UOL Notícias Internacional
 

08/02/2006

Estudo demonstra que dieta de baixa gordura não impede câncer ou doenças no coração

The New York Times
Gina Kolata

Em Nova York
O maior estudo já realizado para descobrir se uma dieta de baixa gordura impede as mulheres de desenvolverem câncer ou doença cardíaca revelou que a dieta não teve nenhum efeito.

O estudo federal de US$ 415 milhões envolveu aproximadamente 49 mil mulheres com idades entre 50 e 79 anos, que foram acompanhadas por oito anos. No final, as que realizaram dietas de baixa gordura apresentaram a mesma incidência de câncer de mama, câncer de cólon, ataque cardíaco e derrame que aquelas que comiam qualquer coisa que desejassem, informaram os pesquisadores nesta terça-feira (7/2).

"São três estudos totalmente negativos", disse o dr. David Freedman, um estatístico da Universidade da Califórnia em Berkeley, que não está ligado ao estudo, mas escreveu livros sobre projeto e análise de testes clínicos. E, ele disse, os resultados devem ser levados a sério pelo que são --uma tentativa rigorosa que fracassou em confirmar uma hipótese popular de que uma dieta de baixa gordura pode impedir três importantes doenças nas mulheres.

E os estudos foram tão grandes e tão caros que são "os Rolls Royces dos estudos", disse o dr. Michael Thun, que dirige o centro de pesquisa epidemiológica para a Sociedade Americana do Câncer. Assim, ele disse, provavelmente eles serão a palavra final.

"Nós geralmente temos apenas uma chance de um estudo em grande escala sobre uma questão em particular", disse o dr. Thun.

Os estudos fizeram parte da Iniciativa da Saúde da Mulher dos Institutos Nacionais de Saúde, o mesmo programa que mostrou que a terapia hormonal após a menopausa apresentava mais riscos do que benefícios. Neste caso, os estudos de dieta trataram de um problema complicado. Por décadas, muitos cientistas diziam, e muitos membros da população acreditavam, que o que você come --a composição da dieta-- determina a probabilidade de você desenvolver uma doença crônica.

Mas tem sido difícil de provar. Os estudos de fibras alimentares e câncer de cólon fracassaram em provar que a fibra era protetora. Os estudos de vitaminas que supostamente protegeriam contra o câncer fracassaram em mostrar algum efeito.

Gradualmente, muitos pesquisadores de câncer começaram a questionar a hipótese gordura alimentar-câncer, mas ela manteve força na imaginação popular.

"Nada fascina tanto a população americana do que a noção de que o que você come em vez de quanto você come afeta sua saúde", disse o dr. Peter Libby, um cardiologista e professor da Escola de Medicina de Harvard.

Mas os novos estudos, relatados na edição de 8 de fevereiro do "Journal of the American Medical Association", revelaram que as mulheres que foram designadas aleatoriamente a praticar uma dieta de baixa gordura comeram uma quantidade significativamente menor de gordura ao longo de oito anos. Mas elas apresentaram a mesma incidência de câncer de mama e cólon, assim como de doença cardíaca.

E, confundindo muitas noções populares sobre gordura na dieta, as dietas diferentes não fizeram muita diferença no peso das pessoas. A crença comum de que os carboidratos na dieta levam a níveis mais elevados de insulina, níveis maiores de glicose no sangue e mais diabete também não foram confirmados. Não ocorreu nenhum efeito entre as mulheres que se alimentavam com dieta de baixa gordura.

Quanto aos fatores de risco de doença cardíaca, o único afetado foi o colesterol LDL, que aumenta o risco de doença cardíaca. Os níveis eram ligeiramente maiores nas mulheres que tinham uma dieta com maior gordura, mas não o suficiente para fazer uma diferença notável em seu risco de doença cardíaca.

Os estudos seguem uma pesquisa menor, divulgada no ano passado, sobre dietas de baixa gordura para mulheres que tiveram câncer de mama. Aquele estudo insinuou que comer menos gordura poderia ajudar a impedir a recorrência. Mas o atual estudo, que perguntava se uma dieta de baixa gordura poderia proteger as mulheres da ocorrência de câncer de mama, apresentou resultados que ficaram aquém da relevância estatística, o que significa que poderiam ter ocorrido por acaso. Resumindo, não há evidência sólida de que uma dieta de baixa gordura ajuda na prevenção.

"Estes estudos são revolucionários", disse o dr. Jules Hirsch, médico-chefe emérito da Universidade Rockefeller, que passou uma vida estudando os efeitos das dietas sobre o peso e a saúde. "Eles devem colocar um fim a esta era de pensamento de que dispomos de toda a informação que precisamos para mudar toda a dieta nacional e tornar todos saudáveis."

