao certo se os democratas são capazes de se mover na direção correta", afirma o senador Barack Obama, novo senador do Estado de Illinois, que é visto como uma das estrelas promissoras do partido.

Obama disse que o Partido Democrata não aproveitou o momento, acrescentando: "Estamos há muito tempo em uma posição reativa. Creio que fomos muito bons em dizer não, mas que não fomos suficientemente talentosos em dizer sim".

Alguns democratas dizem que prefeririam permanecer às margens do processo por um determinado período, enquanto os republicanos se debatem sob os holofotes de um inquérito sobre corrupção. E outros afirmam que ainda há tempo para que o partido monte uma estratégia mais conjunta. Mas muitos outros advertem que o partido precisa aproveitar o momento para apresentar uma agenda ampla de governo, ainda que expressem preocupações a respeito de qual membro das suas fileiras seria capaz de fazer a argumentação necessária.

Os seus temores se agravaram com a imagem de democratas famosos, incluindo o senador Edward M. Kennedy, de Massachusetts, questionando a legalidade do programa de Bush de interceptações secretas de comunicações, nesta semana, em um momento no qual a Casa Branca procurava apresentar os democratas como frágeis no campo da segurança.

"Estamos vendendo uma imagem fraca do nosso partido --precisamos fazer muito mais do que apenas atacar o outro lado", afirma Phil Bredesen, o governador democrata do Tennessee. "O país está pronto para ouvir alternativas, mas não creio que esteja tão aberto para assimilar todas essas críticas", disse ele. "Estou sentado aqui, recebendo todos os meus e-mails sobre as coisas que deveríamos falar sobre o discurso do presidente, e sinto que estamos muito fracos com relação a idéias. É como se disséssemos simplesmente, 'Somos a favor dos empregos e dos Estados Unidos'".

Até certo ponto, as frustrações que afligem os democratas são típicas de um partido que está fora do poder. No Congresso, os democratas se tornaram em grande parte marginalizados pela maioria republicana, o que os privou de uma plataforma pronta pra fazerem ataques ou apresentarem as suas próprias idéias. As campanhas presidenciais tipicamente produzem líderes partidários proeminentes, seguidos em todo o país por uma multidão de repórteres e equipes de televisão, mas para isso faltam pelo menos dois anos.

Mas, sob vários aspectos, os problemas do Partido Democrata parecem particularmente emaranhados hoje em dia, sendo uma fonte de frustração para os líderes democratas que vêem como as pesquisas de opinião revelam que o povo está decepcionado como Partido Republicano e receptivo à liderança democrata. E os problemas estão incomodando os democratas em um momento crítico, quando eles procuram se adaptar a uma alteração do cenário político norte-americano, e quando a Casa Branca se engaja em esforços concentrados para conquistar parcelas tradicionalmente democratas do eleitorado.

Desde a reeleição de Bush, os democratas estão divididos quanto a duas estratégias: abordar os republicanos de forma mais agressivos, em termos ideológicos e de tática política, ou se movimentarem mais agressivamente no campo das questões sociais e de segurança nacional. Eles estão sendo pressionados, a partir da esquerda do partido, representada por novos e agressivos integrantes, e por grupos de interesse cada vez mais frustrados, para defenderem aquilo que dizem ser os valores liberais históricos do partido.

Mas entre os democratas mais tradicionais, há a preocupação de que vários dos líderes mais visíveis do partido --entre eles, Howard Dean, o presidente do partido; o senador John Kerry, candidato presidencial do partido em 2004; Kennedy; a deputada Nancy Pelosi, a líder da minoria na Câmara; e Al Gore, que passou a aparecer ostensivamente à medida que o partido ruma para as primárias presidenciais de 2008 --sejam mensageiros falhos.

Sob tal ótica, os democratas mais visíveis estão vulneráveis a ataques republicanos que os apresentem como deslocados do consenso nacional em questões que vão da segurança aos cortes no orçamento.

Uma das mais proeminentes integrantes do partido, a senadora Hillary Rodham Clinton, de Nova York, tem estado relativamente ausente de grande parte deste debate democrata nacional, em uma demonstração característica de cautela pública que, segundo os seus assessores, é um reflexo da sua preocupação em se manter focada na sua campanha pela reeleição ao Senado em Nova York. Hillary, que conta com uma oposição frágil à sua campanha para um segundo mandato, rejeitou os pedidos para que concedesse uma entrevista para discutir as suas idéias com relação ao partido.

Kerry, um democrata de Massachusetts, disse que a autoridade do partido foi diluída devido à ausência de um ou dois líderes óbvios, embora tenha dito estar confiante quanto à mudança desse quadro.

