UOL Notícias Internacional
 

08/02/2006

Morte, violência e caos marcam a eleição no Haiti

The New York Times
Ginger Thompson*

Em Porto Príncipe, Haiti
Depois de mais de um ano de planejamento, as eleições presidenciais começaram na terça-feira (9/2) com sinais da mesma tensão e desordem que mantiveram esta pobre nação à beira do caos pelos últimos dois anos.

Ao menos quatro pessoas morreram em um dia atormentado pela raiva e confusão, enquanto muitos postos de votação abriram com horas de atraso. Duas pessoas morreram de exaustão no empurra-empurra para votar; um homem na cidade do noroeste de Gros Morne foi morto por um policial. Mais tarde, este foi linchado por uma multidão vingativa que o matou a golpes de facão e queimou seu corpo, disse uma rádio haitiana.

Tyler Hicks/The New York Times 
Haitianos fazem fila para votar, observados por policial, na periferia da capital do país

A votação foi organizada pelas organizações das Nações Unidas e dos Estados Americanos e um governo interino instalado pelos EUA. No entanto, observadores políticos haitianos e coordenadores internacionais, incluindo o secretário geral da OEA, Jose Miguel Insulza, admitiram problemas. Mesmo assim, disseram que assim como a votação gerou demonstrações das profundas divisões políticas e dificuldades do Haiti, as filas de 1km de pessoas que andaram horas para votar também mostraram uma determinação e esperança por algo melhor.

"Não podemos ser complacentes", disse Insulza em uma entrevista. "Houve erros, e teremos que discuti-los. Mas o fato é que tivemos uma eleição satisfatória no Haiti, na qual muitas pessoas votaram."

Na maior parte dos postos de votação, as autoridades eleitorais disseram que mais de 50% dos eleitores registrados apareceram antes das 6h da manhã, quando deveria ser iniciada a votação. Os postos, porém, não estavam prontos para receber tantas pessoas tão cedo e abriram horas atrasados, disse Insulza.

No pobre bairro de Cite Soleil, a violência ficou tão comum que o governo interino não abriu centros eleitorais, e os moradores demonstraram sua raiva antes do início da votação.

A frustração das multidões de eleitores entrou em ebulição. As pessoas começaram a escalar paredes, destruir janelas e quebrar portas para confrontar quem trabalhava nas eleições. A polícia atirou gás lacrimogêneo, e soldados da ONU atiraram para o ar para dispersar algumas multidões agressivas.

A situação aquietou-se após o início da votação. Com a aproximação da hora de fechamento, às 16h, o presidente da comissão eleitoral haitiana, Max Mathurin, anunciou que os centros iam ficar abertos "até não haver mais nenhum eleitor na fila".

Os eleitores deixaram claro que não aceitariam nada menos. De fato, mesmo depois de chegada a noite, as pessoas continuavam votando à luz de velas em postos sem energia elétrica.

"Não quero ver a vida assim, com crianças lavando carros nas ruas em vez de freqüentarem a escola", disse Toussaint Wisley de 21 em Bom Repos. "Quero votar para as coisas poderem mudar, e a vida neste país poder ser respeitada."

Barret Kajuste, 49, disse que não se incomodou de andar uma hora para votar em Gonaives. "Estou aqui porque quero mudar meu país", disse ele. "Nunca fui empregado em minha vida. Essa é a mudança que desejo."

As eleições foram consideradas um passo crucial para a reconstrução de um país levado próximo ao colapso depois de um levante violento, protestos crescentes e pressão do ex-presidente Jean-Bertrand Aristide, derrubado pelos EUA há dois anos. Desde então, a nação, na qual mais da metade das pessoas sobrevive com menos de US$ 2 (em torno de R$ 4,50) por dia, foi arrasada com seqüestros, assassinatos e lutas políticas hostis.

Grupos de direitos humanos estimam que mais de 1.500 pessoas foram mortas desde 2004. E acusam o governo interino, chefiado pelo primeiro-ministro Gerard Latortue, de deter centenas de defensores de Aristide por motivos políticos. Enquanto isso, opositores do ex-presidente acusam gangues de rua leais a ele de conduzir uma campanha de violência pela capital para pressionar a comunidade internacional em devolver o poder a Aristide.

Essas tensões e a desconfiança delas advinda chegaram aos postos de votação.

Os incidentes mais acalorados ocorreram em Cite Soleil, onde defensores do principal candidato presidencial, René Preval, inflamaram as tensões gritando que o governo estava tentando negar às pessoas o direito a votar e que as eleições eram uma fraude.

Preval, que foi eleito presidente em 1995, era considerado homem de Aristide e herdeiro de seus partidários. Alguns eleitores abandonaram as filas de votação e iniciaram protestos. A maior parte, porém, manteve-se firme.

"Apesar da desorganização, quero cumprir meu dever cívico", disse Jean Gerald Luman, que mora perto de Cite Soleil. "As pessoas precisam de mudança. Elas precisam de empregos; precisam de comida; precisam de escolas. Mas acima de tudo, elas precisam de estabilidade", acrescentou. "É por isso que estamos votando."

Martin Landi, diretor de operações eleitorais da Missão de Estabilização da ONU no Haiti, admitiu que a votação tinha se iniciado com solavancos na manhã de terça-feira. No entanto, ele disse que a ONU tinha esperado desafios neste "ambiente inflamável".

No início da tarde, mais de 90% dos 804 postos de votação estavam em paz, disse Landi. Ele comparou as eleições no Haiti com outros países arrasados pela violência e instabilidade política, inclusive Afeganistão e Timor Leste. "Para mim, a mensagem que as pessoas estão passando é que querem votar", disse Landi. "Algumas empurram, algumas lutam, mas estão votando."

Caixas com cédulas foram destruídas em postos de votação na capital e em Gonaives, disseram observadores, gerando preocupação de fraude e ameaças de mais violência. A maior parte, porém, continuava acreditando que a votação seria transparente e justa.

Um supervisor de um posto de votação dentro de um prédio de apartamentos elegantes que Aristide construiu para funcionários do governo perto de Cite Soleil reclamou que não recebeu as cédulas e outros materiais a tempo. Em outro centro, dentro de um escritório de registro de carros, o supervisor eleitoral disse que tinha apenas cinco funcionários para cobrir 17 mesas.

Em ao menos algumas dúzias de postos de votação, os funcionários eram analfabetos e não conseguiam encontrar os nomes dos eleitores em listas alfabéticas. Então, eles tiveram que identificá-los usando páginas de fotografias, disseram as autoridades eleitorais. Eleitores analfabetos não conseguiam ler os avisos que explicavam onde votar.

Em um centro de votação em Gonaives, havia 45 mesas para 18.000 eleitores. Jacques Toussaint enfrentou quase todas as filas e até pensou em desistir e ir para casa.

"Não temos o direito a votar", disse ele, suado. "Todo lugar que eu vou, não encontro meu nome. Estou aqui desde as 6h da manhã e ainda não consegui votar."

*Colaborou Amy Bracken. Pelo menos quatro morreram em ocorrências ligadas à votação Deborah Weinberg

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