Apesar de todas as participantes do estudo terem sido mulheres, os resultados de câncer de cólon e doença cardíaca devem se aplicar aos homens, disse o dr. Jacques Rossouw, o diretor do projeto para a Iniciativa da Saúde da Mulher. Ele explicou que os estudos de observação que levaram à hipótese de câncer de cólon-gordura alimentar revelaram consistentemente que as mulheres e homens respondiam da mesma forma à gordura alimentar.

Os resultados, concordaram os investigadores do estudo, não justificam a recomendação de dietas de baixa gordura para a população para redução seu risco de doença cardíaca e câncer.

Quanto à sociedade do câncer, disse o dr. Thun, com estes resultados que ele descreveu como "completamente nulos no estudo de oito anos sobre ambos os cânceres e doença cardíaca", seu grupo não tem planos para sugerir que as dietas de baixa gordura protegem contra o câncer.

Mas o dr. Rossouw disse que ainda está intrigado com os dados de câncer de mama, apesar de não serem estatisticamente significativos. As mulheres em baixa dieta de gordura apresentaram um taxa 9% menor de câncer de mama --a incidência foi de 42 entre 1.000 por ano nas mulheres que realizaram dieta de baixa gordura, em comparação a 45 entre 1.000 por ano nas mulheres que realizaram uma dieta normal.

Isto poderia significar que a gordura na dieta pode ter um efeito pequeno, disse o dr. Rossouw, talvez em alguns subgrupos de mulheres, ao longo de um período mais longo de tempo. Ele acrescentou que os pesquisadores do estudo continuarão acompanhando as mulheres para ver se o efeito se torna mais pronunciado.

Outro dos investigadores do estudo, o dr. Rowan Chlebowski, um oncologista do Centro Médico Harbor-Universidade da Califórnia em Los Angeles, compartilha as esperanças de Rossouw em relação à dieta de baixa gordura. "Haverá interpretações diferentes, mas há motivo para otimismo", disse Chlebowski.

Apesar de os pesquisadores de câncer terem dito ter ficado decepcionados com os resultados, os pesquisadores de doenças cardíacas disseram não ter ficado totalmente surpresos com a simples redução da gordura total não ter tido efeito.

"O problema é que este estudo foi concebido duas décadas atrás, quando a moda era baixa gordura", disse o dr. Libby. Agora, ele disse, ele e outros foram persuadidos de que a chamada dieta do Mediterrâneo é a melhor --não necessariamente redução de gordura, mas redução de gordura saturada, como manteiga e queijo cremoso. Isto, somado a exercício, deve ajudar a prevenir doença cardíaca, ele disse.

Mas, é claro, tal conselho nunca foi testado em um grande teste clínico aleatório, reconheceu o dr. Libby. E, ele disse, "se realizarem um estudo a respeito e der negativo, então terei que desistir das minhas hipóteses queridas em prol dos dados".

A dieta de baixa gordura não foi fácil, notou o dr. Chlebowski. As mulheres foram instruídas a realizar uma dieta que continha apenas 20% de suas calorias na forma de gordura. A maioria cortou substancialmente sua gordura alimentar, mas a maioria ficou aquém da meta de 20%. A dieta que foram instruídas a realizar "é diferente do que a maioria das pessoas come", disse o dr. Chlebowski. Ela significou, por exemplo, nada de manteiga no pão, nada de queijo cremoso em roscas, sem óleo no tempero das saladas.

"Se um médico disser a um paciente para comer menos gordura, isto não terá efeito nenhum", ele disse. "Se você enviar alguém a um dietista, isto representará quase nada." As mulheres no estudo participaram de 18 sessões em pequenos grupos com nutricionistas treinados no primeiro ano e quatro sessões por ano depois disto.

No primeiro ano, as mulheres em dieta de baixa gordura reduziram o percentual de gordura em sua dieta para 24% das calorias diárias e no final do estudo suas dietas continham 29% de calorias na forma de gordura. No primeiro ano, as mulheres no grupo de controle ingeriam 29% de suas calorias como gordura e no final sua dieta de gordura continha 37%. Alguns especialistas destacaram que o estudo não significa que as pessoas devam abandonar as dietas de baixa gordura.

"O que estamos dizendo é que uma redução modesta de gordura e uma substituição por frutas e legumes não representou nada para doença cardíaca, derrame, câncer de mama ou câncer cólon-retal", disse o dra. Nanette Wenger, uma cardiologista e professora de medicina da Escola de Medicina da Universidade Emory. "Mas não quer dizer que não seja benéfica", ela acrescentou.

Mas a lição geral, disse o dr. Freedman, é clara.

"Muitos dados de observação mostram que a dieta importa, mas tais estudos apresentam grandes falhas e este é o motivo para fazermos experiências", ele disse. "Nós, a comunidade científica, tendemos a agir de forma histérica e a dar conselhos de dieta baseados em evidência trivial." Pesquisa realizada com 49 mil mulheres traz conclusão consistente George El Khouri Andolfato

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