"Estamos lutando para encontrar uma voz sob circunstâncias difíceis, e estou confiante em que nos próximos meses encontraremos esta voz", disse Kerry em uma entrevista. "O nosso megafone simplesmente não é tão grande quanto o deles, e temos tido dificuldade para transmitir a nossa mensagem, mesmo quando as pessoas estão sintonizadas com ela".

Além disso, embora exista uma abundância de questões que os democratas podem usar contra os republicanos --como a corrupção, a guerra no Iraque, os preços da energia e o sistema de saúde--, os líderes do partido estão divididos quanto aquilo sobre o que os democratas deveriam falar, e sobre a presteza com que deveriam se engajar em tal debate.

Em um discurso feito na semana passada em Washington, e em uma entrevista à imprensa, o senador Evan Bayh, de Indiana, que está pensando em disputar a presidência em 2008, criticou os democratas que argumentam que o partido deveria se concentrar somente nas questões domésticas, e se afastar da questão da segurança nacional, já que este tem sido o ponto forte da Casa Branca desde os ataques de 11 de setembro.

"Creio que já há condições para se contestar os republicanos quanto a isso, mas não antes de reabilitarmos a nossa própria imagem", disse Bush em uma entrevista. "Creio que há um certo elemento de negação quanto à forma como somos vistos, talvez incorretamente, mas de qualquer forma, vistos, por muitos norte-americanos, que nos consideram deficientes quanto à questão da segurança nacional".

No seu discurso no Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, Bayh disse: "Como democratas, temos um dever patriótico e político imperativo de apresentar as nossas idéias para a proteção dos Estados Unidos. Francamente, os nossos cidadãos têm dúvidas quanto a nós. Temos um trabalho a fazer".

Alguns democratas argumentam que o partido teve tempo para apresentar as suas idéias, e que seria mais inteligente aguardar até mais tarde, quando os eleitores estiverem prestando atenção. "Quando apresentamos essas questões prematuramente, damos oportunidade aos republicanos a destruírem as nossas propostas", alerta o senador Richard J. Durbin, democrata por Illinois.

Mas John Edwards, o candidato a vice-presidente em 2004 e possível candidato presidencial em 2008, disse achar que os norte-americanos estão ansiosos por ouvir propostas contrastantes vindas do partido de oposição.

"O povo norte-americano está louco para ouvir de nós qual é a diferença", disse ele em uma entrevista. "O que faremos? Como lidaremos com a questão da corrupção em Washington? Como lidaremos com as grandes questões de ordem moral que temos no campo doméstico. Esta é uma grande oportunidade para que o nosso partido revele a sua substância".

Historicamente, pelo menos, os democratas deveriam estar em uma posição de força: o partido que não está no poder tipicamente ganha cadeiras na eleição parlamentar de metade do segundo mandato presidencial. E os democratas disseram que tinham uma argumentação para reduzir o poder dos republicanos no Congresso neste ano, devido às investigações de corrupção centradas na Casa Branca e no parlamento, incluindo o caso envolvendo o lobista Jack Abramoff.

"Vamos martelar sobre ponto", disse Dean, o presidente do partido, referindo-se aos escândalos. "Uma coisa que os republicanos nos ensinaram foi que os valores e o caráter têm importância".

Mas alguns democratas advertiram que seria um erro falar apenas sobre ética. "É absolutamente necessário que o partido fale sobre outras coisas além do escândalo Abramoff", afirma Martin Frost, democrata do Texas, e ex-líder do Comitê de Campanha Parlamentar Democrata. "Creio que as condições são totalmente propícias para recuperarmos a Câmara, o Senado, ou ambos. Mas não dá para fazer tal coisa sem um programa".

E Bayh disse: "Não creio que venceremos apenas pelo fato de não sermos republicanos". Pelosi, a líder democrata, não contesta esse argumento, mas referindo-se à estratégia democrata para derrotar a proposta de Bush para o Social Security, ela disse que não há motivo para correria. "As pessoas dizem que não dá para derrotar algo se não se tem nada nas mãos", disse ela, argumentando que foi precisamente isso o que os democratas fizeram neste ano. "Tenho muita confiança na posição em que nos encontramos".

E a senadora Barbara Boxer, democrata da Califórnia, disse: "Temos uma estratégia. Primeiro, convencer o povo norte-americano de que aquilo que está acontecendo em Washington não está funcionando. Atingimos este objetivo. Agora temos que, neste estágio, convencer a população de que somos aqueles que promoverão uma mudança positiva". Lideranças dizem que partido precisa de discurso e estratégia, para vencer partido de Bush neste ano e retomar controle do Congresso Danilo Fonseca

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